Desastre: 19 anos depois, “Procurando Saída” continua sem pedir licença

Foto: @cycoself - Divulgação

Formado em Goiânia em 1996, o Desastre é daqueles nomes que fazem a gente se perguntar como uma banda tão boa conseguiu passar tanto tempo longe dos holofotes do Sudeste. Com inúmeras mudanças de formação ao longo da carreira, diversos trabalhos lançados e até distribuição na Europa, o grupo construiu uma trajetória consistente dentro do punk hardcore brasileiro. Ainda assim, para muita gente em São Paulo – eu incluído – o Desastre permanece uma descoberta tardia.

E que descoberta.

Lançado originalmente em 2007, “Procurando Saída” acaba de ganhar sua primeira edição em vinil, quase duas décadas depois de chegar ao público. O projeto nasceu da reunião de 20 selos independentes e resultou numa edição que merece atenção também pelo cuidado gráfico: prensado pela Polyson em vinil verde de 180 gramas, capa gatefold, reprodução da arte original do CD, fotos da mesma sessão realizada na época, encarte com as letras em papel couchê e várias imagens da banda em ação. São apenas 300 cópias.

A capa também merece atenção. O cenário subterrâneo, tomado por tubulações, sujeira e enormes ratos, coloca o personagem diante de um labirinto que parece não ter fim. Há apenas um pequeno ponto de luz ao fundo, enquanto a figura humana, minúscula diante daquela estrutura, parece procurar justamente aquilo que dá nome ao disco: uma saída. É uma imagem que combina perfeitamente com as letras de “Procurando Saída”, em que medo, opressão, violência, exploração e desesperança aparecem o tempo inteiro. Não é apenas uma ilustração bonita ou agressiva: a capa traduz visualmente o universo do álbum.


]Há, entretanto, uma diferença importante em relação ao CD original. Três músicas ficaram de fora desta edição. “
À Palo Seco”, versão do clássico de Belchior, não foi autorizada pela família do compositor, que, segundo informação publicada no próprio encarte, considerou que a versão “descaracteriza a canção original”. Já “Poema de Amor” e “Nos Campos de Extermínio” foram retiradas por uma questão física: o espaço disponível no vinil é menor que o do CD.

Mas vamos ao que realmente interessa: a música.

“Procurando Saída” começa pela faixa-título e não deixa qualquer dúvida sobre o que vem pela frente. “Procurando Saída” é hardcore violento, com bateria firme, guitarras cortantes e vocais furiosos. “Estou lutando para fugir / dos lobos que querem me destruir / estou tentando escapar / estou sangrando mas tenho forças pra tentar”. Não há introdução, preparação ou pedido de licença. O Desastre simplesmente entra arrebentando.

A Morte Sopre Suas Velas” segue pela mesma cartilha: urgência, peso e uma sonoridade que, quase vinte anos depois da gravação, não transmite a menor sensação de coisa velha. “Vá em Frente” mantém a pancadaria e apresenta uma letra punk em sua essência: “Outro dia, outra luta / não há tempo pra chorar / sua luta é contra o tempo / nunca é tarde pra tentar”. É o tipo de mensagem direta que o punk sabe fazer como poucos.


O som também deixa claro que estamos diante de uma banda afiada. Peso, visceralidade, solos cortantes e vocais urrados aparecem em sequência. Em “Bomba Relógio”, são apenas 2:22 de porrada sonora, com uma letra que descreve pessoas caminhando pela cidade em desespero, vivendo como verdadeiras bombas-relógio. E os solos de Hassan voltam a chamar atenção.

Para quem ainda repete aquela velha bobagem de que punk não sabe tocar, aqui está um bom exemplo do contrário. Hassan sabe tocar – e muito. Seus solos são agressivos, cortantes e, principalmente, bem colocados. A técnica não transforma o Desastre em uma banda exibicionista; ela está a serviço da violência das músicas.

