30e assume o Maracanã e quer devolver protagonismo do Rio nos megashows


A real é que o Maracanã nunca foi só futebol — e qualquer tentativa de tratá-lo apenas como templo da bola ignora décadas de história onde a música fez o concreto tremer tanto quanto final de campeonato. Agora, a 30e quer transformar isso em regra, não exceção.

A maior companhia brasileira de entretenimento ao vivo acaba de fechar um acordo de exclusividade com o estádio mais icônico do país. A partir de janeiro de 2027, e pelos próximos cinco anos, a empresa assume uma posição estratégica dentro da agenda do Maracanã, em parceria com o Consórcio Fla-Flu, com a promessa de profissionalizar de vez o fluxo de megashows no Rio. A ideia é simples no discurso, mas ambiciosa na prática: organizar melhor o calendário, elevar o padrão de produção e fazer com que grandes turnês passem pelo Rio com mais frequência — sem bater de frente com o futebol.

Mudança de prumo?

E aqui vale abrir um parêntese importante: se essa parceria funcionar, pode mudar um cenário que há anos patina. Nos últimos tempos, a própria 30e vinha concentrando shows no Estádio Nilton Santos, como nas passagens do System of a Down, enquanto alguns anúncios de peso acabaram frustrando o público carioca — casos recentes de cancelamentos envolvendo Green Day e Guns N' Roses. Falta de datas? Logística? Prioridade esportiva? Agora, com um contrato de longo prazo, a conversa muda de nível — e abre espaço para um debate inevitável: o Rio perdeu protagonismo na rota de grandes turnês ou só faltava organização?

Tradição de megashows

Tudo começou com Frank Sinatra em 1980, que foi o primeiro grande megaconcerto do estádio com 170 mil pessoas presentes. Três anos depois, o Kiss reuniu a incrível marca de 250 mil pessoas no Maraca, para uma das maiores audiências que o estádio já teve um dia. Nos anos noventa a coisa foi ainda mais além, a começar com Paul McCartney e a estreia de um Beatle no Brasil (184 mil pessoas). E o que falar dos nove dias ininterruptos de Rock in Rio no ano de 1991? A segunda edição do festival teve um público total de 700 mil pessoas e estreias de artistas como Guns N'Roses, Prince, A-ha, Faith No More, Joe Cocker e George Michael no país.

Estamos falando de shows que ocorreram há vinte e cinco, trinta, quarenta anos. Numa época sem Odebrecht, carteirinha de estudante falsificada e todos os encostos que perseguem o novo Maracanã. Outras estrelas que lotaram o Maraca naquele tempo de estádio "do povo", com geral, arquibancada e cadeiras numeradas, foram Madonna (1993), Rolling Stones (1995) e Tina Turner (1988). Depois o estádio começou a sofrer suas reformas e a capacidade foi cada vez diminuindo mais (e os preços dos bilhetes aumentando). Mesmo assim, o Maracanã continuou fazendo história na vida de muitas pessoas como palco de grandes concertos de  música e abrindo oportunidade ao povo de assistir espetáculos que só mesmo um local tão sagrado poderia ser capaz de abrigar - independente de qual fosse a sua gerência administrativa.

Proposta de colocar o Rio no mapa de novo

A proposta da 30e é trabalhar lado a lado com a administração do estádio para mapear janelas entre jogos e encaixar grandes produções com mais previsibilidade — algo essencial para turnês internacionais que operam com cronogramas apertados e estruturas gigantescas. Segundo o CEO Pepeu Correa, o foco é criar eficiência operacional e aumentar o número de shows por ano, sem sacrificar a experiência do público.

E o movimento já começa a dar sinais: em 2026, o estádio recebe “O Maior Encontro do Samba”, reunindo Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão, além do espetáculo “O Último Voo da Nave”, de Xuxa. Não é rock — mas mostra que a engrenagem já está girando.

No pano de fundo, a 30e amplia um modelo que já opera em outros templos: o Allianz Parque e a Arena da Baixada. A diferença é que o Maracanã não é “mais um estádio”. É símbolo, vitrine e, se bem explorado, um dos pontos mais fortes da América do Sul no circuito global.

A questão que fica é direta: com planejamento e exclusividade na mão, a 30e vai devolver ao Rio o peso que o Maracanã sempre teve no mapa dos megashows. Se depender da história, o palco está pronto. Agora falta ver quem vai subir nele a partir de 2027.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
Banner-Mundo-livre-SA