Ippon: em Psicatriz, quatro músicos, duas guitarras e nenhuma vaidade

Foto: Carlos Bessa

Existem discos instrumentais que parecem feitos para músicos. Outros, para colecionadores de equipamentos. Alguns soam como uma competição para descobrir quem toca mais, mais rápido ou com maior técnica. "Psicatriz", álbum de estreia da Ippon, felizmente não pertence a nenhuma dessas categorias.

Quem conhece Rainer Tankred Pappon certamente o associa à The Central Scrutinizer Band, grupo que há décadas interpreta a obra de Frank Zappa e que recebeu do próprio mestre o reconhecimento de ser o melhor tributo à sua música no mundo. Não é pouca coisa. Mas quem espera encontrar em "Psicatriz" uma continuação daquele universo, está olhando para o lugar errado.

A Ippon é formada atualmente por Rainer Tankred Pappon e Caio Fabbri nas guitarras, Renato Muniz no baixo e Carlos Camasi na bateria. No entanto, durante as gravações de "Psicatriz", todas as guitarras foram registradas pelo próprio Rainer. Um detalhe curioso, porque ao longo do disco a sensação é justamente a de ouvir dois guitarristas dialogando o tempo todo.

A banda se define como praticante de rock instrumental e new surf, classificação que explica apenas parte da proposta. A surf music está presente, mas funciona muito mais como ponto de partida do que como destino. Thin Lizzy, Killing Joke, King Crimson e, inevitavelmente, Frank Zappa aparecem como influências assumidas, mas jamais transformam o álbum em uma colagem de referências.

Conheço o Rainer há muitos anos. Já nos encontramos, por acaso, na pista durante um show do New Model Army, daqueles encontros que só acontecem entre pessoas movidas pela mesma paixão pela música. Talvez por isso não me surpreenda vê-lo liderando um projeto autoral que, embora distante do repertório de Zappa, preserva a mesma inquietação artística.

A abertura com “Ippon” deixa claro que a banda não pretende seguir fórmulas. “Dark Surf” e “Fat Lizzy” reforçam essa impressão com guitarras limpas, potentes e cuidadosamente construídas. O baixo e a bateria sustentam um andamento acelerado, mas sem atropelar as melodias. Não é música contemplativa. É um som orgânico, pulsante, que aproxima a surf music do rock progressivo e do pós-punk.

Sansa Se Mandou” traz uma estética mais oitentista. A bateria abre caminho para um riff seco enquanto as guitarras alternam momentos de tensão e alívio em solos que se entrelaçam naturalmente. É também nesse ponto que o álbum começa a revelar uma de suas maiores virtudes: embora inteiramente instrumental, jamais se torna enfadonho.

Em “Gata Preta”, um riff inicial remete por alguns segundos ao clássico “Peter Gunn Theme”, de Henri Mancini. A referência, porém, logo desaparece. A música encontra personalidade própria através de um permanente diálogo entre riffs marcantes e solos cortantes. Até ali, talvez seja a faixa mais surpreendente do disco.

Na sequência, “Gralhas Malditas” desloca o protagonismo para Renato Muniz. O baixo conduz a narrativa enquanto Carlos Camasi mantém a pulsação firme. Mesmo quando as guitarras mergulham em solos e efeitos que parecem flutuar sobre a base, é a cozinha que dita o rumo da composição.

A faixa-título, “Psicatriz”, chega quase como um manifesto. A bateria inicia com uma marcação de caráter quase marcial, mas logo se expande, explorando todo o kit enquanto as guitarras embarcam numa verdadeira viagem instrumental. É uma composição que confirma a maturidade da banda e sua capacidade de criar atmosferas sem recorrer a uma única palavra.

Arte da Capa: Flavio Tsutsumi

Já na reta final, “Foram Embora” desacelera o andamento sem perder intensidade. Uma guitarra soa como uma sirene distante enquanto a outra desenvolve um solo carregado de emoção. Baixo e bateria permanecem discretos, mas absolutamente essenciais para manter o equilíbrio da composição.

O encerramento com “Geladeira Vazia” talvez revele o verdadeiro espírito da Ippon. A sensação é a de assistir a quatro amigos reunidos simplesmente para tocar. Não existe disputa por protagonismo. Não há preocupação em provar quem é o melhor instrumentista. Cada músico encontra naturalmente seu espaço, deixando que as canções falem mais alto do que qualquer demonstração de habilidade.

Depois de ouvir o álbum inteiro, comentei com o Rainer justamente sobre o diálogo entre as guitarras. Foi quando veio uma revelação curiosa: todas as linhas de guitarra do disco foram gravadas por ele. Mais interessante ainda foi sua explicação: “Não é pra ter competição entre as guitarras, são dois pilares duetando o tempo todo.”

Confesso que gostei de saber disso somente depois de terminar a audição. Porque foi exatamente essa a impressão que tive durante todo o disco. Nunca ouvi uma guitarra tentando vencer a outra. Ouvi duas vozes conversando, construindo melodias em conjunto, como se fossem personagens diferentes dividindo a mesma história. Descobrir depois que ambas nasceram das mãos do mesmo músico apenas valorizou ainda mais o trabalho de composição e arranjo.

Esse é, justamente, o grande mérito de "Psicatriz".

Em um cenário em que muitos discos instrumentais confundem qualidade com exibicionismo, a Ippon segue pelo caminho oposto. A técnica está presente do começo ao fim, mas jamais se sobrepõe às composições. O quarteto prefere escrever boas músicas a transformar cada faixa em uma vitrine de virtuosismo.

Rainer Tankred Pappon passou décadas interpretando uma das obras mais complexas da história do rock. Poderia usar seu primeiro trabalho autoral para mostrar tudo o que aprendeu como guitarrista. Felizmente, fez exatamente o contrário.

Ao lado de Renato Muniz e Carlos Camasi - e hoje dividindo os palcos com Caio Fabbri - entregou um disco divertido, espontâneo, orgânico e cheio de personalidade. Um álbum que parte da surf music, dialoga com o rock progressivo e o pós-punk, mas termina soando apenas como… Ippon.

E esse talvez seja o maior elogio que "Psicatriz" poderia receber. Porque um disco instrumental que termina despertando imediatamente a vontade de voltar à primeira faixa não está tentando provar nada a ninguém.

Está apenas fazendo boa música. E isso, às vezes, é muito mais difícil.

Foto: Carlos Bessa


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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