Deftones prova no Lollapalooza que seu auge ainda é agora

Foto: Rom Jom / Rock On Board

O Deftones não veio ao Lollapalooza Brasil para reviver antigas glórias. Veio para consolidar, de forma definitiva, sua posição como um dos gigantes do rock alternativo. Após mais de uma década longe do Brasil, o grupo retorna maior: mais denso, mais cultuado e atravessando gerações com uma base de fãs que só cresce.

Para quem não se lembra, a estreia da banda no país aconteceu no Rock in Rio 2001, pouco depois do lançamento do icônico White Pony. Foi ali que começou a transição para territórios mais amplos e menos segmentados — uma identidade que se fortaleceu ao longo dos anos e atingiu um novo pico com o recente Private Music, eleito o melhor disco de 2025 pelo Rock On Board.

Foto: Rom Jom / Rock On Board

Com um trabalho atual fortíssimo, o grupo construiu um show ancorado no presente. Do clássico White Pony, apenas uma faixa apareceu no set: “Change (In the House of Flies)”, cantada em uníssono por um público que lotava o morrinho de Interlagos.

Revitalizados e ferozes

Desde o momento em que Chino Moreno pisou no palco, ficou claro que não era apenas mais um show de turnê. Ele parece revitalizado — elástico, feroz, quase renascido. Há uma clareza na banda que soa conquistada com esforço. Não é nostalgia. Não é conforto. É controle.

Foto: Rom Jom / Rock On Board

“Be Quiet and Drive (Far Away)” abriu a apresentação como um manifesto. Mais do que uma música, uma sensação de libertação. Quando o grito de Chino ecoou pelo Autódromo, foi cru, intenso e estranhamente purificador — estabelecendo o tom emocional da noite. Rodas se abriram, corpos colidiram, e o delírio tomou conta.

Pela primeira vez no Brasil, um show do Deftones com tamanha imponência estrutural. Um palco em níveis, telões massivos e luzes estroboscópicas construíram uma experiência visual poderosa. Nas projeções, serpentes colossais, montanhas sagradas e imagens em loop perfeitamente sincronizadas com cada música. Não eram adornos — eram parte essencial do espetáculo.

Novos clássicos

As novas “My Mind Is a Mountain” e “Locked Club” reforçaram que o peso da banda segue intacto. Mas foi com “Diamond Eyes” que tudo tremeu. Um clássico incontestável, recebido com explosão. Na sequência, “Sextape” trouxe a delicadeza em meio a luzes dramáticas, enquanto “Swerve City”, do subestimado Koi No Yokan, transformou o público em uma massa pulsante após o comando de Chino.

Foto: Rom Jom / Rock On Board

A força criativa atual também apareceu em “Ecdysis” e “Infinite Source”, escolhas que reforçam a proposta de seguir avançando. Existe urgência real aqui — uma fome que não combina com nostalgia.

Chino Moreno está em outro nível. Corre, escala, grita, se joga. Há algo de juvenil em sua entrega — não como regressão, mas como renascimento. Um artista inquieto, completamente vivo.

E ainda havia mais.

O bis começou com “Cherry Waves”, mostrando a força duradoura de seu catálogo. Em seguida, “My Own Summer (Shove It)” trouxe o peso bruto, visceral, fazendo a pista vibrar novamente. E o encerramento com “7 Words”, do debut Adrenaline, foi a síntese perfeita: feroz, direto, sem filtros — uma conexão com as origens que ainda pulsa com a mesma intensidade.

Foto: Rom Jom / Rock On Board

O show do Lolla evidenciou que o Deftones não está acomodado em seu legado. A banda parece que está dominando a própria evolução.

O que eles entregaram no Lollapalooza para um mar de felizardos foi simplesmente poderoso. Para o Deftones, o tempo não é limitador. Deixar praticamente de fora do repertório as canções o seu álbum mais icônico e mesmo assim entregar um showzaço, é a maior prova de que o auge ainda é agora.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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