Três décadas depois de seu lançamento, Evil Empire segue como um dos álbuns mais explosivos e politicamente relevantes do rock. Lançado em 1996, o segundo disco do Rage Against the Machine não apenas consolidou a identidade da banda, como também provou que era possível levar um discurso radical ao topo das paradas sem abrir mão da intensidade.
Com riffs inovadores de Tom Morello e letras afiadas de Zack de la Rocha, o álbum trouxe clássicos como “Bulls on Parade” e reforçou o papel do grupo como uma das vozes mais combativas da música dos anos 90. Mais do que um registro de época, Evil Empire permanece atual, direto e necessário — um lembrete de que a fúria também pode ser consciente, crítica e transformadora.
Ainda mais raivosos
Lançado em 16 de abril de 1996, Evil Empire era um ataque direto — sonoro, lírico e ideológico — ao sistema que a banda sempre combateu. Após um álbum de estreia explosivo e incendiário, o grupo decidiu dobrar a artilharia, e alcançou o topo da Billboard com canções ainda mais raivosas.
A expressão "Evil Empire" ("Império do Mal"), popularizada durante a Guerra Fria, foi ressignificada pela banda para criticar o próprio sistema ocidental. A capa, com a criança vestida como super-herói, ironiza a construção da narrativa de poder e inocência — uma crítica visual tão forte quanto as músicas.
Gravado majoritariamente no Cole Rehearsal Studios, em Los Angeles, Evil Empire reúne a formação clássica do Rage Against the Machine — Zack de la Rocha, Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk — em estado de combustão total. A produção dividida com Brendan O'Brien, somada à mixagem cirúrgica de Andy Wallace e à masterização de Bob Ludwig, entrega um disco honesto e que marca a identidade de uma banda sedenta por criar algo único — sem excessos, sem concessões.
Um pilar do rock alternativo
Musicalmente, o RATM decidiu seguir o seu instinto alternativo e anárquico. O som de Evil Empire é ditado pela mente revolucionária de Tom Morello, que transforma a guitarra em uma arma sonora imprevisível, manipulando pedais e circuitos como se estivesse na cabine de um DJ, criando texturas que mais lembram scratches de toca-discos do que riffs tradicionais. Enquanto isso, Tim Commerford e Brad Wilk constroem uma base rítmica profundamente enraizada no funk e no hip-hop, fugindo completamente da cartilha engessada do metal da época.
Sonoramente, Evil Empire não é tão direto e robusto como o álbum de estreia da banda, que vinha baseado majoritariamente em riffs ganchudos. Nesse segundo passo, o grupo apostou em algo menos tradicional, e se aproximou da mentalidade aventureira de alguns contemporâneos - como Beastie Boys, por exemplo.
Para ter uma ideia, a faixa de abertura do álbum, "People Of The Sun", é guiada por um riff nada ortodoxo, de uma palheta arranhando as cordas de forma repetitiva. E essas inserções estão espalhadas por todo o álbum: há barulhinhos na introdução de "Revolver", microfonia e efeitos bem sacados em "Roll Right", base hip hop nervosa em "Year Of Tha Boomerang" e uma pegada totalmente atmosférica em "Down Rodeo".
No front lírico, não há espaço para metáforas suaves. “People Of The Sun” resgata a resistência indígena e a história mexicana; “Bulls On Parade” dispara contra o complexo militar-industrial; “Down Rodeo” escancara as tensões raciais e de classe nos Estados Unidos; enquanto “Without A Face” mergulha nas consequências brutais das políticas de imigração na fronteira.
Um registro necessário e atemporal
Três décadas depois, Evil Empire segue como um dos álbuns mais importantes do rock dos anos 90 — não apenas pela sonoridade inovadora, mas pela coragem de dizer exatamente o que precisava ser dito. E por isso ele continua sendo uma obra tão necessária num mundo ainda marcado por desigualdade, conflitos geopolíticos e manipulação de informação.
Se o primeiro disco do Rage Against the Machine apresentou a revolta contra o sistema, foi aqui que ela ganhou forma, direção e impacto global. Mais do que um registro de época, Evil Empire é um lembrete de que a fúria também pode ser consciente, crítica e transformadora. E traz uma banda sedenta, criativa e completamente engajada com o seu tempo.


