Anthrax chega ao fim? "Cursum Perficio" mostra uma banda que ainda se recusa a parar

Anthrax
Cursum Perficio
⭐⭐5/5
Por  Loquillo Panamá 

O silêncio de uma década finalmente foi quebrado: o Anthrax está de volta às prateleiras e plataformas digitais com o lançamento de seu décimo segundo álbum de estúdio, Cursum Perficio.

Marcando o maior hiato da carreira da banda de Nova York desde For All Kings (2016), o novo trabalho não apenas celebra a longevidade de uma das instituições mais respeitadas do thrash metal mundial, mas também reafirma a força de uma formação extremamente sólida.

Com Joey Belladonna nos vocais, Scott Ian na guitarra rítmica, Frank Bello no baixo, Charlie Benante na bateria e Jonathan Donais na guitarra solo, o grupo mantém a mesma escalação do disco anterior — algo que não acontecia em lançamentos consecutivos de inéditas desde o início dos anos 2000.

O título em latim, Cursum Perficio, que pode ser traduzido como “minha jornada chegou ao fim” ou “eu completo minha jornada”, naturalmente levantou especulações sobre uma possível despedida dos palcos. No entanto, os integrantes fizeram questão de esclarecer, em diversas entrevistas, que o nome carrega apenas um peso conceitual e narrativo, sem sinalizar aposentadoria.


A preparação para a chegada do álbum contou com uma verdadeira maratona nos palcos, incluindo extensas turnês em 2026 ao lado do Megadeth e do Exodus na América do Norte, além de datas selecionadas como convidados do Iron Maiden na turnê mundial Run for Your Lives, que estará no Brasil em outubro.

A campanha de divulgação revelou aos poucos a ambição sonora do projeto, mostrando uma banda disposta a resgatar a fúria clássica sem abrir mão da evolução técnica e de estruturas progressivas, fugindo de clichês modernos ou de soluções fáceis como breakdowns ou metalcore.

Em maio, fomos apresentados ao novo Anthrax com a faixa “It’s for the Kids”. Um cartão de visitas perfeito. Um ataque direto de thrash metal tradicional com o selo de qualidade da banda, resgatando a energia e os ganchos viscerais que consagraram a era de Among the Living (1987). Um outro Anthrax apareceu quando “Everybody’s Got a Plan” surgiu nas plataformas de streaming, no dia 10 de julho.

Cadenciada e com muito groove, a faixa desacelera o andamento para destacar a pressão rítmica da bateria e do baixo, comandados pela dupla Benante e Bello, criando uma atmosfera encorpada e de muito peso. O terceiro single é uma das grandes surpresas do disco. Com duração estendida e a inclusão de muitos blast beats na bateria, a canção expande os limites sonoros do grupo.

Embora dialogue com o tom soturno e progressivo dos álbuns recentes, Worship Music (2011) e For All Kings (2016), a identidade permanece inconfundível graças às guitarras afiadas e às linhas vocais operísticas e marcantes de Belladonna. O vocalista do Anthrax sempre deu à banda uma sonoridade específica e fora do comum, que acabou se transformando em uma carta de identificação imediata da veterana banda de thrash metal.


Além do peso musical, Cursum Perficio se destaca pelo aprofundamento de sua narrativa visual. A arte da capa não é mero adorno; ela expande o universo da banda ao conectar novos personagens ao lendário catálogo do Anthrax. O Mágico: Roman Fenn representa a versão jovem do cruel pregador Rev. Henry Kane, figura imortalizada na capa de Among the Living, revelando uma nova gênese do vilão.

Miss Clara (A Noiva) e Grim (O Cão) funcionam como o ponto focal e a porta de entrada para a atmosfera misteriosa da caravana de Cursum Perficio. Drzej e o Padre atuam como os guardiões e protetores da comitiva. Chron, o esqueleto voador que paira sobre a cena, simboliza a atemporalidade, a finitude e a passagem implacável do tempo, estabelecendo também uma ligação direta com Persistence of Time (1990).

Sem se render à nostalgia rasa, o Anthrax lança em Cursum Perficio um trabalho maduro, agressivo e tecnicamente impecável. Entregar apenas uma cópia de Among the Living ou Spreading the Disease soaria falso para músicos com mais de 40 anos de estrada. A repetição cega de fórmulas pode até atrair a nostalgia imediata, mas tornaria o disco descartável a longo prazo.

Construções musicais épicas mostram que o Anthrax se recusa a ser uma banda de tributo a si mesma. Worship Music e For All Kings já provaram que o público moderno da banda aceita a complexidade progressiva, desde que os pilares de sua identidade — peso rítmico e vocais melódicos — sejam preservados.

O Anthrax acerta justamente por não escolher apenas um lado: entrega a nostalgia direta em “It’s for the Kids” e, ao mesmo tempo, empurra as fronteiras do próprio som em “Edge of Perfection”.

Entre todos os lançamentos de 2026 de bandas famosas do thrash metal dos anos 80, como os mais recentes trabalhos de Kreator, Megadeth e Exodus, o novo Anthrax parece querer quebrar as fronteiras do esperado para abrir espaço para novidades e seguir o seu curso desbravador do metal, iniciado em 1982.

Loquillo Panamá

Nômade agregador de ritmos musicais e fanático por shows. Está sempre correndo atrás de novidades para multiplicar e informar os amantes de boa música.

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