Rammstein propõe assuntos tensos em álbum contemplativo

Rammstein
Zeit
⭐⭐⭐⭐⭐ 5/5
Por  Zeone Martins 

Escrever sobre um lançamento Rammstein não é só ouvir repetidamente, captar os detalhes e fazer anotações. Envolve tudo isso, porém deve-se atentar à divulgação, aos clipes, à arte e as letras de cada trabalho do sexteto. 

E não é diferente com Zeit, de 2022. O trabalho, a princípio mais 'calmo' que o antecessor (não-intitulado ou RAMMSTEIN, de 2019), aposta em sonoridades mais esparsas e linhas de teclados amparadas por guitarras, aqui mais ao fundo,com acordes somando-se a sessão rítmica,  sem tantos riffs. E já com sintetizadores à frente, "Armee Der Tristen" versa sobre tristeza, melancolia e até questões de saúde, como a depressão, atingindo grande parte da população. A abertura já dá o tom de que não é um disco 'festivo' que está por vir.

"Zeit", que em alemão significa tempo, fala de mortalidade, idade e sua própria sonoridade segue um tom mais reflexivo. Em contraparte, "Zick Zack", que representa o dos bisturis cortando, alterando se o corpo para não aceitar-se os sinais do tempo e toda sorte de cirurgia invasiva para alterar a aparência, aqui já com com cara de single, não a toa sendo a segunda faixa de trabalho.

'Ohne Kondom!'  repete um coral no começo de "OK", adiantando o refrão. Até com solos de guitarra nos versos e sessão instrumental interessante no final, com gritos do vocalista Till Lindemann ao fundo. E o que seria o 'OK' do título? Sem camisinha, traduzindo de forma bem direta. E a letra trata do espinhoso assunto -quantas bandas de rock, ainda mais fornadas apenas por homens, o leitor já viu discutir o tema? Especialidade do grupo alemão, mergulhar em assuntos polêmicos, torna ainda mais curioso seu sucesso em mercados conservadores, por muitas vezes reacionário, como o americano. Nos anos 80, a livre sexualidade de Freddie Mercury e o clipe de "I Want to Break Free" foram o bastante para aumentar a rejeição do Queen nos Estados Unidos e a banda desistir de vez de crescer por lá, enquanto lotavam estádios por tantos outros lugares do mundo. E para quê a comparação? O Rammstein tem em seu repertório canções como "Mann Gegen Mann" ("Homem contra Homem"), falando abertamente sobre a homossexualidade, que ainda ainda é um tabu, infelizmente. Imagine uma banda que canta em alemão, fazendo música e tocando em assuntos espinhosos, lotando arenas nos Estados Unidos? É a realidade do Rammstein.


Voltando ao álbum, "Angst" traz uma interessante batida no seu início, seguindo com as guitarras bem a frente na mixagem e uma citação ao racismo no folclore alemão. A trinca "Meine Trannen", "Dicke Titten" e "Lugen" discutem masculinidades, matrimônio, infidelidade e homens que vivem com as mães, fora objetificaçōes. A própria "Lügen", com um riff dissonante e intenso, tem uma outra simbiose entre letra e produção: a medida que a letra toma outra direção e o assunto se tornam as mentiras, as máscaras em um relacionamento, a voz fica cada vez mais mecânica, mais embebida em 'autotune', famoso corretor de voz. Perfeito uso, é embasbacante o efeito.

"Adieu" fecha o álbum tratando da mortalidade, em um disco contemplativo e intenso. Vale muitas audições, de fone, no escuro, para se ambientar à solidão, que também é um tema que permeia as faixas.

Fica até difícil dar nota, mas é um novo capítulo de sucesso sonoro do Rammstein. Pra uma banda que chega a ser tolamente acusada de nazismo, assim como os eslovenos do incrível Laibach, estão mais para grupos que levantam questionamentos e usam muito simbolismo em seus trabalhos. Merecem audições atentas e a imersão aqui em Zeit é recompensada. Quem tiver acompanhado meus textos aqui, pode ver alguns candidatos aos meus favoritos do ano já aparecendo. O Rammstein, um deles, acerta em cheio mais uma vez.

Zeone Martins

Músico e tradutor. Coleciona discos e vive na casa de 4 gatos.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
SOM-NA-CAIXA-2