Ação Direta & Japanische Kampfhörspiele: dois lados, uma única cacetada

Ação Direta - Foto: Adonis Guerra

Hardcore sem fronteiras

De um lado, São Bernardo do Campo. Do outro, a Alemanha. No meio, duas bandas que há décadas entenderam que punk, hardcore e grindcore não precisam de passaporte para atravessar fronteiras.

O Ação Direta, formado em 1987, e o Japanische Kampfhörspiele, na ativa desde 1998, juntam forças neste split lançado simultaneamente no Brasil e na Europa em CD, LP e K7, através de um coletivo formado por 19 selos independentes.

Um lado traz seis faixas. O outro, 19. As abordagens são diferentes, mas a disposição para fazer barulho é exatamente a mesma.

Dois lados, uma única cacetada.



AÇÃO DIRETA: SEIS PETARDOS E NENHUM MOMENTO DE TRÉGUA – Lado AÇÃO

Existem bandas que fazem parte da história de uma cena. E existem aquelas que, mesmo depois de décadas, continuam ajudando a mantê-la viva.

Formado em 1987 no ABC paulista, o Ação Direta é uma dessas instituições do punk hardcore brasileiro. A banda construiu uma trajetória marcada pelo peso, pela independência e, principalmente, por uma postura política que nunca precisou ser disfarçada. À frente de tudo, o incansável Paulo Gepeto é daqueles personagens que parecem pertencer a todos os lugares onde o underground acontece: uma figura querida, respeitada e permanentemente envolvida com a música barulhenta e com as questões sociais que sempre estiveram no DNA do grupo.

O EP Jaka, lançado originalmente nas plataformas digitais, aparece agora neste split ocupando o lado brasileiro.

Ciclo de Estagnação” abre sem pedir licença. Gepeto, na voz, Denis, na guitarra, e o rolo compressor formado pelo baixo de Galo e pela bateria de Edu Nicolini não deixam pedra sobre pedra. É aquele hardcore cru, pesado e urgente que a banda conhece como poucos.

O disco segue com “O Poder do Silêncio”, faixa mais longa e também mais cadenciada. Mas não confunda cadência com calmaria: a bateria de Edu mantém a música mergulhada em um clima de insanidade, enquanto Denis parece se divertir ainda mais com sua serra elétrica – digo, guitarra.


E há uma ironia deliciosa aqui. A letra afirma que “Silêncio é respeito / Silêncio é equilíbrio / Silêncio é sua decisão”. Só esqueceram de avisar isso para a banda, porque silêncio é justamente tudo o que não existe nessa música. rs

Seres em Processo” vem logo depois como mais um petardo. Os riffs pesados de Denis fazem a cabeça se movimentar quase involuntariamente, enquanto cozinha e vocais mantêm aquela sensação de urgência que acompanha o Ação Direta desde sempre.

Autoconhecimento” muda um pouco o foco sem abandonar a pancada. A música trata do autoconhecimento como chave para a transformação e fala de equilíbrio emocional, trazendo uma letra mais reflexiva, quase filosófica. É uma característica interessante da banda: mesmo quando a música parece querer derrubar a parede do vizinho, existe sempre alguma coisa para pensar por trás do barulho.

Projeção” e “Implacável” encerram o lado brasileiro mantendo a rotação lá em cima.

Não há espaço para enfeite, gordura ou concessões. São seis faixas de hardcore cru, pesado e direto, executadas por uma banda que, quase quatro décadas depois de sua formação, continua sabendo exatamente onde quer chegar – e, principalmente, como fazer barulho suficiente para ser ouvida.

Ação Direta - Foto: Divulgação

JAPANISCHE KAMPFHÖRSPIELE: INSANIDADE EM ESTADO BRUTO – Lado JAKA

Formado em 1998, o Japanische Kampfhörspiele assume o segundo lado do split com nada menos que 19 faixas e uma proposta que não poderia ser mais direta: o mais puro grindcore, rápido, pesado, agressivo e absolutamente sem tempo a perder.

Intro” abre o lado alemão de maneira quase enganosa. Durante alguns instantes, parece que vem alguma coisa diferente por aí. Mas basta chegar “Brutal Truth” para a máscara cair. A partir daí é insanidade em estado bruto.

Peso, gritos e velocidade estão por todos os lados, mas nada soa desorganizado. Pelo contrário. Baixo, guitarras e bateria formam a cama sonora perfeita para os vocais gritados, deixando claro que existe muito mais técnica por trás dessa avalanche do que pode parecer em uma primeira audição.


Tesla Brennt”, “6Uhr66” e “Geistig behindert aufgewacht” são bons exemplos da filosofia do lado alemão: dizer tudo rapidamente e sair correndo. São verdadeiros tiros de grindcore, alguns recados resolvidos em menos de um minuto.

Não há espaço para introduções, desenvolvimento, refrão ou despedida. A música chega, destrói tudo e desaparece.

Gesellschaft auf” é a faixa mais “diferentona” do conjunto – e a diferença está praticamente toda nos seus 4:25 de duração. A cacetada permanece intacta, mas alguns solos enxertados no meio dão uma respirada diferente à estrutura. É quase uma longa-metragem quando comparada ao restante do repertório.

Depois dela, uma nova sequência de vinhetas e pancadas curtíssimas, variando de pouco mais de dez segundos a pouco mais de dois minutos, mantém o lado alemão em permanente estado de urgência.

E quando parece que ainda poderia haver mais alguma coisa, vem “Reflexion”.

Quatorze segundos.

Uma última cacetada na cabeça e acabou.

Japanische Kampfhörspiele - Foto: Divulgação

SEM FRONTEIRAS

O interessante deste split é justamente perceber que, embora Ação Direta e Japanische Kampfhörspiele venham de escolas diferentes, existe uma conexão evidente entre os dois trabalhos.

O Ação Direta trabalha com o hardcore de maneira crua, política e direta. O Japanische Kampfhörspiele leva essa urgência ao extremo através do grindcore. Um aposta em seis pancadas mais desenvolvidas; o outro dispara 19 tiros curtos, alguns praticamente instantâneos.

Mas os dois entendem que peso não significa simplesmente volume. Existe precisão, existe intenção e existe, sobretudo, a necessidade de continuar dizendo alguma coisa através do barulho.

E talvez seja justamente isso que torna este split tão interessante.

Em uma época em que tantas bandas parecem preocupadas em parecer alguma coisa, duas formações veteranas simplesmente fazem aquilo que sabem fazer.

Sem frescura, sem concessões e sem fronteiras.

Dois lados, 25 faixas e uma única certeza: depois dessa cacetada, silêncio é tudo o que você não vai encontrar aqui.

Japanische Kampfhörspiele - Foto: Divulgação


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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