Foto: Bruno Eduardo / Rock On Board
Com mais de 28 apresentações em palcos pelo Brasil desde a estreia histórica no Festival Hollywood Rock em 1992, o Living Colour mantém uma conexão assídua e visceral com o público do país.
Nesta sua nona passagem pelo Rio de Janeiro — a segunda no Sacadura 154, na Zona Portuária — a banda se apresentou, por coincidência, perto das ruínas do Cais do Valongo.
O local possui valor universal como memória da resistência contra a escravidão, cenário ideal para uma banda que, com 40 anos de estrada, toca sem medo nas feridas deixadas por atrocidades ancestrais.
A urgência que atravessa décadas
Do lançamento de Vivid (1988) até 2026, o mundo transmutou-se, regimes caíram, a tecnologia acelerou a sociedade e o vinil voltou a ser objeto de desejo - mas a urgência da banda permanece intacta.
O show deste sábado (28), iniciou com a eletricidade de "Leave It Alone" (Stain, 1993), trazendo aquela sonoridade mais densa e industrial que marcou a fase intermediária da banda. Na sequência, "Middle Man" carregou uma gênese profunda: escrita por Vernon Reid com letras de Corey Glover, a canção nasceu de uma carta de despedida que Glover escreveu na adolescência. O que era um grito de exaustão de um jovem de 17 anos — cansado de estar "no meio da bagunça de todos" — virou uma canção de sobrevivência.
Como Glover explica, a percepção de que estar no meio "não é o melhor lugar, mas também não é o pior", deu à banda uma das suas motivações vitais.
O ápice técnico veio em "Funny Vibe". A sensação era de assistir a três polvos com oito braços cada — Will Calhoun, Doug Wimbish e Vernon Reid — executando solos simultâneos de bateria, baixo e guitarra, como três orquestras distintas. Uma performance definitiva para deixar salivando fãs de Rush, Tool e Primus.
A emoção transbordou com uma versão delicada e emotiva de "Hallelujah", seguida por uma versão antológica de "Open Letter (to a Landlord)". A pulsante canção foi sendo modificada ao vivo até chegar num momento de Samba-Rock orgânico ao mesmo tempo com Corey Glover trabalhando seus vocais entre agudos quase Janis Joplin e exercícios vocais vindos da alma (quase uma Aretha Franklin).
Falsetes emendam em vocalizações gospel com uma destreza e volume natural. Performance impressionante e técnica perfeita, tudo orgânico, sem auto tune ou recursos extras. A plateia respondeu com punhos cerrados e coro inflamado. Três décadas depois, a canção segue devastadoramente atual.
Emoção, groove e catarse coletiva
Após um laboratório percussivo de dez minutos comandado por Calhoun — incluindo um snippet de “Baianá” — o show mergulhou na síntese do rock de origem preta em circuito massivo. O groove inconfundível de "Love Rears Its Ugly Head" hipnotizou a plateia.
Foto: Bruno Eduardo / Rock On Board
Já "Type" foi destilada numa versão hardcore/reggae enérgica com luzes cegantes. Para depois vir com o relógio de "Time's Up" num massacre de slap bass evocando o espírito de Hendrix e Bad Brains ao mesmo tempo. No palco, as músicas não são reproduzidas. São reinventadas. O Living Colour transforma tudo em jams inesquecíveis - bem diferentes dos registros em estúdio.
A Profecia do Culto aos personagens e as guerras globais das últimas décadas provaram que "Cult of Personality" (1988) foi uma previsão sombria sobre o futuro que habitamos. Em 2026, o "culto" não escolhe lado; o mecanismo de adoração é o mesmo para políticos ou "palhaços" midiáticos. Hoje, a destruição ocorre via desinformação e vício digital. O deboche de "Glamour Boys" nunca foi tão atual; em 2026, eles são os "Influencer Boys".
As sombras de "Love Rears Its Ugly Head" e as tensões de "Landlord" continuam espelhando a nossa realidade cotidiana. O Final com "Cult of Personality" é o ápice natural - reunindo crítica política e técnica afiada. A plateia enlouquece e canta junto, deixando um sorriso nos rostos de Glover, Reid, Calhoun e Wimbish.
Sem pausa para o bis tradicional, eles encerram de forma orgânica com "Solace of You". E Corey Glover, sentado na frente do palco, cantou cada verso, olho no olho com os seus fãs.
Foto: Bruno Eduardo / Rock On Board
Madzilla abre caminho com thrash técnico
Diretamente de Las Vegas, o quarteto Madzilla estreou no Rio de Janeiro trazendo a energia do novo álbum, Angel Genocide. A apresentação na Sacadura 154, abrindo para o Living Colour, trouxe na formação David Cabezas, Sarah Dugdale, Daniel Gortaire e Courtney Lourenco. Com uma base crescente sendo construída em turnês anteriores pelo continente ao lado de nomes como Saxon (2023) e After Forever (2025), a banda reafirmou sua conexão com o público sul-americano.
No palco, o grupo apresentou a plateia seu Speed Thrash Metal técnico e direto, sem firulas. Bastante similar ao Megadeth, o som foi um deleite de riffs velozes, vocais limpos e um trabalho preciso de pratos que despertaram o interesse até de quem ainda não conhecia o trabalho dos norte-americanos. A execução impecável da nova formação provou que o grupo prioriza a entrega musical de alta qualidade.
O encerramento com a poderosa "Deadly Threat" selou a noite, demonstrando que o Madzilla aposta no crescimento orgânico e no "boca a boca" para fincar bandeira no Brasil. Em um mercado onde o sucesso em terras brasileiras é um selo de longevidade para qualquer banda de metal, o quarteto mostrou que seu produto ao vivo está pronto para ser venerado e para garantir uma carreira duradoura por aqui.

