quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Discos: Diabo Verde (Veni, Vidi, Vici!)

Foto: Divulgação
Diabo Verde acerta em cheio no discurso de Veni, Vidi, Vici!
DIABO VERDE
"Veni, Vidi, Vici!"
Independente; 2016
Por Bruno Eduardo

Reza a cartilha que as bandas punk / hardcore precisam acima de tudo ter o que dizer. Precisam ser honestas e igualmente amadoras - não no sentido pejorativo, mas naquele de amar o que faz. É aquilo de ter tesão em tocar por todos os cantos (dos grandes palcos aos pequenos becos esfumaçados). Para comprovar a autenticidade da proposta, o Diabo Verde veio para deixar sua mensagem de forma categórica no afiado Veni, Vidi, Vici!

Nos tempos atuais, são pouquíssimas bandas que possuem um discurso tão bem definido e honesto quanto esse quarteto carioca. A luta por igualdade, livre-arbítrio e justiça fazem parte de um roteiro de causas defendidas pelo Diabo Verde. Se você é um cidadão de bem, que acredita que o seu direito começa quando o do outro termina (e vice versa), posso garantir que de alguma forma ou de outra você será fisgado por este disco. "A nossa liberdade não está à venda", diz a banda em uma narrativa inicial. Toda essa transpiração de sentimentos e vontade de transformar a sociedade em um lugar melhor pode ser resumida na incrível arte de capa do álbum, assinada por ninguém menos que Marcelo Vasco (que também foi responsável pela polêmica capa de "Repentless", último disco do Slayer). De acordo com a banda, o artista produziu a capa após estudar minuciosamente todos os temas relatados nas canções, e teve total liberdade de interpretação. 

Sonoramente falando, Veni, Vidi, Vici! remete aos melhores momentos da cena punk / hardcore vivida nos anos noventa, principalmente no cenário americano. As guitarras fraseadas, o ritmo enérgico e o conjunto riffs / estrofes / refrões colantes sintetizam a proposta musical do quarteto. "Escravo da Liberdade", por exemplo, traz elementos característicos de um Offspring (fase 94/97), como a bem tramada jogada de vocais e bateria nervosa. Outra que segue essa linha é a badreligiana "O Mal Não Pode Triunfar", que tem também uma das melhores letras do disco. Já a trilha sonora para o pogo comer solto nos show estão em pancadas como "Senhor do Destino" - que conta com a participação de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish - e a derradeira do álbum "Ninguém Vai nos Derrotar". Atenção especial também para o riff levanta-defunto de "Golpe Baixo" e sua crítica ao oportunismo do sistema.

Mas o que impressiona de verdade ao ouvir este novo disco da Diabo Verde é a capacidade da banda em unir peso e melodia num mesmo plano. Talvez por esse motivo, a referência no punk californiano noventista seja tão acentuada. Por mais pesadas que as músicas possam ser, quase todas elas possuem uma força melódica surpreendente, com grande destaque para os refrões - que grudam na cabeça logo na primeira audição. Tente resistir ao dueto de Paulinho Coruja e Badauí (CPM22) na ótima "A Missão". O verso é forte e igualmente atrativo: "Siga aquilo o que você acredita / Faça o bem sem olhar a quem". Tal fórmula sedutora é sentida de forma muita mais evidente em "O Prisioneiro", que não à toa, saiu como primeiro single do disco. Nessa, Paulinho diz que somos responsáveis por nossas atitudes e podemos mudar quando quisermos: "Não vou ser prisioneiro de todos os meus erros / Pra frente eu devo caminhar / E se eu falhar de novo / refaço a estratégia até a hora de acertar". 

Como foi falado anteriormente, o Diabo Verde acertou em cheio no contexto da obra, principalmente pela mensagem indiscutivelmente relevante e por sua interpretação artística. Mas vale ressaltar que Veni, Vidi, Vici! é acima de tudo um disco tipicamente hardcore, que além de ser muito bem executado, é curto, direto e dá o seu recado em pouco mais de meia hora.

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