Cólera – “Pela Paz em Todo Mundo”: 40 anos do pacifismo como insubordinação

Foto: Divulgação

Lançado em 1986 de forma independente, o álbum transformou o discurso pacifista em gesto radical dentro do punk brasileiro e segue ecoando como manifesto contra a violência estrutural quatro décadas depois.

Em 1986, quando o Brasil ainda aprendia a respirar fora da asfixia da ditadura e o mundo se equilibrava entre a paranoia nuclear e o neoliberalismo nascente, o Cólera lançou um disco que parecia contradizer o próprio estereótipo do punk: "Pela Paz em Todo Mundo".

Enquanto parte da cena internacional consolidava o cinismo, o niilismo e a autodestruição como linguagem, o trio paulista escolheu outro caminho: a paz. Não uma paz ingênua, conciliadora ou domesticada — mas uma paz insurgente, afirmada aos berros, como enfrentamento político.

O punk brasileiro nunca foi apenas estética. Foi sobrevivência. Foi periferia. Foi juventude sem acesso a futuro prometido algum. E, nesse contexto, o discurso pacifista do Cólera não era suavização — era radicalidade. Defender a paz em meio à violência estrutural do Estado, à desigualdade crônica e à cultura autoritária ainda latente era, por si só, um gesto subversivo.

Arte da Capa: Val

Se no disco anterior a urgência era mudar o amanhã, aqui a banda ampliava o horizonte: o problema não era só o bairro, nem só o país — era o mundo. Guerra, imperialismo, devastação ambiental, intolerância religiosa, manipulação política. Tudo estava ali, nomeado, direto, sem metáfora rebuscada. O punk como ferramenta de denúncia global antes que “globalização” se tornasse palavra corrente.

Há quem enxergue simplicidade nas letras. Mas simplicidade não é simplismo. O Cólera compreendia algo que muitas bandas perderam com o tempo: a mensagem precisava ser entendida por todos. O grito não era para ser decifrado — era para ser compartilhado.

Quatro décadas depois, o álbum continua incômodo. Não por soar datado, mas pelo contrário: por permanecer atual demais. As guerras mudaram de endereço, mas continuam. O discurso de ódio se sofisticou, mas se expandiu. O poder bélico segue sendo argumento diplomático. E o medo — combustível central da faixa de abertura — ainda organiza sociedades inteiras.

Existe também uma dimensão histórica incontornável: o disco consolidou o punk brasileiro como exportação cultural autêntica. Sem majors. Sem concessões. Sem maquiagem. O “faça você mesmo” não era slogan de camiseta — era método de produção, distribuição e sobrevivência.

Foto: Divulgação

E talvez aí esteja sua maior força: "Pela Paz em Todo Mundo" não foi concebido para ser clássico. Foi concebido para ser necessário.

Em um cenário atual onde o punk muitas vezes se fragmenta entre nostalgia e estética pasteurizada, revisitar este álbum é lembrar que atitude não é figurino. É posicionamento. É coerência. É risco.

Celebrar seus 40 anos não é apenas reverenciar o passado. É perguntar, com honestidade desconfortável: ainda estamos dispostos a lutar pela paz — ou só a postar sobre ela?

Como já estava escrito no encarte: “Ser pacifista é não fechar os olhos perante a violência. Paz é algo pelo que se luta.”

E lutar, sabemos, nunca foi confortável.

Foto: Divulgação / Marcio Sno (2011)


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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