Há quase quatro décadas, a Easy Street Records ocupa o mesmo endereço em West Seattle, acompanhando de perto as transformações de uma das cenas musicais mais importantes da história do rock. Mais do que uma loja de discos, o espaço se tornou um ponto de encontro e, nas palavras de seu proprietário, Matt Vaughan, uma espécie de guardião da memória musical da cidade.
Em entrevista ao repórter Rafael Rodrigues, do Rock On Board, na última edição do Mapa do Vinil, Vaughan fez questão de estabelecer uma conexão histórica entre a loja e a transformação do rock nos anos 1990 em Seattle. Ele também destaca que, mesmo depois de quase quatro décadas, o endereço da Easy Street continua preservado.
“Nós estivemos nesta mesma rua este tempo todo, quase 40 anos, nesta esquina. O bairro se chama West Seattle, estamos no lado oeste da cidade”, conta Vaughan.
"Chris Cornell morava ali na rua”
A localização não é apenas uma questão geográfica. West Seattle está diretamente ligada à história de algumas das bandas que ajudaram a construir a identidade musical da cidade. “É de onde vieram bandas como Mudhoney, Tad, muitas pessoas que trabalham na Sub Pop, membros de Soundgarden e Alice in Chains. Chris Cornell morava ali na rua”, relembra.
Para Vaughan, a importância da Easy Street está justamente nessa relação permanente com a cena local. A loja acompanhou diferentes gerações de músicos e públicos, mantendo-se conectada tanto ao passado quanto ao presente.
“O que a torna especial é que temos sido sinônimos da nossa cena musical de Seattle este tempo todo, não apenas do que surgiu no início dos anos 90, mas, de certa forma, agimos como historiadores do que veio antes e do que está acontecendo atualmente”, explica.
O vinil como documento da música
Em um momento em que o mercado fonográfico passou por profundas transformações, o vinil voltou a ocupar espaço importante entre colecionadores e ouvintes. Para Vaughan, entretanto, a ideia de um “ressurgimento” não representa exatamente a realidade da Easy Street.
“Acho que você pode chamar de ressurgimento, mas aqui o vinil sempre esteve aqui este tempo todo. Nunca deixamos de lado”, afirma.
A relação com o formato, segundo ele, também passa pela maneira como o disco materializa a obra de um artista.
“A coisa sobre o vinil... é o exemplo mais concreto de música como forma de arte. Você vai a um show e muitas vezes esquece. Vinil é vinil. É como eles queriam que fosse ouvido e visto.”
Na Easy Street, essa perspectiva ajuda a explicar por que discos antigos continuam tendo espaço ao lado de lançamentos contemporâneos. O catálogo funciona não apenas como produto, mas também como registro físico de diferentes períodos da música.
Uma cena é feita de colaboração
Vaughan também chama atenção para um aspecto que muitas vezes fica em segundo plano quando se fala sobre o surgimento de uma cena musical: a rede de profissionais que existe ao redor dos artistas.
“As fábricas de prensagem, os produtores musicais, os engenheiros, educadores, fotógrafos, designers gráficos, toda essa colaboração é o que faz uma cena”, afirma.
A lembrança o leva de volta ao período em que Seattle ganhou projeção internacional com bandas como Nirvana e Pearl Jam.
“Me lembra o que cresci ouvindo no final dos anos 80 e início dos anos 90, com o surgimento de Nirvana e Pearl Jam. Todos nós acreditamos nisso e ainda acreditamos.”
A declaração reforça uma visão de cena que vai além de um gênero musical específico. Para Vaughan, o que aconteceu em Seattle foi resultado de uma comunidade formada por músicos, produtores, artistas visuais, lojas, selos, técnicos e público.
De The Sonics a Mudhoney
A história que a Easy Street ajuda a preservar também vai muito além do grunge dos anos 1990. Entre as relíquias destacadas por Vaughan estão o álbum Deep Six, de 1986, importante registro da cena underground de Seattle, e trabalhos do The Sonics, banda formada nos anos 1960 e fundamental para compreender as raízes do som que surgiria posteriormente na região. A relação entre essas diferentes gerações pode ser resumida por uma frase de Vaughan:
“Sem The Sonics, você não tem Mudhoney. Sem Mudhoney, você realmente não tem Sub Pop.”
É uma maneira direta de enxergar a música como uma cadeia de influências. Antes do grunge ganhar o mundo, existiram bandas, discos, casas de shows, selos e músicos que construíram o ambiente necessário para que aquela explosão acontecesse.
Seattle e Brasil: uma conexão musical
A conversa também chega ao Brasil, país que, segundo Vaughan, desperta o interesse da comunidade musical de Seattle. E um dos nomes que ajudam a estabelecer essa ponte é o produtor Jack Endino.
Endino esteve diretamente ligado à formação do chamado som de Seattle, trabalhando com nomes como Mudhoney, Green River, Soundgarden e Nirvana. Posteriormente, também desenvolveu uma relação importante com a música brasileira, trabalhando com artistas do país, entre eles os Titãs.
“Jack Endino, que produziu o primeiro disco do Mudhoney, Green River, Soundgarden, Nirvana... Ele se tornou, bem, um produtor principal no Brasil nos últimos anos”, comenta Vaughan.
Para ele, essa relação vai além das conexões profissionais estabelecidas por um produtor.
“Há uma conexão entre Seattle e Brasil no que diz respeito à música e estilo de vida.”
A fala de Matt Vaughan ajuda a entender a Easy Street Records não apenas como uma loja especializada em discos, mas como parte de uma história que continua sendo construída. Em uma cidade cuja música ganhou o mundo, preservar os discos, as histórias e as conexões entre diferentes gerações também significa preservar a própria identidade de Seattle.
Assista a entrevista na íntegra e conheça a Easy Street Records no episódio #6 do Mapa do Vinil, no vídeo abaixo.




