Há 35 anos, o Faith No More entrou para a história do Rock in Rio ao roubar a cena e desbancar o maior headliner do festival. Com uma performance intensa, caótica e imprevisível, o grupo liderado por Mike Patton colocou toda a pompa do Guns N’ Roses no bolso e saiu como o grande assunto da noite.
Com o menor cachê entre os artistas internacionais e apenas um grande hit em alta rotação no país, o Faith No More chegava ao festival como uma simples aposta da produção. Ainda assim, a presença de palco calcada na energia bruta e um álbum espetacular como The Real Thing foram os acessórios perfeitos para um verdadeiro massacre sonoro. Mais do que um grande show, ali começava uma relação especial com o público brasileiro — uma conexão que se tornaria febril ao longo de 1991.
A verdade é que o Faith No More surgia para ocupar uma demanda importante naquele momento. O som do grupo representava o frescor do início dos anos 90: o alternativo ganhando espaço, o fim dos rótulos tradicionais e a ruptura com o rock engessado da década anterior. Foi paixão à primeira vista.
Mike Patton vs. Axl Rose: dois mundos no mesmo palco
No embate direto com o Guns N’ Roses, o contraste era evidente — tanto musical quanto de postura artística. O exemplo vinha escancarado no front das duas bandas gringas que subiram ao palco do Rock in Rio no dia 20 de janeiro de 1991. De um lado, Mike Patton: um moleque malucóide, com um gogó afinado e uma presença de palco que misturava sarcasmo, entrega total e comunicação direta com o público. Visualmente, ele encarnava a nova estética juvenil, com cabelo estilo asa-delta, camisa de flanela xadrez, bermudão de skatista e carisma de sobra.
Do outro lado, Axl Rose representava o arquétipo do rockstar intocável: cercado de excessos, protegido por um aparato quase intransponível e sustentado por um repertório que respeitava todos os clichês do hard rock oitentista.
Um atropelo sonoro
Ainda assim, todo mundo estava lá para ver o Guns N’ Roses pela primeira vez no Brasil - com direito a estreia de novo baterista e músicas inéditas do ainda não lançado, Use Your Illusion. O Faith No More, porém, parecia não se importar com isso. O show foi uma verdadeira aula de atitude. Sem roteiro, sem produção de palco elaborada e sem qualquer cerimônia, a banda entrou com o pé na porta ao som de “From Out of Nowhere”. Era um ataque direto. O grupo soava afiado, agressivo e com uma fome de palco invejável.
Embora “Falling to Pieces” e “Edge of the World” ainda fossem se tornar hits febris nas rádios brasileiras ao longo de 1991, “Epic” já era um estouro. O público espremido no Maracanã cantou cada verso da música — aquele mesmo estádio que, nas palavras de Mike Patton em entrevista a Zeca Camargo, “fedia a urina”.
O vocalista roubou a cena de forma absoluta. Completamente possuído, Patton se jogou do alto das caixas de amplificadores, chorou no microfone, subiu nas estruturas metálicas do palco e ainda puxou um coro de “Pelé” no maior estádio do mundo. Ele era a síntese perfeita do espírito do Faith No More naquele momento: risco, punch e desprezo total por qualquer noção de segurança ou previsibilidade.
No repertório de uma banda ainda praticamente desconhecida do grande público brasileiro, canções divinamente bem costuradas como “Woodpecker from Mars”, “The Real Thing”, “Underwater Love” e “We Care a Lot” mantiveram a plateia conectada e batendo cabeça durante uma hora. Já na parte final, duas covers de origens completamente opostas deixavam evidente a falta de compromisso da banda com modelos pré-estabelecidos.
“War Pigs”, do Black Sabbath, levou os headbangers à loucura. No bis, “Easy”, de Lionel Richie e dos Commodores, fez os isqueiros se acenderem em uma versão tão irônica quanto elegante.
Trinta e cinco anos depois, esse show permanece na memória como um dos momentos mais emblemáticos do Rock in Rio 2. Não apenas pela performance, mas pelo que ele representou. Mais do que desbancar o maior headliner da noite, o Faith No More mostrava o que havia de mais original no rock naquele momento.
Era o presente e o futuro atropelando o passado — sem dó.
