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A modernidade de Frejat em "Ao Redor do Precipício"

Frejat está de volta com seu quarto álbum solo [Foto: Leo Aversa]
 
Por  Rosangela Comunale 

Quem passa os olhos pelo título e pelas faixas do recém-lançado álbum de FrejatAo Redor do Precipício, pode até achar que o trabalho caiu bem para tempos de pandemia e incertezas sociais. Afinal de contas, canções como “Parada de Estrada... Vazia”, “Todo Mundo Sofre” e “Sua Dor é Minha”, à primeira vista, podem até definir o estado sorumbático no qual muita gente atualmente se encontra. Isso se não soubéssemos que o álbum foi concebido entre os anos de 2018 e 2019 quando nem poderíamos imaginar que viveríamos uma crise pandêmica.

Mas, mesmo confessando não parecer retrô, o ex-vocalista do Barão Vermelho pouco se arriscou ao mostrar novas sonoridades como a que conseguiu alcançar em “E Você Diz”, feita em parceria de Jards Macalé e do saudoso Luiz Melodia, artistas e colegas sempre revelados como referências para Frejat. Na letra, mais uma vez, quem diria, referências ao momento atual, parecendo alusão às Fake News: “Você diz e eu desminto”. Quanto ao som, uma mistura de elementos nordestinos e eletrônicos flutuando ao sabor da flauta de Carlos Malta, e com um refrão que conclama o ouvinte a cantar all together now. Um verdadeiro hino aos tempos atuais: “Você diz e eu desminto/Tudo lindo, tudo plano a gente entrando pelo cano/Você diz e eu desminto/Vou tocar fogo e chupar cana...”

De resto, a receita que não poderia falhar para se chegar a um bom disco e agradar aos fãs de longa data de Frejat  e do Barão, banda da qual se desligou em 2017. Apesar de “Ao Redor do Precipício” não inteiramente remeter a sons baronescos, ainda podem ser percebidos nítidos resquícios dos velhos tempos  em “Te Amei Ali”, um rhythm‘ n blues com o parceiro Zeca Baleiro e versos como “A noite era uma criança/E você cantava um blues”,  acompanhados de solos de guitarra do próprio Frejat.

“Amar um Pouco Mais” e “Pergunta Urgente”  são viagens de volta ao início da carreira solo de Frejat com sua pegada love story que o consagrou desde quando emplacou com “Amor pra Recomeçar”, somadas, claro, ao teor melancólico britpop de “Por Mais que eu Saiba” e “Todo Mundo Sofre”. Mas a onda retrô, da qual Frejat assume ficar distante, insiste em aparecer em “Tudo que Consegui”, bem dançante, tipo 90's, à la Lighthouse FamilyJá a melodia em “Cartas e Versos” não nega a veia latina que sempre acompanhou o cantor desde os tempos do Barão quando chegou a fazer de “Vale Quanto Pesa”, de Luiz Melodia”, um suingue para muchacho nenhum botar defeito.
 
Em “A Sua Dor é Minha”, a cantora Alice Caymmi, neta de Dorival, foi convidada a interpretar a personagem Dominatrix (“Você me toca porque eu quero/Você só me beija porque eu deixo antes”). Um realce à parte para este blues rasgado que, em muitos momentos, faz lembrar Cássia Eller com seu timbre e voz proeminentes. Alice, por sinal, pode ser facilmente considerada como figura feminina de grande revelação no cenário da Música nos últimos tempos. Um outro destaque vai para Planetas Distantes, com Dulce Quental, que segue uma vibe mais futurista com um quê de rock´n roll. Uma canção que fala de adversidades amorosas mas pra cima.

Além da faixa-título, o disco conta também com “Batidão” e “Parada de Estrada... Vazia”, vinhetas que abrem, entremeiam e fecham o trabalho. Segundo Frejat, foram “momentos instrumentais que partiram de ideias soltas... para exercitar nossa musicalidade em várias linguagens, mantras de diferentes universos musicais”.

Aí você me pergunta: vale a pena ouvir? Sim. Frejat mostra, neste trabalho, que, por mais que tentemos nos reinventar e mostrar novidades, o que fica é a essência da Arte que nos faz ser quem somos e ter os fãs que temos. Para quem curte o cantor e o Barão Vermelho, é um disco que nos leva a um zigue-zague de caminhos histórico-musicais, ao redor do precipício da mudança que, às vezes,  é tão desejada mas nem sempre alcançada.

⭐⭐⭐⭐4/5

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