| Lucifer - Foto: Ricardo A. Flávio - Rock On Board |
Hangar
110 cheio numa quarta-feira. Quem conhece a casa há décadas sabe: isso, por si
só, já diz muita coisa.
Mais
do que a lotação, o que chama atenção é o contexto. Um espaço historicamente
associado ao punk rock — suado, direto, sem firula — abrindo as portas para o
heavy metal de Lucifer. E não como exceção exótica, mas como celebração
legítima.
Isso
é muito bom.
Porque,
no fim das contas, sempre foi sobre isso: atitude, não rótulo.
A
casa já cheia, copos na mão, conversas cruzadas e aquela ansiedade silenciosa
que só quem vive o rolê entende.
Quarta-feira
comum lá fora. Dentro do Hangar 110, nem um pouco.
Luzes
baixam, o burburinho vira grito e a noite começa com a Space Grease.
A
banda aposta num som pesado com pegada psicodélica, construído mais na
atmosfera do que na pressa. O destaque está na parte rítmica: além de um
baterista seguro, um percussionista adiciona camadas que fogem do óbvio.
Na
linha de frente, a vocalista reforça essa identidade usando maracas, criando um
pulso orgânico que amarra tudo com naturalidade.
Não
é um som que te empurra.
É
um som que te envolve.
E,
quando termina, já não é mais só aquecimento — parte do público já está ganho.
Sem
intervalo emocional, o palco escurece de novo. Quando a lona se abre, o nome
entrega: é o Lucifer.
Mais
teatral, mais denso, mais preciso. A banda entra com segurança, sustentada por
riffs sólidos e uma condução firme do começo ao fim. O Hangar 110 vira um
pequeno templo — braços erguidos, gente cantando, conexão instantânea.
No
centro, Johanna Sadonis conduz tudo com carisma e proximidade. Não é só
presença — é troca direta com a plateia, olho no olho, gesto por gesto.
Mas
o que chama atenção mesmo é como a banda funciona como um todo.
A
base é sólida, as guitarras se encaixam sem disputa — Coralie Baier na
sustentação e Max Eriksson nos solos — enquanto Kevin Kuhn mantém tudo no
trilho com precisão.
E,
no meio disso tudo, a presença de Claudia González Díaz se impõe naturalmente.
Sem exagero, sem afetação — só postura, firmeza e domínio de palco. É o tipo de
músico que não precisa disputar atenção: ela vem.
O
repertório segue direto, sem dispersão, alternando momentos mais densos e
outros mais imediatos. Quando “Lucifer” entra, a resposta é automática — vira
hino. O público não oscila em nenhum momento: entrega do começo ao fim.
No
bis, um dos momentos mais espontâneos da noite.
O
baterista volta sozinho e começa a brincar com a plateia. Aos poucos, puxa
levadas conhecidas e o Hangar 110 inteiro responde. Iron Maiden, Ozzy Osbourne,
Queen, Twisted Sister — não importa de onde vem, todo mundo canta.
Sem
roteiro. Sem filtro.
Só
música.
Quando
a banda retorna, o clima já está completamente ganho. “Bring Me His Head”
reacende o peso, “Goin’ Blind”, do KISS, entra como aquele momento de comunhão
total — cantado junto, celebrado — e “Fallen Angel” fecha a noite em alta, de
forma definitiva.
Sem
espaço pra mais nada.
No
fim das contas, o que se viu no Hangar 110 foi mais do que um show do Lucifer.
Foi a prova de que cena não é sobre caixinha — é sobre atitude, entrega e
pertencimento.
Numa
quarta-feira qualquer, o underground mostrou que segue vivo.
E
pulsando.
Braços
erguidos, a banda reunida no palco, a resposta vindo de baixo — não como
formalidade, mas como devolução.
Não
tem distância.
Só
continuidade.
E
quando acaba, ninguém sai igual.
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Lucifer

Como uma banda pode ter esse nome????
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