Pentagram em São Paulo: se foi despedida, foi em alto nível

Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board

Há pouco mais de um ano, o Pentagram esteve no mesmo Fabrique Club, em São Paulo, para celebrar sua história diante de uma plateia devota. Naquela noite, o clima era de celebração. Agora, o cenário se repetiu, mas com um ingrediente que muda completamente o significado da apresentação: a banda está em sua Farewell Tour – Last Latin American Run 2026, anunciada como sua despedida dos palcos latino-americanos.

E, se existe algo que ficou claro nesta nova passagem pelo Brasil, é que o Pentagram não entrou no palco com qualquer aparência de banda em fim de carreira. Pelo contrário. Entrou para tocar. E tocou muito.


Fuzzly prepara o terreno

Foto: Ricardo A. Flávio / Rock On Board

Antes do ritual principal, coube à Fuzzly abrir a noite.

A banda de stoner rock fez um ótimo show e encontrou um público bastante receptivo desde os primeiros acordes. Com um som pesado e envolvente, foi conquistando espaço até terminar a apresentação sob aplausos e uma merecida ovação.

Foi uma abertura que funcionou muito bem: a Fuzzly não apenas cumpriu a tarefa de preparar a casa para o Pentagram. Saiu do palco deixando o público ainda mais aquecido para o que viria a seguir.

O culto continua

Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board

Quando o Pentagram entrou no palco, a resposta foi imediata. A banda estava animada, afiada e claramente disposta a entregar tudo. Do outro lado, um público insano, emocionado e completamente entregue.

A sensação, para quem acompanhou a apresentação do ano passado, era de déjà vu. O show desta vez foi muito parecido com aquele realizado em 2025 – inclusive na estrutura do repertório. E isso não chega a ser um problema quando se tem um catálogo como o do Pentagram e uma plateia disposta a celebrar cada música.

Há pouco mais de um ano, a banda já havia apresentado em São Paulo um set curto, de aproximadamente uma hora, com onze músicas, misturando material de “Lightning in a Bottle” com clássicos de diferentes momentos da carreira. “The Ghoul”, uma das faixas mais conhecidas do grupo e aquela que ganhou uma nova vida graças ao famoso meme envolvendo Bobby Liebling, também ocupou posição de destaque naquele repertório.

Nesta noite, a história se repetiu: “The Ghoul” foi a terceira música do set. E, a essa altura, o público já estava completamente entregue.

Talvez o ponto mais curioso da apresentação seja justamente a ausência de grandes picos. O show é bastante linear. Não existe uma sequência de grandes surpresas ou um momento que se sobreponha claramente aos demais. O Pentagram simplesmente mantém a apresentação em alto nível, música após música, sustentado por uma banda muito bem entrosada e por um repertório que fala por si.

E isso diz bastante sobre a força do grupo.

Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board

Não é preciso transformar cada música em um acontecimento quando se está diante de uma obra construída ao longo de mais de cinco décadas. O Pentagram é uma das bandas fundamentais para a formação da linguagem que viria a ser conhecida como doom metal, ainda quando o heavy metal sequer havia definido completamente seus contornos.

No palco, porém, não há espaço para nostalgia excessiva. O que existe é música pesada, músicos afiados e Bobby Liebling à frente de uma plateia que sabe exatamente o significado daquele momento.

Uma hora passa rapidamente.

E talvez essa seja a melhor medida do sucesso da apresentação: mesmo para quem já havia visto praticamente o mesmo espetáculo pouco mais de um ano antes, o show não se transforma em mera repetição. A emoção do público dá outro sentido às músicas.

Porque desta vez existe a possibilidade – ainda que uma turnê de despedida possa sempre deixar uma porta entreaberta – de que aquela seja uma das últimas oportunidades de assistir ao Pentagram em um palco brasileiro.

Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board

O último culto?

Em 2025, escrevi que aquela havia sido uma noite para quem entende o metal não apenas como gosto musical, mas como estilo de vida. Um ano depois, a sensação permanece.

A diferença é que agora existe uma espécie de ponto final pairando sobre o palco.

O Pentagram passou por São Paulo novamente, entregou um show consistente, encontrou um público apaixonado e deixou sua marca mais uma vez. Não precisou reinventar o repertório, criar grandes efeitos ou transformar a despedida em espetáculo teatral.

Bastou ser Pentagram.

Se foi uma despedida, foi em alto nível.

Foto: Carol Goldenberg / Rock On Board

Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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