Paul McCartney: o garoto de Liverpool ainda está aqui

Foto: Mary McCartney

Quando Paul McCartney anunciou “The Boys of Dungeon Lane”, explicou que pretendia revisitar suas raízes. O título faz referência a uma rua de Liverpool próxima de onde passou a infância, muito antes de o mundo conhecer os Beatles, muito antes dos estádios lotados, dos discos históricos e da transformação daquele garoto num dos músicos mais importantes de todos os tempos.

O que eu não esperava era encontrar um disco tão humano.

Produzido por Andrew Watt, sujeito que já trabalhou com nomes tão distintos quanto Justin Bieber, Lady Gaga, Ozzy Osbourne, Pearl Jam e Iggy Pop, o álbum começou a tomar forma em 2021. E Watt parece ter compreendido algo fundamental: produzir Paul McCartney não significa reinventá-lo.

Significa saber quando interferir e quando simplesmente sair da frente.

A abertura com “As You Lie There” já deixa isso claro. Nascida do primeiro encontro criativo entre os dois, a música alterna momentos delicados e explosões de energia enquanto Paul relembra a infância e uma antiga paixão platônica chamada Jasmine. É uma canção sobre memória, sobre oportunidades perdidas e sobre o tempo. Um tema que atravessará todo o disco.

Em seguida surge “Lost Horizon”, uma composição esquecida desde o início dos anos 2000, redescoberta por um amigo chamado Eddie Klein, que acreditava na música mais do que o próprio autor. Após a morte de Eddie, Paul resolveu recuperá-la. Watt apenas sugeriu algumas guitarras adicionais. A canção já estava pronta. O produtor apenas soube reconhecer isso.

O primeiro single, “Days We Left Behind”, fornece inclusive o verso que dá nome ao álbum. É uma das primeiras paradas emocionais dessa viagem ao passado, relembrando os tempos em que Paul conheceu John Lennon e George Harrison. Não os ícones que mudariam a história da música, mas os garotos que cruzaram seu caminho numa Liverpool ainda distante da Beatlemania.

Aliás, essa talvez seja a grande beleza de “The Boys of Dungeon Lane”.

Este não é um disco sobre os Beatles.

É um disco sobre as pessoas que existiam antes dos Beatles.

A esposa Nancy recebe sua homenagem em “Ripples in a Pond”, uma canção vibrante e dançante, enquanto “Mountain Top” mergulha numa psicodelia deliciosamente sessentista, narrando a aventura de uma garota rumo a festivais de rock. Já “Down South” retorna às lembranças de juventude e aos primeiros encontros com George Harrison, através de uma canção construída apenas sobre voz e violão.

Há também espaço para experiências curiosas, como “We Two”, gravada com um antigo gravador Studer de quatro canais que Paul comprou quando a EMI decidiu se desfazer de equipamentos históricos de Abbey Road. O resultado é uma balada calorosa, que parece ligar passado e presente através da própria tecnologia utilizada na gravação.

Quando o álbum ameaça se acomodar em seu clima contemplativo, surge “Come Inside”, o rock and roll mais direto do repertório. Guitarras, energia e uma mensagem simples: abrir a mente, abrir o coração e derrubar barreiras.

“Never Know” leva a viagem para a Califórnia e para o lendário Laurel Canyon. Inspirado por nomes como Jimi Hendrix, Jim Morrison, Frank Zappa e Joni Mitchell, Paul não tenta reproduzir o passado, mas imaginar como aqueles artistas soariam hoje.


Mas o coração do disco atende pelo nome de “Home to Us”.

Em determinado momento, uma lágrima escapou por aqui.

A faixa reúne Paul McCartney e Ringo Starr num dueto de verdade. Não uma participação simbólica, não uma aparição protocolar. Um dueto. Paul canta um verso, Ringo responde no seguinte, enquanto Chrissie Hynde e Sharleen Spiteri completam o clima com harmonias vocais delicadas.

Por alguns minutos, estamos novamente diante de dois Beatles fazendo música juntos em 2026.

E isso continua sendo algo capaz de emocionar.

A reta final mantém o alto nível. “Life Can Be Hard”, composta durante o período de confinamento da COVID-19, encontra esperança no ambiente familiar. “First Star of the Night” transforma uma noite chuvosa na Costa Rica numa bela metáfora sobre dias melhores. Já “Salesman Saint” presta uma emocionante homenagem aos pais de Paul: o pai vendedor que se tornou bombeiro durante a Segunda Guerra Mundial e a mãe enfermeira e parteira. Musicalmente, é uma das mais bonitas do álbum, enriquecida por arranjos delicados de cordas e metais.

Por fim, “Momma Gets By” encerra o trabalho contando a história de uma mulher que sustenta uma família praticamente sozinha. Uma personagem fictícia, segundo Paul, mas tão real quanto tantas mulheres que conhecemos. A balada cresce ao piano até ganhar dimensão orquestral, encerrando o álbum de maneira elegante e emocionante.

Ao final da audição, fica a sensação de que “The Boys of Dungeon Lane” não é um disco sobre fama, sucesso ou legado.

É um disco sobre gratidão.

Gratidão aos amigos.

À família.

Ao amor.

À infância.

À música.

Aos 83 anos, Paul McCartney não parece interessado em provar mais nada para ninguém. E talvez seja justamente por isso que continua produzindo trabalhos tão relevantes.

Porque, por trás do Beatle, do milionário e da lenda, ainda existe aquele garoto de Liverpool.

E a boa notícia é que ele continua escrevendo canções.



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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