Chained Saint: Como a Nova Sensação do Trash Metal Conquistou o Sepultura e Desafiou a Era Digital

Foto: Divulgação

No auge dos seus 19 anos, os meninos do Chained Saint não soam como uma banda que apenas imita o passado com um toque de nostalgia. Vindos do sul da Flórida, o quarteto formado por Sean Sterling (vocal), Ethan Kahn (guitarra), Sebastian De Avila (baixo) e Cameron Cottrell (bateria) decolou no cenário internacional com uma velocidade impressionante. Após estrearem em 2024 com o aclamado Blindside, gravado direto em fita de rolo sob a direção de William DuVall (Alice in Chains), passarem por festivais europeus e abrirem caminho no circuito norte-americano, eles desembarcaram pela primeira vez no Brasil.

Mas a conexão com o país não vem de agora. Além de ser o segundo maior público ouvinte da banda nas plataformas digitais, o grupo carrega a bênção direta de Andreas Kisser. Em bate-papo com a Rock On Board, Sean Sterling e Ethan Kahn falaram sobre manter os pés no chão, o rigor quase militar das gravações analógicas, as experimentações do recente EP Rise to Fall e a reverência pelas raízes do thrash brasileiro.

O pacto entre amigos de infância

Apesar de já somarem apresentações no Whisky a Go Go, turnês cruzando continentes e elogios públicos de gigantes como Rob Halford, a atmosfera entre Ethan e Sean é de total naturalidade. Questionados sobre como lidam com o hype e a pressão precoces, Sean foi direto ao ponto sobre o que os mantém ancorados:

"No fim das contas, estou aqui apenas com o meu melhor amigo fazendo o que nós dois amamos, que é tocar música. Nós crescemos tendo isso como sonho. O fato de podermos vir ao Brasil por causa da banda ou tocar no Whisky a Go Go músicas que nós mesmos compusemos... É só estarmos fazendo o que nos apaixona. Manter a cabeça no lugar é simplesmente absorver isso e viver o sonho todos os dias." — Sean Sterling

Ethan complementa com uma visão pragmática da evolução conjunta da dupla:

"Para mim, é apenas o que queremos fazer. Fico feliz que tenhamos começado cedo. Seja agora ou daqui a dez anos, nós dois faríamos algo juntos de qualquer maneira. Isso torna muito fácil manter a calma, porque é genuinamente o que a gente gosta de fazer." — Ethan Kahn

Essa química se reflete na composição. Diferente de bandas que tentam calcular milimetricamente um som retrô, o Chained Saint aposta em longas jam sessions na sala de ensaio. Um exemplo emblemático é a faixa "Stronger Than Stone":

"Escrever 'Stronger Than Stone' foi basicamente eu e nosso baterista, Cam, dizendo: 'vamos compor um som que a gente ache que caberia no Beneath the Remains'. E aí nós fizemos. A gente escreve o que gostaria de ouvir. Não pensamos duas vezes; quando todos concordam que aquilo soa como Chained Saint, a gente avança." — Ethan Kahn

Blindside e o método William DuVall

Gravar o disco de estreia diretamente em fita analógica, no estúdio de Bill Kelliher (Mastodon), foi uma escolha audaciosa orientada por William DuVall, e serviu como uma escola implacável. Sem telas de computador, sem edição cirúrgica ou correções de afinação, a ordem era precisão cirúrgica.

"Você tem que dominar o que está fazendo. É basicamente isso. Na fita, não tem como refazer um trecho só; se errar, tem que gravar tudo de novo do início. Esse processo nos ensinou a ter uma postura muito específica no estúdio e nos palcos." — Ethan Kahn

Sean recorda a exigência vocal de DuVall como um verdadeiro retiro de resistência:

"Como o corpo do vocalista é o próprio instrumento, ele colocou a minha vida sob um microscópio. Era: 'você pode comer agora, não pode comer agora; sem laticínios, beba chá, aqueça a voz e, depois do aquecimento, nada de conversa'. Parecia um campo de treinamento militar, mas tudo voltado a entregar a melhor performance e manter a voz pura." — Sean Sterling

Sean ainda resgatou uma lição clássica que norteou as sessões: "Aprendi uma frase no colégio com meu professor de produção: 'shit in, shit out' (se entra porcaria, sai porcaria). Se você não tocar perfeitamente, o resultado não será o que você quer. Não tem auto-tune nem consertos."

