Pai e filho no mesmo palco? Faith No More e SOAD: um encontro que une gerações


Poucas vezes um anúncio de um show causou tanto alvoroço nas redes sociais roqueiras, como este anúncio de System Of A Down e Faith No More no Maracanã, marcado para acontecer no dia 15 de janeiro de 2027. Além de todo o hype que um evento como esse possa causar, é impossível desassociar a relevância histórica desse acontecimento. Pela primeira vez, teremos a oportunidade de ver o criador e sua criatura numa mesma noite.


O som do System of a Down bebe de tantas fontes díspares que se torna quase impossível isolar uma única banda e afirmar categoricamente: “SOAD foi influenciado por esta banda”. Ao mesmo tempo, entre tantas referências, o Faith No More ocupa um lugar especial nessa história.

Uma das primeiras bandas a misturar com sucesso elementos aparentemente incompatíveis, o quinteto californiano nunca pareceu muito interessado em seguir regras. Heavy metal, funk, punk, rock alternativo, pop e experimentalismo conviviam no mesmo espaço. Nos anos 1990, o Faith No More era uma banda difícil de encaixar em qualquer prateleira e, justamente por isso, acabou se tornando uma das referências para uma nova geração de grupos que também não queria escolher apenas um caminho.

Não nos culpe por isso”, disse Billy Gould ao Rock On Board quando questionado se Angel Dust realmente teria influenciado o surgimento das bandas nu-metal.


O comentário do baixista resume bem uma história que o próprio Faith No More ajudou a construir. Álbuns como Angel Dust (1992), King for a Day... Fool for a Lifetime (1995) e Album of the Year (1997), que em seu lançamento pareciam estranhos demais para o grande mercado, acabaram se tornando, de alguma maneira, uma porta de entrada para uma geração de músicos disposta a misturar referências e desafiar os limites do rock pesado. E lá estava o System of a Down.

É difícil dissociar algumas das experiências sonoras do Faith No More daquilo que o System desenvolveria posteriormente. Canções como “The Gentle Art of Making Enemies”, “Naked in Front of the Computer”, “Got That Feeling” e “Mouth to Mouth” mostram diferentes facetas da banda de Mike Patton que ajudam a entender por que o grupo se tornou tão importante para músicos como Serj Tankian.

O próprio vocalista do System of a Down nunca escondeu essa admiração. Em uma entrevista de 2015, Tankian reconheceu a importância do Faith No More para ele e para os outros integrantes do System of a Down.

O Faith No More foi muito importante para mim e para os outros caras do System. Aprendemos muito também em turnê com o Patton, quando abrimos os shows do Mr. Bungle. É uma experiência única.

A relação com Mike Patton, portanto, vai além da influência de discos. Serj Tankian teve contato direto com o universo artístico do vocalista do Faith No More ainda no início da trajetória do System of a Down, quando a banda dividiu a estrada com o Mr. Bungle, outro projeto de Patton.

"Angel Dust" mudou a forma de Serj ouvir rock

Serj Tankian já apontou Angel Dust como um dos discos que mais o impactaram durante sua formação musical. O álbum de 1992 representava justamente aquilo que o System de alguma forma faria posteriormente: pegar elementos de lugares completamente diferentes e transformá-los em algo difícil de classificar.

Tankian também sempre demonstrou admiração pela maneira como Mike Patton utiliza a voz. Em 2012, durante sua participação no programa What's in My Bag?, da loja de discos Amoeba, Serj escolheu Mondo Cane, projeto em que Patton interpreta clássicos da música italiana, entre os discos que apresentou. Dez anos depois, em entrevista à Revolver, Tankian voltou a falar sobre o vocalista do Faith No More:

“Conheci Patton no primeiro disco dele com o Faith No More. Ele é um ótimo cantor. Mas ele não se considera um cantor. Ele se considera um instrumentista com a voz. E isso é o que sempre amei no Patton. Porque ele vê além do papel de um simples cantor. Embora ele também seja um grande cantor. Isso é o que sempre foi incrível nele.”

A declaração ajuda a explicar uma das conexões mais interessantes entre os dois grupos. Tanto Patton quanto Tankian transformaram a voz em um instrumento capaz de mudar completamente de personalidade dentro de uma mesma música. Gritos, melodias, falas, sussurros, humor e experimentações fazem parte da identidade dos dois vocalistas.

Uma influência que atravessou gerações

O System of a Down não é, obviamente, uma banda construída apenas a partir do Faith No More. Suas influências passam pelo metal, punk, progressivo, música alternativa e, principalmente, pelas raízes armênias de seus integrantes. Mas o Faith No More ajudou a mostrar que uma banda pesada não precisava escolher apenas um caminho.

Tratado como o "pai do nu-metal", o Faith No More abriu portas para uma geração que queria misturar peso e experimentação. E foi a principal referência para nomes como Korn, Deftones, Incubus e, claro, o System Of A Down.

Muito mais do que reunir dois grandes nomes do rock, o show no Maracanã é a oportunidade de ver pai e filho, pela primeira vez, no mesmo palco.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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