No dia 20 de fevereiro de 1996, o Sepultura lançava o álbum que dividiria sua própria história em antes e depois. Roots não foi apenas o sexto disco de estúdio da banda. Foi o último capítulo da formação clássica com Max Cavalera e Iggor Cavalera juntos — e também o trabalho que esmagou o conservadorismo estrutural do metal dos anos 90.
Se Arise (1991) consolidou o Sepultura no thrash mundial e Chaos A.D. iniciou a transição para uma sonoridade mais urbana e direta, Roots foi o rompimento definitivo com qualquer expectativa ortodoxa. Não havia mais fronteira.
Brasilidade como ruptura
Gravado com a participação da etnia Xavante — incluindo registros captados dentro da aldeia nas faixas “Itsári” e “Jasco” — o álbum incorporou ritmos tribais de forma orgânica, não como adorno exótico.
A presença de Carlinhos Brown ampliou essa dimensão percussiva, enquanto participações como Mike Patton (Faith No More) e Jonathan Davis (Korn) ajudaram a conectar o disco a um cenário alternativo em ebulição.
O metal, até então fortemente associado às tradições britânicas (West Midlands) ou ao eixo norte-americano (Sunset Strip e Bay Area), foi deslocado para o hemisfério sul — com identidade própria. Mas no caso do Sepultura, por ser uma banda de origem brasileira, a proposta sonora era muito mais que uma fusão territorial. Roots era a afirmação cultural do Sepultura e a consagração da banda como uma fonte de influência para quem buscava caminhos menos conservadores no metal.
Um som deliberadamente cru
Se Chaos A.D. já apontava para um metal mais visceral, Roots removeu qualquer polimento. Toda aquela vestimenta de riffs certeiros e divinamente bem gravados de Arise e Beneath The Remais davam lugar para algo mais rústico.
Em Roots, era a bateria que chegava para ocupar um espaço dominante na mixagem. As guitarras de Andreas Kisser deixariam o virtuosismo ornamental e os riffs de thrash metal para outro momento. Aqui a ordem era soar repetitivo e hipnótico.
Com isso, faixas como "Dictatorshit" e "Straighthate" soavam como uma espécie de manifesto contra a obsessão técnica que dominava parte do metal extremo da época. Já outras canções representavam a fuga da pancadaria e focavam em algo mais introspectivo ou alternativo ("Lookaway", "Dusted" e "Ambush").
Toda essa maçaroca - que reunia riffs de baixa afinação, elementos percussivos e cantorias tribais - assustou em um primeiro momento. Afinal, estávamos falando de um dos maiores nomes do thrash metal mundial na época, abandonando todos os seguros conquistados e indo para um mergulho profundo num poço totalmente desconhecido.
Divisor de águas — para o bem e para o conflito
Com mais de dois milhões de cópias vendidas, Roots expandiu o público do Sepultura e levou a banda à mídia não especializada — algo ainda incomum para o metal em meados dos anos 90.
O disco também ajudou a pavimentar o caminho para o que viria a ser rotulado como nu metal. Bandas que explodiriam no fim da década absorveram a estética rítmica e a abordagem grooveada apresentada ali. É impossível dissociar o primeiro álbum do Slipknot - só para dar um exemplo - com o que foi apresentado em Roots.
Infelizmente, o álbum que abriu o metal para o mundo também encerrou uma era interna. No mesmo ano, Max Cavalera deixaria a banda por conflitos internos, e nunca mais retornaria.
30 anos depois
Hoje, três décadas após seu lançamento, o metal é um território muito mais plural. Instrumentações não convencionais, misturas culturais e experimentações sonoras tornaram-se práticas comuns.
É evidente que não foi o Sepultura que inventou essa miscelânea sônica no gênero. O Skyclad já flertava com folk metal no início dos anos noventa. Da mesma maneira, a trilha de Judgement Night já evidenciava bandas que uniam rap e guitarras pesadas em 1993. O black metal escandinavo já vinha construindo muito antes a sua própria identidade nacional.
Mas foi Roots que colocou o Brasil no centro do mapa metálico global — não como curiosidade, mas como força criativa. E é exatamente por isso, que a banda continua e continuará sendo citada como referência para todas os principais nomes do gênero - sejam os do passado (Anthrax, Pantera, Slayer, Korn, Slipknot e Metallica) ou os do futuro.
Mais do que um álbum, Roots foi uma ruptura simbólica que sangrou em todas as raízes do metal noventista. E 30 anos depois, sua cicatriz continua exposta e é exibida como uma medalha para a atual geração.
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