É difícil encontrar algum fã de heavy metal que nunca ouviu falar de Venom e poucas são as bandas do gênero que carregam um peso tão monumental quanto o deles. Com quase cinco décadas de uma trajetória que praticamente desenhou as regras do que viria a ser o metal extremo e que foi a força geradora do Black Metal, a banda liderada por Cronos não apenas sobreviveu ao tempo, mas moldou gerações. E agora, nesta sexta-feira, 1º de maio, a banda inicia mais um novo capítulo da sua história, com o lançamento do seu mais novo álbum, Into Oblivion.
Este é o quarto lançamento do grupo com a sua formação atual, que, diga-se de passagem, é a formação mais estável e duradoura de sua história, com 17 longos anos de parceria. O álbum é extremamente aguardado pelos fãs, quebrando um hiato de sete anos sem lançamentos desde sua última produção, Storm the Gates (2018).
A Força de uma "Gangue": 17 Anos de Estabilidade
Em conversa com Danny "Dante" Needham, baterista do grupo, ficou claro que esse hiato não foi de estagnação, mas de refinamento. Dante revelou como a dinâmica de "gangue" estabelecida por quase duas décadas, e o fato de se conhecerem melhor como pessoas e amigos, permitiu que a banda explorasse novos territórios sonoros sem perder a essência visceral que os consagrou. Para ele, Into Oblivion representa o ápice da comunicação musical entre Cronos, La Rage e ele próprio: "Eu amo este disco. Você consegue ver o degrau acima; estamos subindo, não descendo, tanto na composição quanto na produção. Sinto que levamos nossos limites adiante como músicos e no trabalho em conjunto”.
Into Oblivion de certa forma moderniza o som do Venom, com uma mistura de novas sonoridades e técnicas de produção que elevam musicalmente as suas faixas. Dante conta que trabalharam com uma mistura de sons, incluindo elementos do progressivo e do blues, além de incluírem letras em latim em algumas músicas. Curiosamente, também, o trio gravou este álbum sem o uso de metrônomo, o que deu a ele uma sensação de performance ao vivo: "O disco tem quase uma sensação de show ao vivo, uma energia muito forte. Desta vez, nós não gravamos com metrônomo. Geralmente, eu fico no estúdio com fones de ouvido gigantes mantendo o tempo, mas decidimos tentar sem isso agora. É mais difícil para as guitarras e o baixo se conectarem à bateria sem essa referência, mas o resultado é definitivamente esse sentimento mais orgânico, mais visceral. É como se quem estivesse ouvindo sentisse que estamos todos no palco juntos, e acho que isso funcionou muito bem.", afirma o baterista.
Apesar disso, o álbum não perdeu a identidade crua e bruta da banda: “O álbum ainda tem aquela energia suja e visceral. O Venom é conhecido por ser cru e agressivo. Se você ouvir os primeiros discos, eles foram revolucionários, mas as técnicas de produção na época eram muito primitivas; gravavam tudo da noite para o dia em dois takes e capturavam aquele momento especial. O que fizemos aqui foi manter a essência desse poder bruto, mas obviamente usando equipamentos modernos, onde não ficamos restritos a apenas algumas tentativas.”
Do "Clean" ao Caos: A Lição Aprendida com Resurrection
O motivo por trás disso remete ao lançamento de Resurrection (2000). Embora Dante considere aquele um álbum fantástico, ele pontua que a produção era excessivamente limpa e polida, resultando em um som que parecia "produzido demais" e que não teve o mesmo sucesso de outras produções do grupo. Em contraste, o objetivo com Into Oblivion foi fugir dessa perfeição estéril, garantindo que o novo material mantivesse a sujeira e a crueza que definem a identidade do Venom, mesmo com os recursos tecnológicos disponíveis atualmente. O maior exemplo disso, segundo ele, é a faixa "Lay Down Your Souls", que claramente faz referência ao clássico "Black Metal" (1982) e que serviu como "estrela norte" desta nova produção.
Dante acredita que com esse novo álbum, a banda está finalmente consolidando a sua saída da sombra dos anos 80 e firmando uma identidade mais própria dessa "nova" formação, sem perder o DNA Venom. "Nosso público é uma mistura; temos os veteranos que acompanham o Venom há quase 50 anos e, ao lado deles, jovens de 18 ou 19 anos cantando músicas que escrevemos agora e também clássicos de antes de terem nascido. Para esses fãs mais novos, esta é a versão do Venom deles. Somos uma formação muito forte e que veio para ficar", celebra o baterista.
E, para ele, isto fica ainda mais evidente em suas apresentações ao vivo, em que mesmo os fãs "die hard" das antigas vêm pedindo a inclusão de músicas novas no setlist, como "Long Haired Punks" e "100 Miles to Hell". Dante espera que, com as 13 novas canções de Into Oblivion, pelo menos quatro ou cinco possam entrar num futuro setlist e surpreender positivamente os fãs.
Impacto Imediato: Desafiando o Tempo de Atenção na Era do Streaming
O baterista está claramente ansioso para o lançamento desse novo trabalho e espera que a reação do público seja tão positiva quanto à deles. Dante reflete sobre os desafios do mercado atual, pontuando que a geração mais jovem possui um tempo de atenção cada vez menor, muitas vezes descartando uma banda após apenas alguns segundos de audição em plataformas digitais.
Ciente dessa realidade de consumo fragmentado, ele explica que o grupo teve o cuidado de garantir que cada uma das 13 faixas de Into Oblivion causasse um impacto imediato, independentemente da ordem em que fossem ouvidas. Embora as músicas apresentem nuances diferentes entre si, todas estão sob o "guarda-chuva" sonoro do Venom, unificadas pela voz distinta e icônica de Cronos. Para Dante, essa identidade inconfundível é o que torna o álbum um motivo de orgulho, mantendo a banda relevante e reconhecível logo nos primeiros acordes.
A confiança do trio no novo material não é apenas discurso de divulgação; é algo que eles mesmos sentem após meses de imersão no estúdio. Dante revelou que o nível de satisfação interna é tão alto que, mesmo após ouvirem as faixas milhares de vezes durante o processo de produção, o entusiasmo permanece intacto. "Nós três nos perguntamos: ‘você já se cansou dessa aqui? Já ficou enjoado?’. E a resposta é sempre não. Então, sinto que realmente fizemos algo certo", conta o baterista.
Essa empolgação genuína promete se traduzir em performances explosivas, mantendo o repertório renovado e estimulante tanto para a banda quanto para quem assiste aos shows. Para Dante, esse frescor é o que alimenta a longevidade do grupo no palco. E, para os fãs que estão contando as horas para o lançamento desta sexta-feira, ele resume a experiência de Into Oblivion com a honestidade brutal que se espera de um integrante do Venom: "É absolutamente f***mente incrível".
