Quem esteve presente no Morumbis, na noite desta terça-feira (24) sofreu uma espécie de descarga elétrica rejuvenescedora. Todo mundo saiu de lá renovado por cada riff de guitarra no ouvido ou refrão berrado do fundo peito.
É realmente incrível, que em duas horas, esses senhores consigam ainda provar que energia não é questão de idade, é questão de essência. À beira dos 80 anos, esses gigantes sobem ao palco não como sobreviventes de uma era dourada, mas como guardiões de um fogo que simplesmente se recusa a apagar.
Quando as primeiras notas de "If You Want Blood (You've Got It)" ecoaram para 70 mil chifrinhos piscando em todo o estádio, o que se via ali era muito mais do que um espetáculo — era um verdadeiro ritual.
Uma celebração intergeracional
Antes mesmo do show, os arredores do Morumbis davam a tônica dessa instituição roqueira. Era gente vindo de tudo que é lugar do mundo. Não só brasileiros. Não só paulistanos. Um show do AC/DC não pertence a uma faixa etária específica. Ele pertence a todos que atendem ao chamado. Homens, mulheres, jovens, veteranos, fãs que atravessaram estados e países — quase todos vestindo a mesma farda preta com o logo estampado no peito. Não é uniforme por obrigação; é por devoção.
Talvez o momento mais impactante não esteja nos decibéis da guitarra poderosa de Angus Young, mas nos ombros de uma geração. Crianças sentadas nos ombros dos pais, cantando em uníssono com Brian Johnson os refrões de "Back in Black", "Highway To Hell" ou acompanhando o coro vocal em "Thunderstruck", transformavam o estádio numa uma espécie de celebração intergeracional.
Ali, o rock deixa de ser nostalgia. Ele é apenas herança.
Energia que desafia o tempo
Houve quem duvidasse. Quem dissesse que Angus Young já não aguentaria mais carregar a guitarra como antes. Bastou o solo estendido já na reta final do show — quase dez minutos de pura insanidade elétrica em "Let There Be Rock" — para qualquer suspeita virar pó. Angus não toca guitarra. Ele esmerilha o instrumento como se fosse parte de seu corpo. E mesmo aos 70 anos de idade, ele corre, pula, dedilha de forma incansável. É um Deus do rock que ri na cara do tempo.
E Brian Johnson? Depois de enfrentar problemas sérios de audição que quase o afastaram definitivamente dos palcos, ele não apenas “segurou as pontas”. Ele comandou 70 mil vozes com autoridade, carisma e aquela rouquidão inconfundível que parece sair direto das entranhas do rock. É simplesmente divino ver um senhor quase oitentão, se esforçando para fazer a mesma coisa, do mesmo jeito, há mais de 40 anos, sem utilizar playback, bases de apoio ou autotune. Quando o fôlego oscila em "Dirty Deeds Done Dirt Cheap", ele sorri e agradece o público, que canta junto. Merece uma medalha de honra.
Repertório seguro, execução avassaladora
A banda manteve praticamente o mesmo repertório do ano passado. Sem surpresas profundas. Sem raridades inesperadas. Mas também sem espaço para decepção. Quando o catálogo é composto por hinos que atravessaram décadas, não é preciso reinventar — basta executar com convicção. E convicção nunca faltou. Destaque para as duas canções de Power Up ("Demon Fire" e "Shot In The Dark"), que funcionam perfeitamente ao vivo.
E vale sempre destacar os momentos icônicos, que nunca saem de moda. O sino que desce no meio do palco em "Hells Bells", o show de papel picado (todos personalizados com o nome "AC/DC") e os canhões que disparam em "For Those About to Rock (We Salute You)", dando golpe final na apresentação. Tudo isso vira memória até mesmo para os fãs mais veteranos.
Mais do que um show
O que se viu foi uma celebração do rock em sua forma mais pura: direta, visceral, sem firulas. Um espetáculo que não depende de truques tecnológicos para emocionar. O impacto vem da conexão. Da entrega. Da honestidade sonora.
Ao final, fica a sensação de rejuvenescimento coletivo. Como se cada riff tivesse raspado alguns anos das costas do público.
A verdade no fim das contas é que o AC/DC não faz apenas shows. Eles lembram ao mundo por que o rock continua sendo uma das maiores paixões da humanidade.
Na abertura, The Pretty Reckless manda muito bem
O The Pretty Reckless confirmou a sua credencial como banda certa para abrir a turnê do AC/DC. O grupo é liderado pela carismática Taylor Momsen, que ficou famosa por conta do seriado Gossip Girl. No entanto, ela canta divinamente bem ao vivo, e mostra uma versatilidade rara - alternando graves, agudos e drives muito bem colocados. Além disso, ela tem uma ótima presença de palco e conta com uma banda afiada e muito competente - principalmente o guitarrista Ben Phillips, que rouba a cena em diversos momentos do show.
O grupo abriu a ótima apresentação com a faixa-título de seu melhor álbum, Death By Rock And Roll, e desse tabalho também veio mais um destaque do show, a sabbathica "Only Love Can Save Me Now" - que no estúdio, conta com as participações de Matt Cameron e Kim Thayil do Soundgarden. A banda estava tão confiante, que fizeram questão de estrear uma canção pela primeira vez num show: "For I Am Death", lançada no ano passado. O som do The Pretty Reckless não pode ser chamado de hard rock tradicional. Eles trazem muito da influência noventista de Momsen, que bebe bastante no grunge pesado de Seattle.
O show durou mais de uma hora, e a banda conseguiu cativar o público, mesmo que formado quase que exclusivamente por fãs de AC/DC.

