Living Colour aos 40: quando o passado ainda pulsa

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

No Tokio Marine Hall, banda celebra quatro décadas revisitando sua fase clássica com intensidade, peso e maturidade — em uma noite que equilibrou explosão e emoção.

Com produção da Top Link Music, o retorno do Living Colour ao Tokio Marine Hall foi precedido pela energia da Madzilla. Em noite de show pontual, a banda equatoriana subiu ao palco às 20h50, entregando um heavy metal direto e técnico que preparou o terreno para a atração principal, que iniciou sua apresentação exatamente às 22h.

A entrada ao som de The Imperial March, composta por John Williams para a saga Star Wars, estabeleceu imediatamente o tom grandioso da noite. Quando o Living Colour assumiu o palco, ficou claro que a turnê de 40 anos é uma celebração assumida da própria trajetória.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Se o repertório revisita com força os clássicos de Vivid (1988) e Time’s Up (1990), o início do show revela um dado importante: quatro das sete primeiras músicas pertencem a Stain (1993), o disco mais pesado e sombrio da carreira. “Leave It Alone”, “Ignorance Is Bliss”, “Go Away” e “Bi” reforçam essa escolha. Não se trata apenas de nostalgia radiofônica. Ao abrir espaço significativo para Stain, a banda valoriza uma fase mais áspera, menos comercial e musicalmente mais densa, equilibrando peso e identidade logo nos primeiros minutos.

Em meio à celebração e à sequência de riffs densos, o show encontrou seu momento de suspensão quando surgiram os acordes de Hallelujah, composição de Leonard Cohen. A escolha não é óbvia dentro de um repertório marcado por tensão elétrica — e justamente por isso funcionou com tanta força. O Tokio Marine Hall silenciou. Corey Glover conduziu a interpretação com respeito à delicadeza da canção, segurando a emoção, permitindo que cada verso respirasse. No instante final, porém, rompeu a contenção e soltou um agudo poderoso, longo e arrebatador, daqueles que arrepiam os pelos e lembram por que sua voz continua sendo uma das grandes forças do rock contemporâneo. Foi um momento de transcendência dentro de uma noite celebratória.

Os momentos individuais reafirmaram o virtuosismo do quarteto. No solo de bateria, Will Calhoun foi além da exibição técnica e inseriu um trecho de Baianá, dos Barbatuques, gesto que criou imediata conexão com o público brasileiro. Doug Wimbish, por sua vez, transformou seu momento solo em uma aula de cultura urbana ao executar um medley com White Lines (Don’t Don’t Do It), Apache e The Message, reafirmando as raízes nova-iorquinas que sempre fizeram do Living Colour uma banda maior do que qualquer rótulo de hard rock.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Antes do desfecho mais introspectivo, veio a explosão. Uma sequência simplesmente absurda de clássicos tomou conta da casa: “Glamour Boys”, “Love Rears Its Ugly Head”, “Type”, “Time’s Up” e a essencial “Cult of Personality” transformaram o público em uma massa pulsante. Poucas bandas conseguem alinhar cinco músicas desse calibre sem perder impacto. Ali estava a razão de a turnê olhar tanto para trás: o passado da banda é forte o suficiente para sustentar o presente.

Estava previsto o encerramento com o cover de Should I Stay or Should I Go, clássico do The Clash. A versão agressiva que o Living Colour costuma executar teria garantido uma explosão final. Mas a escolha de terminar com “Solace of You” mudou o clima. Em vez de catarse pela fúria, a banda optou por catarse pela emoção. Foi decisão estética acertada: depois da avalanche de hits e da carga emocional construída ao longo da noite, a agressividade festiva quebraria a atmosfera. O encerramento foi humano, sensível e profundo.

Pela sétima vez assistindo ao Living Colour ao vivo, já não busco surpresa. Busco consistência. E ela continua ali.

Foto: Eli K. Hayasaka / Rock On Board

Nesta turnê de 40 anos, a banda vive essencialmente do próprio passado — mas quando esse passado é formado por discos como Vivid, Time’s Up e Stain, o que se vê não é acomodação. É legado em estado ativo.

Sete shows depois, a intensidade pode ter amadurecido, mas não perdeu a verdade. E talvez seja isso que realmente importa.

Ricardo Cachorrão

Ricardo "Cachorrão", é o velho chato gente boa! Viciado em rock and roll em quase todas as vertentes, não gosta de rádio, nunca assistiu MTV, mas coleciona discos e revistas de rock desde criança. Tem horror a bandas cover, se emociona com aquele disco obscuro do Frank Zappa, se diverte num show do Iron Maiden, mas sente-se bem mesmo num buraco punk da periferia. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press, Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima e é parte do staff ROCKONBOARD desde o nascimento.

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