Lucifer no Hangar 110: mais do que um show, uma afirmação de cena

Lucifer - Foto: Ricardo A. Flávio - Rock On Board

Hangar 110 cheio numa quarta-feira. Quem conhece a casa há décadas sabe: isso, por si só, já diz muita coisa.

Mais do que a lotação, o que chama atenção é o contexto. Um espaço historicamente associado ao punk rock — suado, direto, sem firula — abrindo as portas para o heavy metal de Lucifer. E não como exceção exótica, mas como celebração legítima.

Isso é muito bom.

Porque, no fim das contas, sempre foi sobre isso: atitude, não rótulo.

A casa já cheia, copos na mão, conversas cruzadas e aquela ansiedade silenciosa que só quem vive o rolê entende.

Quarta-feira comum lá fora. Dentro do Hangar 110, nem um pouco.

Luzes baixam, o burburinho vira grito e a noite começa com a Space Grease.

Space Grease - Foto: Ricardo A. Flávio - Rock On Board

A banda aposta num som pesado com pegada psicodélica, construído mais na atmosfera do que na pressa. O destaque está na parte rítmica: além de um baterista seguro, um percussionista adiciona camadas que fogem do óbvio.

Na linha de frente, a vocalista reforça essa identidade usando maracas, criando um pulso orgânico que amarra tudo com naturalidade.

Não é um som que te empurra.

É um som que te envolve.

E, quando termina, já não é mais só aquecimento — parte do público já está ganho.

Sem intervalo emocional, o palco escurece de novo. Quando a lona se abre, o nome entrega: é o Lucifer.

Lucifer - Foto: Ricardo A. Flávio - Rock On Board

A mudança de clima é imediata.

Mais teatral, mais denso, mais preciso. A banda entra com segurança, sustentada por riffs sólidos e uma condução firme do começo ao fim. O Hangar 110 vira um pequeno templo — braços erguidos, gente cantando, conexão instantânea.

No centro, Johanna Sadonis conduz tudo com carisma e proximidade. Não é só presença — é troca direta com a plateia, olho no olho, gesto por gesto.

Mas o que chama atenção mesmo é como a banda funciona como um todo.

A base é sólida, as guitarras se encaixam sem disputa — Coralie Baier na sustentação e Max Eriksson nos solos — enquanto Kevin Kuhn mantém tudo no trilho com precisão.

E, no meio disso tudo, a presença de Claudia González Díaz se impõe naturalmente. Sem exagero, sem afetação — só postura, firmeza e domínio de palco. É o tipo de músico que não precisa disputar atenção: ela vem.

O repertório segue direto, sem dispersão, alternando momentos mais densos e outros mais imediatos. Quando “Lucifer” entra, a resposta é automática — vira hino. O público não oscila em nenhum momento: entrega do começo ao fim.

No bis, um dos momentos mais espontâneos da noite.

O baterista volta sozinho e começa a brincar com a plateia. Aos poucos, puxa levadas conhecidas e o Hangar 110 inteiro responde. Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Queen, Twisted Sister — não importa de onde vem, todo mundo canta.

Sem roteiro. Sem filtro.

Só música.

Quando a banda retorna, o clima já está completamente ganho. “Bring Me His Head” reacende o peso, “Goin’ Blind”, do KISS, entra como aquele momento de comunhão total — cantado junto, celebrado — e “Fallen Angel” fecha a noite em alta, de forma definitiva.

Sem espaço pra mais nada.

No fim das contas, o que se viu no Hangar 110 foi mais do que um show do Lucifer. Foi a prova de que cena não é sobre caixinha — é sobre atitude, entrega e pertencimento.

Numa quarta-feira qualquer, o underground mostrou que segue vivo.

E pulsando.

Braços erguidos, a banda reunida no palco, a resposta vindo de baixo — não como formalidade, mas como devolução.

Não tem distância.

Só continuidade.

E quando acaba, ninguém sai igual.

Lucifer - Foto: Ricardo A. Flávio - Rock On Board



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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