sábado, 12 de setembro de 2015

DISCOS: SLAYER (REPENTLESS)

SLAYER

Repentless

Nuclear Blast; 2015

Por Lucas Scaliza


Qual é o disco do Slayer que vem a sua mente quando a banda é citada? Reign of Blood, com certeza. O álbum é um top of mind do thrash metal mundial, e nada mudará isso. Mas aqueles dias de 1986, em que o álbum foi lançado e parecia violento, pesado e inovador já é história. 

Já fazem seis anos desde que o Slayer mostrou o seu último - e bom - disco, World Painted Blood, e a expectativa por um novo trabalho de inéditas era grande. Ainda mais porque Repentless marca a discografia da banda por ser o primeiro registro sem o guitarrista Jeff Hanneman, falecido em 2013. Ele foi substituído por Gary Holt, do Exodus. Já o monstro das baquetas, Dave Lombardo, deu lugar a Paul Bostaph - um velho conhecido da banda.

Pelo que se mostra neste novo trabalho, a banda de Tom Araya e Kerry King ainda tem muita coisa para apresentar e não dão indícios de que este será um disco de encerramento - como a banda chegou a dizer em 2008. Mesmo assim, é sempre bom constar que estamos presenciando a primeira geração do thrash chegar a uma idade considerável, e o caso de Lemmy Kilmister liga um sinal de alerta para a turma veterana que roda o mundo destilando peso. Seja como for, Repentless precisa ter um sucessor. Ele é forte, pesadão e tem uma capa profana que de forma alguma anuncia o final de um grupo que criou um estilo de metal junto do Metallica, do Anthrax e do Megadeth.

Repentless” é a faixa previsível e acelerada de sempre, com uma boa parte melódica. O nível extremo de palhetada dá as caras em “Take Control”, com o característico zumbido belzebuíno dos pedais de distorção. “Vices”, cuja mixagem está bem seca, demonstra o poderio de Bostaph para arranjar. “Cast The First Stone” é o Slayer criando uma atmosfera 'metaleira' das boas antes de despejar riffs e porradas nervosas feito um boxeador. “When The Stillness Comes” é a faixa lenta do álbum que muitos fãs gostam de criticar, mas é preciso ver além do óbvio: ela permite arranjos mais sombrios e o andamento lento soa ameaçador e sorrateiro, permitindo que a faixa seja menos linear que as demais do álbum. Além disso, é Kerry King tocando as partes mais melódicas e trabalhadas, uma função que anteriormente foi feita por Hanneman, deixando só o peso para King. “Chasing Death” pode ser até uma das mais lineares aqui, mas ficou boa. “You Against You” é a faixa com as loucuras de que King gosta, com uma guitarra cheia de desvios e de efeitos de expressão que distorcem ainda mais as notas.

Diferente do Lamb of God - que tem um approach mais moderno do metal -, o Slayer sempre optou por se manter bastante ligado às raízes do estilo, e Araya, apesar da raiva e da performance toda ao vivo, sabe cantar rasgado e de forma bem crua, mas sem precisar distorcer a voz ou usar vocais guturais. Sua voz continua clara como sempre foi para todas as letras violentas que canta, o que significa que ouvimos perfeitamente e sem sombra de dúvida os palavrões, críticas e blasfêmias que fazem parte das composições da banda.

Piano Wire” e “Atrocity Vendor” colocam uma secura quase punk no metal do Slayer, faixas perfeitas para uma execução ao vivo direta e cheia de energia. E antes que os riffs supergraves de “Pride In Prejudice” dominem a faixa, é Bostaph quem brilha mais uma vez. A forma como a bateria improvisa fraseados neste e em outras faixas constitui vários dos melhores momentos do álbum.

Se com Hanneman a gente já esperava um típico Slayer em ação, sem ele ficou improvável que a banda traria alguma diferença estilística mais marcante. O trabalho poderia ser melhorado em vários aspectos, sobretudo na produção, que parece um pouco crua demais, como se a mixagem final tivesse sido apressada e um pouco descuidada. Com tudo, o efeito final é mais cru, e ressalta o peso e o jeitão old school da banda.

Uma das melhores coisas de Repentless é sua capa: no primeiro plano, o rosto de um Jesus Cristo derretendo em lava e enxofre. A seu lado, um demônio caçando outro demônio. Atrás dele, notamos um pentagrama invertido. Um homem crucificado à esquerda, uma cruz invertida à direita. O criador dessa capa é o brasileiro Marcelo Vasco, fã do Slayer. Ele é experimentado nas artes metaleiras e já fez capas para discos do Dimmu Borgir, Obituary, Cavalera Conspiracy, Dark Funeral, Soulfly, Machine Head, entre outras.

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