O Lynyrd Skynyrd finalmente despejou seu lendário ataque de três guitarras em terras cariocas — e, por algumas horas, o Rio de Janeiro virou extensão direta de Jacksonville, na Flórida, berço da banda.
A conexão vai além da música. Assim como a cidade americana, o Rio carrega seu litoral exuberante e seus próprios “pântanos” — aqui traduzidos em manguezais. Mundos diferentes, mesma atmosfera quente, úmida e visceral.
Durante décadas, o Lynyrd Skynyrd nunca saiu das ondas do rádio carioca. DJs e programadores mantiveram viva a chama do southern rock, transformando o som da banda em trilha sonora constante da cidade.
Com mais de 50 anos de estrada, o grupo construiu algo raro: gerações inteiras de fãs no Rio, gente que atravessa a cidade — ou o estado — para ver de perto os “velhinhos” do sul dos EUA quando finalmente desembarcam por aqui.
E quando isso acontece, o cenário é perfeito: uma casa de shows próxima às lagoas de Jacarepaguá, onde não há crocodilos, mas os jacarés seguem firmes como parte da paisagem.
No fim das contas, o paralelo é inevitável. O sol que castiga os pântanos da Flórida é o mesmo que arde no Rio de Janeiro. E o som que nasceu lá encontrou, aqui, um dos seus refúgios mais fiéis.
O Legado nas Ondas do Rádio
Nos anos 90, enquanto o mundo girava ao som de Collective Soul, The Black Crowes e Candlebox, os motoqueiros e “cowboys do asfalto” do Rio tinham outra trilha sonora. A lendária Fluminense FM seguia firme, inundando as ondas do rádio com o som do Lynyrd Skynyrd.
Cinco décadas após o lançamento do primeiro álbum, o resultado é evidente: o grupo não apenas conquistou fãs — formou gerações inteiras. No Rio de Janeiro e, especialmente, em Niterói, o repertório da banda virou linguagem comum em bares, palcos e bandas cover.
Esse culto ficou escancarado no Qualistage, lotado em pleno domingo de Páscoa.
A diversidade etária impressionava: crianças acompanhadas de pais, tios e avós, todos conectados pelo mesmo repertório.
O clima era de encontro de estrada — quase um festival motoqueiro indoor. Cerveja circulando, camisetas clássicas dominando o ambiente e, claro, uma floresta de celulares no ar.
Um detalhe que a gente até tenta ignorar… mas é impossível: se alguém duvidar, o show inteiro provavelmente já está arquivado em centenas de vídeos da pista premium.
O Ataque de Guitarras Triplo
Foto: Loquillo Panamá / Rock On Board
Explicitamente é uma noite de greatest hits, que começou com tudo numa sequência sem freio com "Workin' for MCA", "What's Your Name" e "That Smell" -contando com a aprovação imediata do numeroso público presente. E estamos apenas nos primeiros 15 minutos do show.
Tudo é milimetricamente ensaiado. Cada músico sabe exatamente até onde pode ir no palco sem cruzar o caminho do outro. É precisão coreografada sem perder a alma. No Qualistage, a sensação é de noite de gala: nove músicos alinhados, de frente para uma plateia sedenta por sucessos.
No centro de tudo está o emblemático “ataque triplo de guitarras” — uma assinatura que ajudou a definir o gênero. Três guitarristas operando ao mesmo tempo, construindo camadas: bases sólidas, linhas de slide, frases melódicas e solos que se entrelaçam. Faixas como “The Needle and the Spoon” e “Gimme Three Steps” deixam isso evidente.
Essa dinâmica permite arranjos intrincados sem sobrecarregar o piano ou os vocais. Solos altos preenchem qualquer buraco, deixando tudo prazeroso ao extremo da satisfação espiritual transcendental.
O repertório inclui "Gimme Back My Bullets" e "Saturday Night Special". Cada canção tem a capa do seu álbum mostrada no telão, como um guia para quem não reconhece no primeiro acorde. Cada vez que o trio de guitarras fica na frente do palco enfileirado, junto com o baixista fazendo um quarteto de cordas, a festa no salão ganha gritos de alegria.
As duas backing vocals, Carol Chase e Stacy Michelle, e o guitarrista Rickey Medlocke cantam junto com Johnny Van Zant, vocalista principal desde 1987, quando assumiu o lugar de seu falecido irmão, Ronnie Van Zant. A qualidade das vozes é inacreditável.
Assim como nas guitarras, ninguém tenta brilhar sozinho — tudo funciona em conjunto, formando um verdadeiro coral de vozes que arrepia do início ao fim.
Em “Tuesday’s Gone”, a cena ganha ainda mais peso: um músico extra sobe ao palco para assumir a gaita, adicionando uma camada melancólica que amplia ainda mais a emoção do momento. Era, sem dúvida, uma noite de gala completa.
Tributo e Emoção
Visivelmente satisfeitos com a resposta da plateia, eles agradecem, pedem a bênção do público e puxam “Call Me the Breeze”. Na sequência, Johnny Van Zant toma o microfone e provoca: “Brasil, vocês acreditam no céu? Vamos cantar para os anjos”. O clima muda. O que vem a seguir é um dos momentos mais emocionantes da noite — um tributo a Gary Rossington, falecido em 2023, e a todos os músicos que fizeram parte das diferentes formações da banda, incluindo as vítimas do trágico acidente aéreo de 1977.
Em “Simple Man”, o pedido é simples: luzes acesas. E o Rio responde à altura. Uma multidão iluminada, cantando em coro, transforma o Qualistage em um mar de vozes — alto, intenso e impossível de ignorar.