Foto: Divulgação

O Preço” vem na sequência com mais urgência e dedo na ferida: “Você se fudeu / tentando sempre levar a melhor / você se destruiu / vivendo cada dia pior”. Hassan novamente aparece em destaque, mostrando que seus solos são parte importante da identidade sonora da banda.

Me Diga Que a Morte Seja Apenas Ilusão” amplia o cenário de destruição com imagens de nuvens atômicas, fumaça, poeira, sonhos destruídos e um paraíso que arde em pólvora. O pedido que dá nome à faixa funciona quase como uma súplica: que a morte seja apenas uma ilusão. O Lado A chega ao fim com “Porcos Sujos”, outro punk rock que mostra uma banda segura, afiada e plenamente consciente do que está fazendo.

E há uma constatação inevitável: esse disco foi gravado há 19 anos. E eu só o descobri agora.

O Lado B começa com “A Ordem é o Caos”, a faixa mais longa do álbum, com 5:02. E é aqui que fica ainda mais evidente que o Desastre não deve ser reduzido à etiqueta de punk hardcore. Há uma forte pegada crossover, especialmente nas guitarras cortantes de Hassan, capazes de agradar em cheio aos apreciadores de heavy e thrash metal. Não por acaso, a camiseta do Motörhead que ele veste na foto da contracapa parece dizer alguma coisa sobre essas influências.

Feito Caça” retoma a sensação de estar encurralado: “te colocaram contra a parede / te perseguem feito caça / sua vida vazia não tem nenhuma graça / compram sua vida / te pagam com migalhas”. O som não amacia nada. É porrada do início ao fim.

Foto: @cycoself - Divulgação

Mundo de Dor”, com apenas 1:31, é a faixa mais curta do álbum e também uma das mais diretas. Hardcore sem frescuras, condensado em pouco mais de um minuto, acompanhando uma letra sobre vazio, desencanto e a sensação de não encontrar nada de bom na vida.

Em “O Inferno Não É um Lugar Ruim”, o Desastre transforma a própria ideia de inferno em metáfora para o mundo real. Falam de ilusões, de promessas de bondade e de um mundo em que cada um parece estar por conta própria. “Vivendo em um mundo tão fudido assim / talvez o inferno não seja um lugar ruim”. O grito é bastante claro: talvez o inferno não seja um lugar depois da morte. Talvez seja aqui mesmo.

Revólver” coloca o álbum na reta final mantendo a mesma fórmula: “Sem motivos pra sorrir / sem caminhos pra seguir / um revólver engatilhado / a morte anda ao meu lado”. É uma faixa linear, como boa parte do disco. E isso não é necessariamente uma crítica. O Desastre não tenta inventar uma personalidade diferente a cada música. Eles são uma banda punk hardcore e entregam punk hardcore durante todo o trabalho.

E é justamente essa coerência que faz “Procurando Saída” funcionar tão bem quase duas décadas depois. A banda sabe o que quer fazer e não abandona essa identidade.

Parte do Jogo” encerra o disco retomando as trevas, o vazio e a falta de caminhos seguros: “não existe futuro ou caminho seguro / porque sua vida não pertence a você / você é parte do jogo”. Uma conclusão coerente para um álbum inteiro construído sobre a sensação de estar preso, perseguido e tentando encontrar uma saída.



Só que há uma ironia bonita nisso tudo.

O Desastre passou por inúmeras formações, gravou muitos trabalhos e chegou a ter distribuição na Europa, mas nunca conseguiu “pegar” no Sudeste brasileiro como poderia. O grupo de Goiânia permaneceu, para muita gente, distante demais do radar.

“Procurando Saída”, porém, acaba de ganhar uma nova chance.

E a melhor coisa que posso dizer depois de ouvir esse disco pela primeira vez quase 20 anos depois de sua gravação é simples: ele não envelheceu.

Continua pesado. Continua urgente. Continua visceral. Continua punk.

E continua atual.

Talvez o mais curioso seja justamente eu ter demorado tanto para descobrir.

Nunca é tarde. O Desastre tem cacife para isso.

Foto: Divulgação


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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