Toda essa carga técnica se reflete na entrega visceral das letras. Em relação à fúria interpretativa de canções densas como "Corrupt to the Core", o vocalista revelou um método particular de preparação psicológica:

"Antes de sair em turnê ou viajar, tiro um dia para sentar, ler as letras e entender o que elas me fazem sentir naquele momento. Eu realmente preciso canalizar aquilo. Não dá para cantar um tema pesado sorrindo, nem fingir agressividade vazia. Já cheguei a chorar no palco de tanto que estava imerso no sentimento da mensagem." — Sean Sterling

Rise to Fall: autonomia e o tempero de Rush

Se Blindside foi o cartão de visitas sob mentoria externa, o EP Rise to Fall, lançado em agosto de 2026, marcou a conquista da independência criativa. Coproduzido pela própria banda ao lado de Rob Roy no célebre Power Station Studios (onde Ethan atualmente atua como engenheiro assistente), o trabalho mostra um quarteto mais veloz, enxuto e seguro de sua identidade.

"A estrada é como um ensaio diário: você fica mais entrosado, mais afinado com a proposta do grupo. Com o novo material, a intenção foi cortar os excessos. O Blindside representava quem nós éramos e as influências daquela época, mas as novas músicas refletem exatamente onde estamos agora." — Ethan Kahn

Com as rédeas da produção nas mãos, a banda aproveitou para inserir referências que fogem do óbvio do thrash convencional, incluindo um tributo velado ao Rush na faixa "Snakeskin":

"Ninguém jamais adivinharia de onde veio: há uma quebra de bateria aos quatro minutos de 'By-Tor & The Snow-Dog', do Rush, em que o Neil Peart faz uma virada descendo pelos tons com um efeito de phaser. Achei aquilo genial e decidi aplicar exatamente o mesmo efeito na virada que o Cam gravou. Ter liberdade em estúdio nos permitiu experimentar essas loucuras." — Ethan Kahn

O elo brasileiro e a reverência ao Sepultura

Estar em São Paulo tem um peso especial para o Chained Saint. A relação da banda com os ícones brasileiros se consolidou nos últimos meses de forma meteórica: Andreas Kisser elogiou publicamente o quarteto no Flow Podcast chamando-os de "mini Sepultura", subiu ao palco do festival espanhol Leyendas del Rock vestindo uma camiseta do grupo e convidou Ethan Kahn para dividir as guitarras em "Propaganda" durante uma apresentação no México.

"Para nós, o Sepultura é A banda. Andreas Kisser está no meu top 3 de guitarristas favoritos de todos os tempos. Dividir o palco com as pessoas que inspiraram as músicas que compomos e que nos trouxeram até aqui foi surreal, um sonho realizado." — Ethan Kahn

Sean destacou o calor da base brasileira, que disputa mês a mês com os Estados Unidos o posto de maior audiência da banda nas plataformas: "O público do Brasil sempre lotava as caixas de comentários com 'come to Brazil', e agora estamos aqui sentindo essa recepção incrível de perto".

Questionados sobre quando os palcos nacionais receberão uma turnê solo completa do Chained Saint, a resposta veio em tom de urgência e promessa:

"O quanto antes. Assim que surgir o convite, e se não surgir, nós mesmos vamos atrás. Nós vamos voltar. O Brasil nos tratou de forma incrível. Amamos vocês." — Sean Sterling

Com garra analógica, riffs afiados e uma devoção sincera à herança da música pesada, o Chained Saint prova que o metal não morreu e que a nova geração não depende de atalhos digitais, depende de volume, atrito e verdade.


Carol Goldenberg

Advogada, jornalista musical e guitarrista, mas acima de tudo, amante da música desde sempre. Roadie, guitar tech e exploradora de shows e festivais pelo mundo, vivendo cada acorde como se fosse único e cada plateia como um novo universo.

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