Show impecável, público em
transe — e a sensação persistente de não pertencimento
A
noite prometia. Casa cheia, clima de celebração e uma plateia que parecia saber
exatamente o que queria — e o que ia encontrar. Antes mesmo da Blackberry Smoke
subir ao palco, o ambiente já dizia muito: chapéus, couro, estética bem
definida e um público homogêneo que transformava a pista numa espécie de festa
country fora de contexto.
Formada
no início dos anos 2000 em Atlanta, a Blackberry Smoke construiu sua trajetória
longe dos holofotes imediatos, apostando em turnês constantes e numa sonoridade
que cruza southern rock, country e blues sem concessões. Liderada pelo
vocalista e guitarrista Charlie Starr, a banda carrega também uma marca
recente: a perda de seu baterista e cofundador Brit Turner, falecido em 2024 —
uma ausência que ainda ecoa na história do grupo.
Não
era o meu habitat.
O
estranhamento veio cedo e permaneceu. Em meio a códigos visuais e
comportamentais muito claros, me vi mais como observador do que parte daquilo.
Um corpo estranho em um ambiente onde tudo parecia confortável demais para quem
estava ao redor — e distante demais para quem olhava de fora.
Mas
então a música começou.
E
não havia o que contestar.
A
Blackberry Smoke entregou um show sólido, coeso e crescente. Sem altos e baixos
— ou melhor, apenas altos. Um som orgânico, direto, com aquele peso de estrada
que não precisa de truques. As músicas se sucediam com naturalidade, e a banda,
segura, parecia mais interessada em tocar do que em impressionar.
E
funcionava.
Momentos
como “Like It Was Yesterday” e “Sleeping Dogs” incendiaram a plateia, mas foi
quando um trecho de "Come Together", dos The Beatles, apareceu como citação que
tudo se conectou instantaneamente. Por alguns minutos, não havia distinção —
apenas reconhecimento coletivo.
“One
Horse Town” elevou ainda mais a temperatura, com o já esperado — e ainda assim
eficaz — “It’s beautiful, São Paulo”, recebido como um selo de pertencimento
por quem estava ali.
Do
lado de fora dessa conexão, eu seguia observando.
Detalhes
do ambiente também chamavam atenção: baldes de cerveja circulando pela pista,
depois abandonados no chão e chutados ao acaso, como parte involuntária da
experiência. Pequenas cenas que ajudavam a compor um retrato mais amplo daquela
noite.
No
bis, o vocalista agradeceu e cravou: era o melhor show da turnê. Protocolo ou
não, pouco importava — o público já estava completamente entregue.
E
o final veio como deveria: apoteótico. Plateia em transe, banda de alma lavada,
aplausos sem economia. Um espetáculo irretocável.
Mas
nem sempre estar diante de algo bem feito significa pertencer àquilo.
Em
meio a uma plateia onde tudo parecia se encaixar perfeitamente, a sensação de
deslocamento permaneceu do início ao fim. Não por falta de qualidade — pelo
contrário. Mas por uma distância difícil de explicar, e impossível de ignorar.
Foi
um grande show.
Mas não foi, em nenhum
momento, o meu lugar.
