Anônimos Anônimos troca euforia por acolhimento em ‘Acabou Sorrire’

Foto: Rick Costa

Existe uma frase no release de “Acabou Sorrire” que ajuda a entender perfeitamente o primeiro álbum da banda paulistana Anônimos Anônimos.

Ao explicar o título — uma brincadeira assumida com “Acabou Chorare”, clássico dos Novos Baianos — o vocalista Flávio Particelli define o disco como “um abraço em vez de chamar para ir a uma festa”.

Depois de ouvir atentamente as nove faixas do trabalho, fica claro que essa talvez seja a melhor definição possível.

Porque “Acabou Sorrire” é um disco melancólico, às vezes até dolorido, mas nunca derrotista. Em vez de transformar sofrimento em espetáculo, a Anônimos Anônimos prefere oferecer identificação, compreensão e conforto através de canções que falam sobre ansiedade, insegurança, solidão, amadurecimento e sobrevivência emocional.

Logo na abertura, “Esquisito” já estabelece o tom do álbum com versos como:

Ansioso e depressivo / Agitado e improdutivo…

A melodia cresce, o refrão ganha cores mais luminosas, mas a tristeza permanece ali, intacta. E esse contraste entre instrumentais acessíveis e letras profundamente introspectivas acaba se tornando a principal característica do disco.

“Sim” mantém essa atmosfera ao falar de incoerência, carência e vazio existencial, enquanto a faixa-título “Acabou Sorrire” talvez represente o coração conceitual do álbum. A música carrega uma sonoridade quase ensolarada, mas questiona justamente o fim da ilusão do “felizes para sempre”:

Depois de felizes pra sempre ninguém espera o fim…

O curioso é que, embora dialogue claramente com indie rock, emo, pop punk e rock alternativo, a banda nunca soa excessivamente presa às referências. Existe um jeito brasileiro de cantar e escrever ali, algo mais cotidiano e menos teatral.

“Arquipélago” surge como um dos primeiros momentos em que o disco parece respirar um pouco mais leve. Ainda existe medo e insegurança, mas também aparece a ideia de seguir em frente:

A sua curiosidade é sempre bem maior que o medo…

Já “Tudo Passa” reforça outra característica marcante do álbum: mesmo quando a banda acelera e ganha peso instrumental, o vocal de Flávio continua carregando uma melancolia quase estrutural, como se houvesse sempre uma nuvem pairando sobre as canções.

“Timidez” talvez seja o momento mais explicitamente acolhedor do disco. Começando apenas com guitarra antes da explosão dos demais instrumentos, a faixa praticamente estende a mão ao ouvinte:

Não tenha vergonha, você tem tanto a dizer…

Enquanto isso, “Eu Lembro” traz um dos melhores refrões do trabalho e uma nostalgia que em alguns momentos remete ao Los Hermanos. É provavelmente a música mais “pegada” do disco, equilibrando peso e musicalidade sem perder a delicadeza emocional.

Mas é em “Do banco de trás pra a direção” que “Acabou Sorrire” encontra sua síntese mais forte. A faixa mais longa do álbum funciona quase como um retrato do amadurecimento emocional de alguém tentando sobreviver aos próprios fantasmas:

“Levo um pouco dos meus pais, meus amigos e minha solidão…”

E depois:

“Encontrei! No fundo sempre há saída… e mudei daquela ideia suicida…”

Aqui, toda a melancolia espalhada pelas músicas anteriores ganha novo significado. O disco deixa de parecer apenas introspectivo e revela também um processo de reconstrução.

O encerramento com “PLMDS” mantém o peso emocional, mas novamente aponta para a tentativa de abandonar o rancor e seguir em frente. O álbum termina sem respostas definitivas — e talvez seja justamente esse seu maior acerto.

Musicalmente, “Acabou Sorrire” não reinventa o indie rock ou o pop punk. Mas também não precisa. O diferencial da Anônimos Anônimos está na honestidade das composições, nos refrões eficientes, na coesão do repertório e na capacidade de transformar sentimentos comuns em canções facilmente reconhecíveis por quem vive as angústias e incertezas da vida adulta contemporânea.

No fim das contas, Flávio Particelli tinha razão: este realmente não é um disco para chamar alguém para uma festa.

É um disco para sentar ao lado de alguém e dizer: “eu entendo você”.

Arte: Denis Carrion


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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