Abissal – “Sutra”: imersão, tensão e expansão em um ciclo que se fecha sem respostas fáceis

Foto: Divulgação

A Abissal apresenta em “Sutra” um trabalho que vai além da proposta estética — é um processo. Lançado pelo selo Casalago Records, o EP de cinco faixas consolida uma fase de maturidade artística construída a partir de revisão, pausa e reconstrução.

A faixa-título abre o EP em um clima etéreo e contemplativo, conduzindo o ouvinte por uma atmosfera quase suspensa. Mas essa aparente tranquilidade não se sustenta até o fim — aos poucos, a composição cresce, ganha corpo e peso, revelando uma tensão que já estava latente desde o início. Esse movimento não soa gratuito: ele antecipa a dinâmica que guia todo o trabalho.

Em “Ouroboros”, a banda amplia seu vocabulário ao incorporar uma batida que remete ao pós-punk oitentista, criando um pulso mais marcado e hipnótico. Sobre essa base, os vocais delicados e introspectivos deslocam a faixa para um território mais emocional do que urgente. A estrutura também chama atenção: quando tudo parece se encerrar, a música retorna — mais vigorosa e, ao mesmo tempo, mais etérea — conduzindo a um desfecho instrumental que reforça a sensação de deslocamento.

Meu Templo” revela uma das camadas mais sensíveis do EP. As harmonias vocais e a condução melódica evocam o universo do Clube da Esquina, trazendo uma aproximação com a música popular brasileira que amplia o alcance emocional do trabalho. Ainda que a guitarra mantenha o peso característico, o conjunto se organiza em torno de um clima contemplativo, quase meditativo. O crescimento final aqui surge menos como tensão e mais como expansão — um desdobramento natural da atmosfera construída.

Foto: Divulgação

O Caminho” atua como continuidade direta dessa proposta, reforçando a identidade do EP por meio de uma construção paciente e guiada pelo desenvolvimento gradual. Mais uma vez, o “crescendo” no trecho final se impõe como elemento central — não como repetição, mas como afirmação estética. Nesse ponto, já está claro que as músicas não se encerram de forma abrupta: elas se expandem até se esgotarem emocionalmente.

Mira Céu” fecha o ciclo funcionando como síntese. Os climas etéreos, as guitarras densas e os teclados de caráter mais psicodélico se articulam em uma faixa que reúne todos os elementos apresentados anteriormente. O crescimento final reaparece, mas agora carregado de sentido de conclusão. Quando a música se dissolve e dá lugar à pergunta “foi?”, seguida pelo som das baquetas sendo deixadas de lado, a Abissal rompe a barreira entre obra e processo. O ouvinte não apenas percorre a jornada — ele testemunha seu encerramento.

Ao longo de cinco faixas, “Sutra” se constrói como um trabalho de coerência rara, onde repetição não significa limitação, mas consolidação de linguagem. Cada composição reafirma um mesmo princípio — crescimento, tensão e expansão — sem abrir mão de identidade própria.

No fim, o EP não busca impacto imediato, mas permanência. Mais do que ouvir, trata-se de atravessar. E quando tudo termina com um simples “foi?”, a resposta parece inevitável: foi — e ainda reverbera.

Capa - Ilustração e arte: @gabjaneiro


Ricardo Cachorrão

Ricardo "Cachorrão", é o velho chato gente boa! Viciado em rock and roll em quase todas as vertentes, não gosta de rádio, nunca assistiu MTV, mas coleciona discos e revistas de rock desde criança. Tem horror a bandas cover, se emociona com aquele disco obscuro do Frank Zappa, se diverte num show do Iron Maiden, mas sente-se bem mesmo num buraco punk da periferia. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press, Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima e é parte do staff ROCKONBOARD desde o nascimento.

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