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| Foto: @cycoself - Divulgação |
Formado
em Goiânia em 1996, o Desastre é
daqueles nomes que fazem a gente se perguntar como uma banda tão boa conseguiu
passar tanto tempo longe dos holofotes do Sudeste. Com inúmeras mudanças de
formação ao longo da carreira, diversos trabalhos lançados e até distribuição
na Europa, o grupo construiu uma trajetória consistente dentro do punk hardcore
brasileiro. Ainda assim, para muita gente em São Paulo – eu incluído – o Desastre
permanece uma descoberta tardia.
E
que descoberta.
Lançado
originalmente em 2007, “Procurando Saída” acaba de ganhar sua primeira edição
em vinil, quase duas décadas depois de chegar ao público. O projeto nasceu da
reunião de 20 selos independentes e resultou numa edição que merece atenção
também pelo cuidado gráfico: prensado pela Polyson em vinil verde de 180
gramas, capa gatefold, reprodução da arte original do CD, fotos da mesma sessão
realizada na época, encarte com as letras em papel couchê e várias imagens da
banda em ação. São apenas 300 cópias.
A
capa também merece atenção. O cenário subterrâneo, tomado por tubulações,
sujeira e enormes ratos, coloca o personagem diante de um labirinto que parece
não ter fim. Há apenas um pequeno ponto de luz ao fundo, enquanto a figura
humana, minúscula diante daquela estrutura, parece procurar justamente aquilo
que dá nome ao disco: uma saída. É uma imagem que combina perfeitamente com as
letras de “Procurando Saída”, em que medo, opressão, violência, exploração e
desesperança aparecem o tempo inteiro. Não é apenas uma ilustração bonita ou
agressiva: a capa traduz visualmente o universo do álbum.
Mas
vamos ao que realmente interessa: a música.
“Procurando
Saída” começa pela faixa-título e não deixa qualquer dúvida sobre o que vem
pela frente. “Procurando Saída” é hardcore violento, com bateria firme,
guitarras cortantes e vocais furiosos. “Estou
lutando para fugir / dos lobos que querem me destruir / estou tentando escapar
/ estou sangrando mas tenho forças pra tentar”. Não há introdução,
preparação ou pedido de licença. O Desastre simplesmente entra arrebentando.
“A Morte Sopre Suas Velas” segue pela
mesma cartilha: urgência, peso e uma sonoridade que, quase vinte anos depois da
gravação, não transmite a menor sensação de coisa velha. “Vá em Frente” mantém a pancadaria e apresenta uma letra punk em sua
essência: “Outro dia, outra luta / não há
tempo pra chorar / sua luta é contra o tempo / nunca é tarde pra tentar”. É
o tipo de mensagem direta que o punk sabe fazer como poucos.
O som também deixa claro que estamos diante de uma banda afiada. Peso, visceralidade, solos cortantes e vocais urrados aparecem em sequência. Em “Bomba Relógio”, são apenas 2:22 de porrada sonora, com uma letra que descreve pessoas caminhando pela cidade em desespero, vivendo como verdadeiras bombas-relógio. E os solos de Hassan voltam a chamar atenção.
Para
quem ainda repete aquela velha bobagem de que punk não sabe tocar, aqui está um
bom exemplo do contrário. Hassan sabe
tocar – e muito. Seus solos são agressivos, cortantes e, principalmente, bem
colocados. A técnica não transforma o Desastre em uma banda exibicionista; ela
está a serviço da violência das músicas.
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| Foto: Divulgação |
“O Preço” vem na sequência com mais
urgência e dedo na ferida: “Você se fudeu
/ tentando sempre levar a melhor / você se destruiu / vivendo cada dia pior”.
Hassan novamente aparece em destaque, mostrando que seus solos são parte
importante da identidade sonora da banda.
“Me Diga Que a Morte Seja Apenas Ilusão”
amplia o cenário de destruição com imagens de nuvens atômicas, fumaça, poeira,
sonhos destruídos e um paraíso que arde em pólvora. O pedido que dá nome à
faixa funciona quase como uma súplica: que a morte seja apenas uma ilusão. O
Lado A chega ao fim com “Porcos Sujos”,
outro punk rock que mostra uma banda segura, afiada e plenamente consciente do
que está fazendo.
E
há uma constatação inevitável: esse disco foi gravado há 19 anos. E eu só o
descobri agora.
O
Lado B começa com “A Ordem é o Caos”,
a faixa mais longa do álbum, com 5:02. E é aqui que fica ainda mais evidente
que o Desastre não deve ser reduzido à etiqueta de punk hardcore. Há uma forte
pegada crossover, especialmente nas guitarras cortantes de Hassan, capazes de
agradar em cheio aos apreciadores de heavy e thrash metal. Não por acaso, a
camiseta do Motörhead que ele veste
na foto da contracapa parece dizer alguma coisa sobre essas influências.
“Feito Caça” retoma a sensação de estar
encurralado: “te colocaram contra a
parede / te perseguem feito caça / sua vida vazia não tem nenhuma graça /
compram sua vida / te pagam com migalhas”. O som não amacia nada. É porrada
do início ao fim.
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| Foto: @cycoself - Divulgação |
“Mundo de Dor”, com apenas 1:31, é a faixa mais curta do álbum e também uma das mais diretas. Hardcore sem frescuras, condensado em pouco mais de um minuto, acompanhando uma letra sobre vazio, desencanto e a sensação de não encontrar nada de bom na vida.
Em
“O Inferno Não É um Lugar Ruim”, o
Desastre transforma a própria ideia de inferno em metáfora para o mundo real.
Falam de ilusões, de promessas de bondade e de um mundo em que cada um parece
estar por conta própria. “Vivendo em um
mundo tão fudido assim / talvez o inferno não seja um lugar ruim”. O grito
é bastante claro: talvez o inferno não seja um lugar depois da morte. Talvez
seja aqui mesmo.
“Revólver” coloca o álbum na reta final
mantendo a mesma fórmula: “Sem motivos
pra sorrir / sem caminhos pra seguir / um revólver engatilhado / a morte anda
ao meu lado”. É uma faixa linear, como boa parte do disco. E isso não é
necessariamente uma crítica. O Desastre não tenta inventar uma personalidade
diferente a cada música. Eles são uma banda punk hardcore e entregam punk
hardcore durante todo o trabalho.
E é
justamente essa coerência que faz “Procurando Saída” funcionar tão bem quase
duas décadas depois. A banda sabe o que quer fazer e não abandona essa
identidade.
“Parte do Jogo” encerra o disco retomando
as trevas, o vazio e a falta de caminhos seguros: “não existe futuro ou caminho seguro / porque sua vida não pertence a
você / você é parte do jogo”. Uma conclusão coerente para um álbum inteiro
construído sobre a sensação de estar preso, perseguido e tentando encontrar uma
saída.
Só
que há uma ironia bonita nisso tudo.
O
Desastre passou por inúmeras formações, gravou muitos trabalhos e chegou a ter
distribuição na Europa, mas nunca conseguiu “pegar” no Sudeste brasileiro como
poderia. O grupo de Goiânia permaneceu, para muita gente, distante demais do
radar.
“Procurando
Saída”, porém, acaba de ganhar uma nova chance.
E a
melhor coisa que posso dizer depois de ouvir esse disco pela primeira vez quase
20 anos depois de sua gravação é simples: ele não envelheceu.
Continua
pesado. Continua urgente. Continua visceral. Continua punk.
E
continua atual.
Talvez
o mais curioso seja justamente eu ter demorado tanto para descobrir.
Nunca
é tarde. O Desastre tem cacife para isso.
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Desastre





