Shane Embury: de ogro malvado a um cara sensível

Foto: Stéphane Mahot / Hellfest - Divulgação

Existem artistas que transformamos em personagens dentro da nossa própria cabeça. Durante décadas, SHANE EMBURY foi um deles. Quem o vê no palco despejando barulho extremo com o NAPALM DEATH ou o BRUJERIA imagina imediatamente o ‘ogro malvado’: a figura enorme, peluda, agressiva, quase intimidadora. Eis que, durante o isolamento da pandemia de covid-19, Shane resolveu canalizar sua criatividade para uma direção completamente diferente. Assim nasceu “Bridge to Resolution”, seu primeiro álbum solo, com lançamento marcado para 05 de junho.

E com três singles lançados, notamos um cara totalmente diferente do imaginário criado em torno de sua figura: sensibilidade, introspecção e um trabalho bonito, que instiga a curiosidade de saber o que vem mais por aí.

Spasm Prayer” foi o primeiro single a ganhar as redes, no final de março. É uma faixa alucinada, vibrante e pesada, algo entre Killing Joke e The Prodigy, com uma pulsação quase industrial e dançante, repetição hipnótica, tensão eletrônica e muita energia.


Em meados de abril, “Taurus” ganhou o mundo e convence pela identidade pós-punk. Sobre ela, Shane explica:

A morte dos meus pais me afetou profundamente, como qualquer um poderia imaginar. Acredito que a morte do meu pai canalizou uma onda de criatividade musical dentro de mim, que às vezes parece implacável, enquanto ainda tento lidar com as consequências emocionais. Mas a morte da minha mãe realmente me derrubou e expôs muitos sentimentos enterrados e feridas escondidas… Me senti como um órfão, como se a vida tivesse mudado, e mesmo agora, alguns anos depois, ainda luto… Tendo uma família agora, preciso me esforçar diariamente para sentir, aprender, amar, crescer e ser forte por eles, assim como eles foram por mim.


Até que chegamos ao terceiro single, descoberto quase por acaso, e que me levou a procurar o restante do trabalho: a faixa-título “Bridge to Resolution”. A música carrega melancolia, ecos de bandas góticas e pós-punk — influências confessas de Shane — e não parece oportunismo barato. Soa sincera. Muito sincera.

Aqui, a música parece revelar a alma de todo o projeto, talvez por mostrar um Shane menos preocupado em construir impacto e mais interessado em expor sentimentos.


O disco será lançado no dia 06 de junho e contará com oito faixas. Acompanhando Embury no álbum está Carl Stokes (ex-Cancer, Groundhogs e Current 93) na bateria, enquanto a produção ficou a cargo de Simon Efemey, cujos créditos incluem trabalhos com Paradise Lost, Crowbar e Amorphis. Embury executa todas as partes de guitarra e baixo, com a música refletindo a explosão criativa surgida durante um período de luta pessoal e introspecção.

A ansiedade já bateu. Pelo que ouvi até aqui, vem aí um grande álbum — e talvez a maior surpresa seja descobrir que por trás do “ogro malvado” sempre existiu um artista profundamente sensível.



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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