Roberta Medina reacende o debate "Pop x Rock" no Rock in Rio. Mas ela tem razão?

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

"Os roqueiros reclamam que não tem rock, mas quem esgota primeiro é o pop."

A frase dita por Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio, em entrevista ao g1, viralizou nas redes sociais e reacendeu um debate que acompanha o festival há muitos anos. No entanto, há pontos em questão, que valem o debate.

É inegável que o fã de rock costuma ser muito mais "corneta" do que qualquer outro público que consome festivais no Brasil. Basta um anúncio de line-up para as redes sociais serem tomadas por comentários criticando as escalações. Seja ela de qualquer festival. No caso do Rock in Rio, o caso é mais emblemático, pois é o único festival - talvez do mundo - que reúne nomes como Katy Perry e Slipknot no mesmo line up. E isso, claro, não escapa da mira dos roqueiros, que esperam cada edição para carimbar as mesmas frases nas redes sociais: "virou Pop in Rio?", "cadê o rock?" ou "esse festival perdeu a identidade".

Enquanto isso, o fã de pop normalmente reage de outra maneira. Se o artista favorito não está na programação, simplesmente não compra ingresso ou escolhe outro dia do festival. Há menos discussão sobre a essência do evento e mais interesse em viver a experiência de assistir aos artistas que gosta.

Nesse ponto, Roberta Medina faz uma leitura correta do ela encontra nas redes sociais.


O pop esgota primeiro os ingresso? Nem sempre.

Mas ao correlacionar o interesse dos roqueiros à urgência da corrida pelos ingressos, a Vice-presidente do festival abre espaço para um questionamento histórico. 

Isso porque, números mostram que houve um tempo em que eram justamente os fãs de rock que corriam primeiro para garantir seus ingressos. Em 2011, o chamado "Dia do Metal", liderado por Metallica, Slipknot e Motörhead, foi o primeiro a esgotar daquela edição. As entradas desapareceram em menos de 40 horas.

Em 2013, quem liderou a corrida foi Bon Jovi. Os ingressos para o dia 20 de setembro acabaram em aproximadamente uma hora e quarenta minutos.

Já em 2019, o exemplo talvez mais emblemático dos últimos anos: o dia comandado pelo Iron Maiden foi o primeiro sold out do festival. Em menos de três horas, não havia mais ingressos disponíveis. Esse dia também marcava o retorno do "Dia do Metal", que tinha ficado de fora da edição anterior (2017), o que ocasionou, evidentemente, muitas críticas à curadoria.

E aí chegamos a outro ponto levantado por Roberta Medina, e que também foi confirmado por Zé Ricardo, em entrevista exclusiva ao Rock On Board, que merece ainda mais atenção.

Onde estão os headliners?

Foto: Adriana Vieira / Rock On Board

Na mesma entrevista, Roberta Medina reconhece que hoje existem poucos artistas de rock capazes de atender às necessidades de um festival do tamanho do Rock in Rio e que a disponibilidade das agendas contribuem muito para a conta não fechar. Além disso, há também o entendimento das bandas e suas produtoras, de que hoje, não é mais tão vantajoso vir ao Brasil para tocar no festival, visto que uma turnê de estádios, possa ser mais lucrativa e mais fácil de encaixar datas.

Basta ver as recentes e concorridas turnês de Linkin Park, Guns N'Roses, System Of A Down, Oasis e AC/DC por estádios no Brasil. Ano que vem ainda teremos Rush.


Quando o assunto é headliner padrão Rock in Rio, a lista continua girando em torno de nomes como Iron Maiden, Metallica, Guns N' Roses, Foo Fighters, Bon Jovi, System Of A Down, Slipknot, Red Hot Chili Peppers e poucos outros. Atualmente, o Avenged Sevenfold foi promovido à lista, e já repete a presença no festival pela terceira vez (duas como headliner em sequência). E o caso do Avenged é um ótimo exemplo para mostrar o quão esgotadas estão as opções e suas disponibilidade de agendas. A banda esteve por aqui no ano passado, e no ano retrasado ela estava no... Rock in Rio!

Isso talvez não seja culpa da produção, ou de um simples gosto musical da curadoria. O mercado do showbusiness vive uma realidade pós-pandemia onde os artistas e a própria plataforma não apenas inflaram suas agendas, como também trabalham com gastos altíssimos para turnês gigantescas. Essa teoria ficou evidenciada no tal suposto esforço de meses da produção do Rock in Rio em tentar trazer o Pearl Jam para a edição deste ano, que de acordo com Ed Kowalczyk, vocalista do Live, teria aberto mais um dia de rock no Rock in Rio 2026. O Pearl Jam não veio. Mas Eddie Vedder vai tocar sozinho como headliner em outro festival no Brasil, em novembro. No final, é só ver onde a conta fecha.

 
O debate é outro!

O problema nunca foi o pop ocupar espaço no festival. O Rock in Rio sempre misturou gêneros. Desde 1985, o festival recebeu artistas de rock, pop, MPB, jazz e música eletrônica. A diversidade faz parte da sua essência.

A questão é outra. Existe hoje uma dificuldade real de reunir tantos medalhões num mesmo festival, onde todas as agendas estejam compactuadas para uma visita à América do Sul. Somado a isso, há também uma resistência na renovação de grandes headliners rock, que consigam agregar valor comercial e popular na mesma proporção a um festival como o Rock in Rio. 

A provocação levantada por Roberta Medina abre muito mais espaço para questionamentos sobre a indústria musical x produtoras x mobilização popular do que o simples, raso e ultrapassado debate sobre "Pop x Rock".
 

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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