domingo, 20 de julho de 2014

DISCOS ODIADOS QUE AMAMOS: RHCP (One Hot Minute)

Foto: RHCP / One Hot Minute
Lançado em 95, One Hot Minute é a fronteira criativa dos Chili Peppers
Por Bruno Eduardo

O álbum Californication - lançado em 1999 - foi o principal responsável por colocar o Red Hot Chili Peppers no topo do mainstream mundial. O disco vendeu 35 milhões de cópias, rendeu vários prêmios e fez de Anthony Kiedis um popstar teen - com cabelo loiro, cortado estilo chanel e substituindo as meias na genitália pelos ternos de linha. Bom, como nem tudo são flores, o disco deixou algumas heranças malditas e incuráveis. Uma delas, por exemplo, é o misticismo ao redor de John Frusciante. Tal fascinação dos fãs é justificável. Afinal, Frusciante participou dos discos mais bem sucedidos dos Chili Peppers (Blood Sugar Sex Magik e Californication) e sempre entrou no grupo quando as coisas pareciam andar mal das pernas. Só que é válido lembrar também, que ele fez parte da fase de declínio criativo do grupo. Seus solos econômicos, riffs simplórios e melodias curtas se encaixam perfeitamente no modelo descartável - e apropriado - que o mercado musical consome.


Entre duas fases opostas - a de banda mais quente do planeta e a de banda mais água com açúcar do universo - se encontra um dos discos mais legais e estranhos que eles poderiam cometer um dia: One Hot Minute


Após conhecer o sucesso em 1991, Frusciante não segurou a onda e abandonou o grupo no início da turnê de Blood Sugar - que perdurou por dois anos até que eles resolvessem gravar de novo. Por sugestão de Chad Smith, os Chili Peppers contrataram Dave Navarro do Jane's Addiction para a vaga e, como era de se esperar, Navarro mudou bruscamente a sonoridade da banda. Mesmo discordando de alguns fãs que consideram One Hot Minute o disco mais pesado deles (o mais pesado é Mother's Milk), posso dizer que ele se aproxima - e muito - do título de "disco heavy metal" que Frusciante se recusava tocar nos shows. "Eu não toco essas coisas heavy metal que o Navarro fez", diria numa entrevista em 1999. Talvez o que incomodasse mais Fusciante, era o fato do disco se escorar fundamentalmente nas inserções guitarrísticas de Navarro - seja no peso de "Coffee Shop" ou nas frases suingadas de "Walkabout" - e na consistência sonora das faixas - que oscilam pouco, em comparação aos outros discos da banda. 


Para dar tons mais amargos ao período, Anthony Kiedis e a heroína viviam uma relação complicada. "Minha tendência para a dependência está me ofendendo", canta no primeiro verso de "Warped" - que abre o disco. Embora parecesse algo impossível, o desempenho do vocalista não foi afetado pelo dificultoso processo de produção deste álbum. Não seria exagero afirmar que aqui se encontram algumas de suas melhores interpretações - ouça a funkeada "Aeroplane", ou o tributo a Kurt Cobain, "Tearjeker". E o que dizer da quase acústica "My Friends", hit belíssimo do disco, que também faz parte de uma lista de canções desprezadas pela banda e até mesmo pelos fãs.


Mesmo com todos os percalços, One Hot Minute pode ser considerado um improviso dentro da discografia dos Chili Peppers. Ele soa como um ato instintivo. Um resultado espiritual de uma briga interna contra demônios, vaidade, obsessão e ganância. Concordo, só inspiração não vende disco, e eles também não foram capazes de produzir um grande sucesso nessa época. 


Além de ser considerado um fracasso comercial, o disco é praticamente ignorado pelos fãs. O fato do RCHP não tocar as músicas do álbum nos shows não surpreende, já que a banda se tornou biotipo de um mercado auto sustentável, protegida por marcas e envolvida em rótulos castradores - é, os Chili Peppers envelheceram e se acovardaram. 


One Hot Minute é talvez o último ato de coragem e inconsequência artística desta banda - e por isso vale cada segundo de audição.

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