Entre o êxtase e o estranhamento: uma noite com a Blackberry Smoke em São Paulo

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

Show impecável, público em transe — e a sensação persistente de não pertencimento

A noite prometia. Casa cheia, clima de celebração e uma plateia que parecia saber exatamente o que queria — e o que ia encontrar. Antes mesmo da Blackberry Smoke subir ao palco, o ambiente já dizia muito: chapéus, couro, estética bem definida e um público homogêneo que transformava a pista numa espécie de festa country fora de contexto.

Formada no início dos anos 2000 em Atlanta, a Blackberry Smoke construiu sua trajetória longe dos holofotes imediatos, apostando em turnês constantes e numa sonoridade que cruza southern rock, country e blues sem concessões. Liderada pelo vocalista e guitarrista Charlie Starr, a banda carrega também uma marca recente: a perda de seu baterista e cofundador Brit Turner, falecido em 2024 — uma ausência que ainda ecoa na história do grupo.

Não era o meu habitat.

O estranhamento veio cedo e permaneceu. Em meio a códigos visuais e comportamentais muito claros, me vi mais como observador do que parte daquilo. Um corpo estranho em um ambiente onde tudo parecia confortável demais para quem estava ao redor — e distante demais para quem olhava de fora.

Mas então a música começou.

E não havia o que contestar.

A Blackberry Smoke entregou um show sólido, coeso e crescente. Sem altos e baixos — ou melhor, apenas altos. Um som orgânico, direto, com aquele peso de estrada que não precisa de truques. As músicas se sucediam com naturalidade, e a banda, segura, parecia mais interessada em tocar do que em impressionar.

E funcionava.

Momentos como “Like It Was Yesterday” e “Sleeping Dogs” incendiaram a plateia, mas foi quando um trecho de "Come Together", dos The Beatles, apareceu como citação que tudo se conectou instantaneamente. Por alguns minutos, não havia distinção — apenas reconhecimento coletivo.

“One Horse Town” elevou ainda mais a temperatura, com o já esperado — e ainda assim eficaz — “It’s beautiful, São Paulo”, recebido como um selo de pertencimento por quem estava ali.

Do lado de fora dessa conexão, eu seguia observando.

Detalhes do ambiente também chamavam atenção: baldes de cerveja circulando pela pista, depois abandonados no chão e chutados ao acaso, como parte involuntária da experiência. Pequenas cenas que ajudavam a compor um retrato mais amplo daquela noite.

No bis, o vocalista agradeceu e cravou: era o melhor show da turnê. Protocolo ou não, pouco importava — o público já estava completamente entregue.

E o final veio como deveria: apoteótico. Plateia em transe, banda de alma lavada, aplausos sem economia. Um espetáculo irretocável.

Mas nem sempre estar diante de algo bem feito significa pertencer àquilo.

Em meio a uma plateia onde tudo parecia se encaixar perfeitamente, a sensação de deslocamento permaneceu do início ao fim. Não por falta de qualidade — pelo contrário. Mas por uma distância difícil de explicar, e impossível de ignorar.

Foi um grande show.

Mas não foi, em nenhum momento, o meu lugar.

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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