Manger Cadavre?: “Como Nascem os Monstros” transforma o medo em arma

Foto: Divulgação

Vindos de São José dos Campos, no Vale do Paraíba Paulista, e na ativa desde 2011, o MANGER CADAVRE? — “Come Cadáver?”, em tradução literal do francês – construiu uma trajetória sólida dentro do underground brasileiro. A banda transita com enorme propriedade por hardcore, crust e death metal e acumula uma consistente discografia, formada por inúmeros singles, EPs, splits e quatro full lengths: “AntiAutoAjuda” (2019), “Decomposição” (2021), “Imperialismo” (2023) e “Como Nascem os Monstros” (2025).

É justamente este último trabalho que acaba de chegar às minhas mãos em uma caprichada edição em vinil vermelho, com bela capa, encarte com as letras e resultado da união de 14 selos independentes. Um lançamento que, além da música, representa aquilo que o underground brasileiro sabe fazer muito bem: juntar forças para colocar na rua um trabalho que merece ser ouvido.

E “Como Nascem os Monstros” começa pela capa.

A ilustração da artista paranaense Bárbara Gil é simplesmente fenomenal. Uma espécie de anatomia monstruosa, cheia de detalhes, ossos, músculos e elementos que parecem sair de um pesadelo, traduz visualmente aquilo que o disco pretende discutir: o medo, suas origens e, principalmente, aquilo que ele pode fazer com o ser humano.


Nata Nachthexen
, vocal; Bruno Henrique, baixo; Paulo Alexandre, guitarra; e Marcelo Kruszynski, bateria, construíram o álbum tendo justamente o medo como eixo central. E abrem os trabalhos com a belíssima instrumental “Insônia”, faixa de nível internacional e que funcionaria perfeitamente como abertura de show. Riffs pesados, cozinha coesa e um andamento crescente preparam o terreno para a desgraceira que vem pela frente.

Na sequência, “Engaiolados” chega pesada, acompanhada pelo poderoso vocal gutural de Nata. A letra aborda as redes sociais e, no meu entendimento, principalmente o medo de não pertencer ao mundo de hoje:

Cobaias de experimentos
que não buscam curar
Apenas vendem sofrimentos

A partir daí, a banda constrói uma espécie de retrato da sociedade conectada, em que comunidades virtuais convivem com pessoas cada vez mais solitárias, enquanto nossos dados são transformados em mercadoria.

Em uma jaula invisível – engaiolados
Alimentamos a máquina binária

E o questionamento segue até uma das questões mais interessantes da faixa: “existe liberdade, com o império da vigilância?

É uma pergunta que atravessa boa parte do disco.

Foto: Divulgação

Obsolescência Programada” vem logo depois como outra cacetada. Aqui, o MANGER CADAVRE? direciona suas críticas ao modelo econômico em que vivemos e usa metáforas para deixar evidente a luta de classes:

Para nós tudo é feito para estragar
Para eles, o melhor a se desperdiçar

A exploração aparece no “terceiro mundo sugado”, enquanto o medo volta a ocupar o centro da discussão quando surge o fantasma do desemprego:

assombrados pelo fantasma da substituição
engolimos orgulho com agonia
pelo medo de perder o pão de cada dia

É o medo deixando de ser apenas uma reação individual para se transformar em mecanismo de controle social.

A faixa-título, “Como Nascem os Monstros”, aprofunda justamente essa ideia. A banda tenta explicar como o medo toma conta do ser humano e o faz agir; como deixa de ser apenas um sentimento biológico de defesa e passa a controlar, paralisar e transformar nossas ações.

Em “A Terceira Onda”, o alvo é o uso da fé como instrumento de manipulação. A música aborda aqueles que se aproveitam da miséria e do desespero dos mais oprimidos para, através de falsas promessas, conquistar poder — seja para enriquecer ilicitamente, seja para alcançar posições políticas.

A fé, nesse caso, transforma-se em ferramenta de dominação. E quem sofre é justamente quem acredita encontrar naquela promessa religiosa uma saída para uma realidade que parece não oferecer nenhuma.


O Lado A se encerra com “Paralisia”, que aborda o medo da classe trabalhadora de perder até mesmo aquilo que já possui.

