segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DISCOS ODIADOS QUE AMAMOS: PEARL JAM (BINAURAL)

Foto: Pearl Jam / Binaural


Por Rafael Rodrigues

Era o ano dois mil. Ficava para trás a década de noventa. O grunge já era passado, e das grandes bandas do movimento algumas poucas se mantinham na ativa. Mas lá estava o Pearl Jam. A banda vivia seu pior momento, contribuído pela própria posição de reclusão adotada, e também pela tragédia em Roskilde, na Dinamarca, onde 9 fãs morreram esmagados em seu show. Neste mesmo período foi lançado um dos discos mais controversos da banda, Binaural, disputando o posto com o já contestado No Code, de 1996.


Binaural tinha tudo para ser um disco esquecido pelos fãs - considerando a falta de hits no álbum, assim como a fase experimental que eles se encontravam - iniciada em seu terceiro disco, Vitalogy (1994). Mas não foi o que aconteceu. É chover no molhado explicar nesse texto que os fãs de Pearl Jam não são como os de outras bandas. É curioso, e até difícil de entender, como uma banda pode ver sua legião de seguidores aumentar num momento de desaparecimento da mídia. 


Com exceção do single "Do the evolution", do ótimo antecessor Yield, eles não lançavam um vídeo clipe desde seu álbum debutante, Ten (1991). Foi uma época estranha - com o sumiço da MTV e o rompimento com o maior expoente organizador de shows no seu país, a Ticketmaster. Só que nada disso esfriou o amor dos fãs pela banda. Binaural veio para fincar o Pearl Jam como uma banda atemporal, assim como os Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras. Por que afirmar isso? Porque foi ali que a banda foi testada a ferro e fogo; firmando mais ainda sua postura, seus ideais e suas convicções. Para muitos o Pearl Jam naquela altura já tinha dado o que deveria. 


Mas o que ninguém esperava, era que algo inusitado recolocaria a Pearl Jam em vias mais populares. Em 1998, na disponibilização anual de singles que a banda faz para seu fã clube oficial, os caras lançaram os hits retrôs "Last Kiss" e "Soldier of Love". Essas músicas foram exaustivamente tocadas nas rádios, o que aguçou um público mais jovem a conhecer a história do grupo - provocando assim a redescoberta do Pearl Jam para uma nova geração. Além disso, era o primeiro disco gravado com Matt Cameron na bateria. 


Para esses novos fãs, Binaural foi recebido com muito entusiasmo, pois era o primeiro material inédito lançado pós-fase "Last Kiss". Na verdade, o disco foi responsável pela renovação etária dos seguidores do grupo. Porém, os fãs mais antigos - e também mais exigentes - receberam o álbum com certa indiferença. Era natural, já que não existia nada do impacto de "Alive", ou até de singles como "Do the Evolution". Mas podemos dizer que há faixas muito boas como "Light Years", "Thin Air", "Nothing as it Seems" e "Grievance", que soavam muito bem aos ouvidos mais apurados - daqueles que vivenciaram a época mais fértil do Pearl Jam. Destacam-se ainda "Of the Girl" e a linda "Parting Ways".


Binaural pode ser considerado um divisor de águas da carreira do Pearl Jam. Talvez se nessa fase estranha a banda tivesse se rendido à pressão da mídia - tentando fazer algo como Ten ou Vs. - poderiam não ter chegado onde estão hoje. Os fãs concordam que essa foi uma fase necessária para amadurecimento, tanto que a banda logo voltou a aparecer na mídia - mesmo que timidamente. 


Na verdade, o grupo chegou ao consenso de que os maiores prejudicados nessa guerra com o mainstream eram os fãs, que sofriam com a limitação de um mercado cada vez mais globalizado. 


Binaural foi o "mal necessário" na hora certa - amado pelos fãs e ignorado secamente pela crítica.

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