![]() |
| Foto: Divulgação |
Os
Ratos de Porão vivem hoje uma de suas melhores fases. Depois de décadas de
excessos, mudanças de formação e toda a bagunça que costuma acompanhar uma
banda surgida no underground dos anos 1980, o grupo alcançou um nível de
profissionalismo invejável. Os shows seguem insanos, sempre lotados, executados
com uma precisão impressionante dentro da proposta extrema que carregam desde o
início. Em termos mundiais, não devem nada a ninguém.
Com
João Gordo nos vocais, Jão na guitarra, Juninho no baixo e Boka na bateria, os
Ratos encontraram sua formação mais estável e longeva. Mas a história de hoje
nos leva quarenta anos para trás, quando outra formação igualmente fundamental
ajudou a moldar o futuro da banda.
Em
1986, os Ratos de Porão lançavam seu segundo álbum de estúdio, “Descanse em
Paz”. Naquele momento, a banda era formada por João Gordo nos vocais, Jão na
guitarra, Jabá no baixo e Spaghetti na bateria. Era uma época de transformação
para um grupo que já havia deixado sua marca na história da música brasileira
com “Crucificados pelo Sistema” (1984), considerado por muitos o primeiro disco
de hardcore punk lançado no Brasil.
Antes
de chegar a “Descanse em Paz”, os Ratos passaram por mudanças de formação,
participaram de coletâneas importantes e registraram ao lado do Cólera o
histórico “Ao Vivo no Lira Paulistana”. Após um breve hiato, retornaram mais
fortes e encontraram uma nova casa para dar o próximo passo.
Essa casa era a lendária
Baratos Afins, comandada pelo visionário Luiz Carlos Calanca. Poucos personagens
tiveram papel tão importante para a música independente brasileira quanto ele.
Enquanto as grandes gravadoras ignoravam a cena subterrânea, Calanca apostava
justamente nela, registrando e distribuindo obras que se tornariam fundamentais
para a construção do rock pesado nacional.
“Descanse
em Paz” captura os Ratos em plena evolução. O hardcore continua presente,
rápido, agressivo e urgente, mas já divide espaço com riffs mais pesados e
influências claras do metal. O resultado é um álbum que soa como uma ponte
entre dois mundos. Sem pedir licença, a banda ajudava a apresentar ao público
brasileiro aquilo que mais tarde seria conhecido como crossover.
Canções
curtas e violentas convivem com uma sonoridade mais densa do que a encontrada
em “Crucificados pelo Sistema”. Ainda existe a crueza característica do punk,
mas também há um desejo evidente de expandir limites. O disco não possui a
produção refinada que a banda alcançaria anos depois, mas justamente aí reside
parte de seu encanto. Tudo soa urgente, espontâneo e perigoso, como se pudesse
desmoronar a qualquer instante.
Mais
do que um simples sucessor de “Crucificados”, “Descanse em Paz” funciona como
uma peça fundamental na construção da identidade dos Ratos de Porão. É nele que
a banda começa a apontar para o caminho que culminaria em obras essenciais como
“Cada Dia Mais Sujo e Agressivo” (1987), “Brasil” (1989) e “Anarkophobia”
(1991).
Talvez
seja por isso que o álbum continue tão relevante quatro décadas depois. Não
apenas como documento histórico, mas como uma obra viva. Os Ratos seguem
tocando o disco na íntegra para celebrar seu aniversário, provando que aquelas
músicas continuam carregando a mesma força, indignação e energia que possuíam
em 1986.
Se
hoje a banda ocupa um lugar de respeito absoluto dentro da cena mundial, muito
disso começou aqui. Em um disco lançado por uma gravadora independente, gravado
por quatro jovens da periferia paulistana que estavam ampliando os horizontes
do hardcore brasileiro e criando algo novo no processo.
Quarenta
anos depois, “Descanse em Paz” continua sendo um título irônico.
Porque a
música contida ali jamais descansou. E os Ratos de Porão também não.
Tags
Ratos de Porão