Falei bastante sobre o conteúdo até aqui, mas é importante lembrar que tudo isso vem ancorado por uma parede sonora avassaladora. Nata, Bruno, Paulinho e Marcelo demonstram uma evolução nítida ao longo da trajetória da banda e provam que não foi por acaso que chegaram à Europa, tocando com destaque em um festival do tamanho do conceituado Obscene Extreme, na República Tcheca, além de outros palcos espalhados pelo Velho Continente.

E então chegamos ao Lado B.

Essa é uma das magias de ouvir um disco em vinil. Existe um ritual envolvido em virar o álbum, colocar novamente a agulha no sulco e continuar a viagem. É algo indescritível – e que o mundo que nasceu e cresceu com o streaming precisa conhecer.

O segundo lado abre com “Retórica do Silêncio”, uma faixa que mergulha nos tempos modernos e na cultura do ódio institucionalizada pelas redes sociais, pelos discursos vazios e por gente que insiste em ser sempre dona da razão.

No refrão, a banda apresenta sua resposta:

eu abaixo o volume
minha resposta é o silêncio
eu abaixo o volume
meu inimigo é outro

Mortos que Caminham” vem na sequência e mete o dedo em outra ferida moderna: a alienação, a superexposição na internet e a busca incessante por validação nas redes sociais.

Mortos que caminham
um desejo constante por mais
mortos que caminham
que se alimentam de migalhas digitais

É uma imagem forte para uma sociedade que nunca parece satisfeita e que, ao mesmo tempo em que está permanentemente conectada, parece cada vez mais distante de si mesma.

Murmúrio” muda o tom. É uma canção soturna, pessoal e introspectiva, que trata dos medos de uma maneira muito mais íntima:

Ouça aquilo que não é dito
sem palavras, mas com um murmúrio
o som das ondas
a água corrente
tudo isso é um pranto

Frustração, depressão, ansiedade, escolhas erradas e o medo provocado por tudo isso aparecem na faixa. Mas há também a percepção de que essas experiências não necessariamente conseguem destruir completamente quem as enfrenta.

Então chega “Efêmero”, talvez um dos momentos mais fisicamente incômodos do disco. A música detalha os sintomas de uma crise de pânico de maneira visceral, trazendo sensações de paralisia e asfixia e tratando o corpo quase como uma carne que apodrece diante do medo.


Quase no final do álbum, “
Câncer do Mundo (Capitalismo)” apresenta uma crítica direta à degradação social, ambiental e pessoal provocada pelo modelo econômico vigente. É, de certa maneira, um resumo da identidade do MANGER CADAVRE?: um som visceral utilizado para cantar sobre as agruras da humanidade, sem suavizar absolutamente nada.

E o disco fecha com “Abutres”, questionando quem lucra com a guerra, a destruição e o sofrimento humano. A comparação é direta: assim como os abutres se alimentam da carniça, determinados agentes do poder se alimentam da miséria humana.

E talvez seja justamente aí que “Como Nascem os Monstros” revele sua principal força.

Os monstros não aparecem apenas nas figuras grotescas da capa. Eles nascem do medo, da exploração, da alienação, da vigilância, da manipulação religiosa, da desigualdade, da guerra, da necessidade de aprovação e até das fragilidades que carregamos individualmente. O medo pode ser reação, mas também pode ser transformado em produto, mecanismo de controle e instrumento de poder.

Musicalmente, o MANGER CADAVRE? entende perfeitamente como traduzir tudo isso em som. “Como Nascem os Monstros” é violento, denso, pesado, bem tocado e muito bem gravado. Voz, baixo, guitarra e bateria estão exatamente onde precisam estar, formando uma máquina sonora que não perde força enquanto desfila por temas tão incômodos.

Mais do que provar que uma banda brasileira de hardcore/crust/death metal pode estar no mesmo nível de grandes nomes internacionais, o MANGER CADAVRE? mostra que o underground daqui tem identidade própria, discurso e, principalmente, algo a dizer.

“Como Nascem os Monstros” não é um disco confortável.

Ainda bem.

Vida longa ao MANGER CADAVRE?!

Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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