| Foto: Divulgação |
Registro em estúdio vai
além da retrospectiva, ganha força com inéditas e reforça o papel político de
uma das bandas mais importantes do hardcore nacional
Não
é apenas uma coletânea. E definitivamente não é um exercício de nostalgia.
Em "Red Star Sessions #1", o Devotos transforma o estúdio em território de
afirmação. O que poderia soar como um simples apanhado de carreira ganha
contorno de manifesto: 18 faixas executadas com crueza, urgência e aquele senso
de identidade que sempre colocou o trio recifense em um lugar próprio dentro do
hardcore brasileiro.
A
proposta é direta — e funciona justamente por isso. Sem firulas, sem excesso de
produção, o disco aposta na captura da essência. O resultado é um som orgânico,
pesado na medida certa e carregado de groove, característica que sempre
diferenciou a banda. Aqui, tudo soa vivo. Tudo pulsa.
Cannibal,
mais uma vez, assume o papel de porta-voz. Sua interpretação não passa pela
ideia tradicional de “cantar”: ele projeta, afirma, tensiona. Ao lado de
Neilton e Celo Brown, forma uma engrenagem enxuta, mas potente, daquelas que
fazem três músicos soarem como muito mais.
Mas
é quando o álbum se recusa a ser apenas retrospectivo que ele cresce de
verdade.
A
inédita “Vladimir Herzog” surge como um dos momentos mais contundentes do
trabalho. Em um cenário onde discursos autoritários voltam a circular com menos
pudor, a faixa resgata o peso simbólico do Caso Vladimir Herzog sem cair na
armadilha da memória distante. Pelo contrário: a música ecoa como alerta,
lembrando que certas estruturas nunca desapareceram — apenas mudaram de forma.
Já
“Mas será o Benedito?”, antes restrita às plataformas digitais, ganha nova
dimensão dentro do contexto do disco. E entender a origem do título amplia
ainda mais seu impacto. Como relatado por Cannibal, Benedito era um negro
escravizado que escapava, retornava durante a noite para libertar outros,
incendiar propriedades e desestabilizar a ordem vigente. Ao ouvirem ruídos na
escuridão, os senhores reagiam com temor: “mas será o Benedito?”
A
frase, que atravessou o tempo como expressão popular, carrega uma raiz de
insurgência. E ao incorporá-la ao repertório, o Devotos reforça algo que sempre
esteve presente em sua trajetória: a música como ferramenta de enfrentamento.
Entre
as imagens que acompanham o lançamento, uma em especial traduz o espírito do
registro: público e banda fundidos em um mesmo gesto, sem barreiras. Não há
distância segura — há entrega. É nessa zona de contato que o Devotos sempre
existiu, e é exatamente isso que o disco captura.
"Red
Star Sessions #1" não revisita o passado com saudosismo. Ele reafirma propósito.
Em
tempos onde a urgência volta a bater à porta, o Devotos responde da única forma
que sabe — alto, direto e sem concessões.
Porque, no fim das contas,
enquanto houver motivo, o barulho continua.
E
pra quem quiser ter isso em mãos: a edição física é limitada a apenas 300
cópias — o que reforça o caráter especial do lançamento: CLIQUE AQUI.
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