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| Foto: History Music Fotografia / Divulgação |
Talvez
uma das coisas mais injustas que já fizeram com a música tenha sido decretar
sua morte enquanto tanta coisa boa seguia acontecendo longe demais dos
holofotes.
Esta
semana, assistindo uma entrevista recente de Valmir Lins no YouTube (veja aqui), fui
imediatamente transportado para meados dos anos 90. Na época, recém divorciado
do meu primeiro casamento, voltei a frequentar a noite paulistana e me tornei
habitué de um pizza-bar no Tatuapé chamado Tutti Pizza. Um daqueles lugares
onde músicos, boêmios, amigos e desconhecidos dividiam mesas, cervejas e
madrugadas sem perceber o tempo passar.
Foi
ali que conheci Valmir.
À
primeira vista, era “apenas” mais um músico da noite paulistana, desses capazes
de atravessar repertórios imensos indo de MPB a pop rock nacional e clássicos
internacionais. Mas bastavam alguns intervalos entre apresentações para
perceber que havia algo muito maior ali. Entre uma cerveja e outra, nossas
conversas avançavam madrugada adentro passando por política, literatura e
música — especialmente música. Descobri rapidamente alguém apaixonado por Frank
Zappa, Genesis da fase Peter Gabriel, Gentle Giant, MPB, jazz, rock progressivo
e canção latino-americana.
Embora
passasse a vida tocando na noite, Valmir jamais gostou da palavra “cover”.
Preferia chamar suas interpretações de versões, e com razão. Existia
personalidade demais em cada leitura para que aquilo fosse mera reprodução
automática. Durante anos assisti pequenas plateias no Tatuapé serem
atravessadas por interpretações carregadas de emoção, especialmente sua versão
de "Volver a los 17", de Violeta Parra, eternizada na voz de Mercedes Sosa. Era impossível ouvir
aquilo sem perceber a entrega pessoal colocada em cada nota.
Em
1999, toda aquela inquietação artística finalmente ganhou forma no excelente
“Justa Medida”, disco autoral lançado de maneira totalmente independente. E
talvez seja justamente por isso que o álbum tenha envelhecido tão bem.
Enquanto
muita coisa super produzida daquela época envelheceu presa às próprias
tendências e modismos, “Justa Medida” permanece vivo porque nunca tentou soar
artificialmente contemporâneo. O disco transita naturalmente entre MPB, pop
rock, jazz e certas atmosferas progressivas, sustentado por letras maduras,
arranjos sofisticados e uma identidade muito própria. Violino, sax, trombone,
percussões e violões ajudam a construir um trabalho extremamente humano,
elegante e sincero.
Canções
como “Palhaços no Poder”, “Bebedeira sem Trégua” e “À Oeste da Imensidão”
revelam um compositor atento às contradições políticas, existenciais e
emocionais da vida urbana adulta, sem recorrer a clichês ou fórmulas fáceis.
Existe densidade ali, mas também musicalidade. Reflexão, mas sem perder
sensibilidade.
Talvez
o mais curioso seja perceber que “Justa Medida” continua praticamente
escondido. Em tempos de plataformas digitais abarrotadas de conteúdo
descartável, apenas três faixas sobrevivem dispersas no SoundCloud:
“Absolvição”, “Justa Medida” e “Palhaços no Poder” (clique aqui). É muito pouco para um
trabalho que merece ser ouvido integralmente.
E
talvez exista algo profundamente simbólico nisso tudo. Enquanto muita gente
insiste em repetir que “a música morreu”, obras sinceras seguem sobrevivendo
silenciosamente fora dos grandes algoritmos, dos rankings e das campanhas
milionárias de marketing. Talvez a boa música nunca tenha desaparecido. Talvez
apenas tenha permanecido escondida em pequenos discos independentes lançados
artesanalmente por artistas que jamais abriram mão da própria identidade.
Recentemente,
Valmir atravessou graves problemas de saúde, incluindo um infarto e uma
pneumonia que o deixaram em estado gravíssimo. Felizmente, se recuperou e
voltou à ativa. Continuamos nos falando com frequência, embora eu já não tenha
mais paciência para noites inteiras de versões — algo que a idade talvez faça
com muitos de nós. Ainda assim, revisitar “Justa Medida” me lembrou que, por
trás do intérprete da noite paulistana, sempre existiu um compositor muito
acima da média.
Enquanto
escrevo estas linhas, digitalizo meu velho exemplar de “Justa Medida”. Talvez
seja apenas um gesto entre amigos. Mas também me parece uma pequena tentativa
de impedir que um trabalho artisticamente tão honesto desapareça soterrado pelo
tempo.
Porque
alguns discos merecem continuar respirando.
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Valmir Lins



