Debaixo de chuva, Korn transforma o Allianz Parque num caos coletivo histórico

 
Depois de nove anos de espera, o retorno do Korn a São Paulo foi exatamente aquilo que os fãs esperavam — e talvez até mais. Apoteótico. Em uma noite tomada pelo caos, pela chuva e pela catarse coletiva no Allianz Parque, os veteranos do nu metal mostraram por que seguem sendo uma das bandas mais importantes e intensas surgidas nos anos 90.
Mesmo após mais de três décadas de carreira, impressiona como a abertura com “Blind” continua sendo absolutamente devastadora. O clássico inicia com a já tradicional pergunta “Are you ready?”, e segundos depois a cortina que cobre o palco cai junto com a explosão ensurdecedora do público. A resposta sempre esteve ali: sim, eles estavam prontos. Na verdade, nunca deixaram de estar.
O show seguiu como uma avalanche sonora. Nem mesmo a forte chuva que caiu a partir de “Coming Undone” foi capaz de diminuir a energia da apresentação. Houve até um pequeno deslize da banda durante parte da música, possivelmente causado pelo caos do momento, mas nada que abalasse a experiência. A naturalidade com que seguiram em frente mostrou o peso da experiência de músicos acostumados a transformar desordem em espetáculo.
No centro de tudo está Jonathan Davis, ainda dono de uma presença visceral rara no rock pesado. Sua entrega vocal continua intensa, angustiada e hipnótica como nos anos 90 — talvez até mais madura. É difícil apontar um único grande momento do show, porque praticamente toda música parece construída para esse ápice emocional. “Twist” e “Here to Stay”, logo no início do set, já deixavam isso evidente.
E há também espaço para a nostalgia mais pura: o momento em que Davis surge tocando sua icônica gaita de fole na introdução de “Shoots and Ladders” continua sendo uma das cenas mais marcantes que um fã do Korn pode presenciar ao vivo.
O repertório passeou por diferentes fases da carreira da banda sem perder intensidade. Até “Reward The Scar”, música recente gravada para o universo do game Diablo IV, apareceu com força surpreendente e foi recebida em coro por boa parte do estádio.
Nas guitarras, James ‘Munky’ Shaffer e Brian ‘Head’ Welch continuam produzindo uma muralha sonora única. As afinações graves e a textura característica da banda ecoavam por todo o Allianz Parque, deixando faixas como “Cold” e “Did My Time” ainda mais pesadas ao vivo do que em estúdio.
Ray Luzier foi um espetáculo à parte. Sua técnica adiciona ainda mais impacto às músicas, com viradas e levadas que ampliam o peso sem comprometer a essência das composições. “Somebody Someone” talvez tenha sido o melhor exemplo disso, elevando a música a um nível ainda mais agressivo e pulsante.
Substituindo Fieldy nesta turnê, Ra Díaz cumpriu seu papel com enorme competência. Em músicas como “Got the Life” e “Clown”, o baixista sustentou com precisão o groove característico do Korn sem deixar espaço para comparações desfavoráveis.
Depois de deixar o palco, o telão pergunta: “Querem mais?”. A resposta veio imediatamente em forma de gritos ensurdecedores. O bis começou com a sombria “4U”, seguida pela explosão de “Falling Away From Me”, executada de maneira ainda mais pesada e ameaçadora do que em turnês anteriores. “A.D.I.D.A.S.” arrancou as últimas forças vocais dos fãs mais antigos antes do encerramento definitivo com “Freak on a Leash”, transformando o Allianz Parque em um colapso coletivo.
Mais do que um simples show nostálgico, a apresentação do Korn em São Paulo foi a confirmação de que o legado da banda permanece vivo, forte e relevante. O que começou como um movimento contestado nos anos 90 hoje ocupa lugar definitivo na história da música pesada.
E depois de uma noite como essa, fica difícil imaginar que essa chama vá se apagar algum dia.
Vida longa ao Korn. Vida longa ao nu metal.

Rom Jom

Fotógrafo, jornalista, mochileiro, baixista, punk rocker e decano de roda de pogo. Pela Rock On Board cobriu vários festivais como Maximus e RIR além de entrevistas com Rival Sons, Linkin Park, Cypress Hill, Comeback Kid, Red Fang e muitas outras.

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