O encerramento vem com “Sweet Home Alabama” — e o Qualistage explode como final de Copa do Mundo. A reação é imediata, coletiva, quase catártica. A multidão canta como se soubesse que está vivendo um momento histórico. A emoção salta dos rostos, das palmas, dos braços erguidos. Cada verso é devolvido à banda em coro, com força total. No telão, as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos dividem o mesmo espaço. As nações unidas do rock.
O Grand Finale: Rio de Janeiro
A banda deixa o palco às escuras por longos cinco minutos. O coro por “Free Bird” surge, ainda tímido, mas carregado de expectativa. Todos sabem que o espetáculo não terminou — só está prendendo a respiração antes do golpe final. O suspense pesa. Passam das 23h, e, exaustos, alguns começam a ceder, sacrificando o último ato. Quem fica, no entanto, entende: certas músicas não são só canções — são rituais.
O telão central se acende. Em cena, uma águia dourada repousa sobre o piano — símbolo silencioso de tudo o que está por vir. O som, impecável durante toda a noite, agora se reorganiza para o golpe final. Então, a imagem surge. Ronnie Van Zant aparece em preto e branco, discursando sobre liberdade. O passado invade o presente. E não há mais volta. Começa o verdadeiro hino do Lynyrd Skynyrd. O que se vê é um colapso emocional coletivo: lágrimas escorrem, urros rasgam o ar e milhares de celulares iluminam o espaço como um céu artificial. Não é apenas música. É memória, ausência e celebração — tudo ao mesmo tempo.
No piano, Peter Keys — inquieto a noite toda com notas que preenchem as longas jams — trocou seu chapéu por um maior, combinando com seu terno branco. No telão, chamas de velas brilham para cada um dos membros que já se foram: Ronnie, Steve, Cassie, Allen, Leon, Billy, Ed, Bob, Larry, Ean, Jojo, Gary, Leslie, Stevie, Tammy, Michelle e Steve V.
O respeito pelos mentores originais é real. A banda no palco está ligada infinitamente a uma legião de espíritos que nunca abandonaram o rock n' roll. Para o "xeque-mate" emocional, o vocalista original aparece cantando no telão, utilizando o mesmo recurso usado pelo Queen para trazer uma voz do passado para a celebração presente.
Quando chega o momento do "estouro" do triângulo de guitarras, uma imensa bola espelhada desce sobre o palco. As luzes refletidas criam um efeito quase cegante, cobrindo o Qualistage inteiro com feixes que ricocheteiam por toda parte. Sob a sombra deste eclipse brilhante, os solos infinitos de "Free Bird" são apresentados. A plateia pula, grita e chora.
A noite de gala chega ao fim. A sensação é tão forte que o público demora a sair do transe. Ovacionados, os sulistas sabem que marcaram um "golaço" na terra do Carnaval. O público agora espera que as promessas de retorno não sejam levadas ao vento. A chama do legado do Skynyrd continua viva.
Rock no Rio: A Energia de Jayler e Dirty Honey
Para abrir a noite de Rock no Rio de Janeiro, a promessa britânica Jayler e os "sex symbols" da Califórnia, Dirty Honey, entregaram sets curtos e precisos para aquecer a plateia que começou a chegar por volta das 19h. Ambas as bandas haviam se apresentado no festival Monsters of Rock no dia anterior, no Allianz Parque, em São Paulo.
Jayler: Jovialidade e Referências Clássicas
O Jayler está em turnê de divulgação de seu álbum de estreia, Voices Unheard, que chegará às plataformas de streaming apenas em 29 de maio. No palco, a banda projeta uma semelhança implícita com o Led Zeppelin da era 1971-1974, ostentando um figurino ainda mais "riponga" que o do Greta Van Fleet e arriscando exercícios vocais que nem o próprio Robert Plant gravou.
Com uma dinâmica explosiva e uma agilidade inacreditável, o grupo saiu ovacionado após tocar "Over The Mountain" e "The Rinsk" — canções que ainda não estão disponíveis nem no YouTube, nem no Spotify. Dos singles conhecidos e do primeiro EP, tocaram Riverboat Queen e Lovemaker. É uma banda adorável, sem medo de atacar.
Dirty Honey: O Hard Rock com Roupa Nova
Diretamente de Los Angeles, o Dirty Honey subiu ao palco às 20h10. A descrição mais fiel para o vocalista Marc LaBelle seria uma mistura de Michael Hutchence cantando Aerosmith, com toda a destreza de David Coverdale no manejo do pedestal do microfone. O som é um Hard Rock clássico dos anos 80, mas com a pegada de uma produção atual.
Com 10 anos de estrada, eles chegaram com fome de conquistar o Brasil. Durante a performance de "Don't Put Out the Fire", o vocalista surpreendeu ao aparecer com uma cadeira no meio da pista, carregada por ele mesmo. Ele tentou agitar os fanáticos do Lynyrd Skynyrd, que, em transe, preferiram filmar a cantar junto. No palco, o que se viu foi pura devoção, solos marcantes e muita animação.
O Encontro do Classic Rock
Houve uma coincidência curiosa no setlist: enquanto o Jayler cantou "Lovemaker", o Dirty Honey trouxe "Heartbreaker". Uma faz amor, a outra quebra o coração. A noite carioca de Classic Rock estava completa. O público, respeitoso, aplaudiu e interagiu com ambas as bandas entre palhetas voadoras e muita energia.
O Dirty Honey segue na turnê do álbum ao vivo Mayhem and Revelry Live, que inclui sucessos como "The Wire", "Rollin' 7's", "When I'm Gone" e "California Dreamin'". Com experiência de sobra, a banda aproveitou para testar o repertório com a inédita "Lights Out".
A satisfação de estar no Brasil era visível nos olhos dos músicos. Com seu logo de lábios marcante, o Dirty Honey quer — e merece — ser ouvido por você.
