Punho de Mahin transforma memória e resistência em mobilização política

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Punho de Mahin
Entre a Penitência e a Ruptura
⭐⭐5/5
Por  Ricardo Cachorrão Flávio 


Fundada em 2018, a Punho de Mahin chega ao seu segundo álbum de estúdio com uma obra conceitual, corajosa e necessária. “Entre a Penitência e a Ruptura”, lançado pela Deck Discos e produzido por Clemente Nascimento, não é apenas uma coleção de músicas — é uma tese sonora sobre o Brasil.

O disco se divide claramente em dois atos.



PENITÊNCIA — O diagnóstico da ferida

A abertura com “Violação” já deixa claro que não haverá concessões. Em quase sete minutos, Natália Matos narra a realidade do sistema carcerário feminino brasileiro sobre uma base que alterna jazz (em parceria com o duo Rádio Diáspora) e hardcore. Quando o instrumental se acalma, ela denuncia. Quando explode, ela grita. A pergunta final — “Até quando?” — ecoa como sentença aberta.

Marcus Vinicius da Maré” parte para o hardcore direto, nomeando a vítima da violência policial: Marcus Vinicius da Silva, assassinado aos 14 anos no Complexo da Maré. Aqui há denúncia e acusação. Sem metáforas.

Meritomentira” desmonta o mito da meritocracia que sustenta desigualdades estruturais. “Vão”, com apenas 1:38, transforma o espaço entre trem e plataforma em metáfora brutal da negligência urbana que mata trabalhadores invisíveis.

Linha Tênue” conecta 1964–1985 ao presente, citando necropolítica — conceito associado a Achille Mbembe (filósofo, cientista político, historiador, intelectual e professor universitário camaronês) — e denunciando a permanência da lógica autoritária intensificada durante o governo de Jair Bolsonaro.

O lado da Penitência se encerra com “13 de Maio”, um dos momentos mais impactantes do álbum. Natália declama a Lei nº 3.353, assinada pela Princesa Isabel, para desmontar o mito da abolição benevolente. O grito “Brasil, o último país a abolir a escravidão” é atravessado por berimbau e cânticos negros, lembrando que liberdade não veio por decreto — veio por luta.

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ENTRE — A ponte

A faixa-título marca a virada. Menos hardcore, mais punk rock trabalhado, guitarras mais abertas, refrão afirmativo:

Foi apagado da memória o caminho da vitória. Chegou a vez, chegou a hora, teu passado virou glória.

Aqui começa a reconstrução.

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RUPTURA — Da memória à mobilização

Raios, Trovões e Tempestades” invoca ancestralidade, citando Oxum e Ogum, trazendo espiritualidade afro-brasileira para dentro do punk.

Dandara” resgata Dandara dos Palmares, frequentemente apagada quando se fala apenas em Zumbi dos Palmares, afirmando protagonismo feminino negro.

Ei, Mulher!” transforma o palco em convocação direta: “entra na roda pra pogar”. O espaço do punk é reivindicado.

Respiro” apresenta talvez o momento mais musicalmente sofisticado do disco, com ecos dos Inocentes na construção e produção. A frase final — “O amanhã não haverá ser apenas sobrevivência” — aponta para algo além da resistência: dignidade.

E o encerramento com “Grito Quilombo” é definitivo. Punk rock urgente, baixo em destaque, backing vocal coletivo, grito literal. Não há contemplação. Há convocação.

O quilombo aqui não é passado histórico.
É projeto político.

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Conclusão

“Entre a Penitência e a Ruptura” termina como mobilização. O “Grito Quilombo” é chamado direto à organização e ao enfrentamento do fascismo contemporâneo.

Não é um disco confortável.

Não é um disco neutro.

Não é um disco apenas de denúncia.

É um disco que começa mostrando as feridas do Brasil e termina convocando à ação coletiva.

Ouvir este álbum me fez lembrar por que me aproximei do punk ainda nos anos 80: não pela estética, mas pela urgência política. Discos como “Miséria e Fome”, dos Inocentes, e “Pela Paz em Todo Mundo”, do Cólera, me ensinaram que música pode ser ferramenta de transformação. O trabalho da Punho de Mahin dialoga com essa tradição — mas amplia o eixo ao colocar a experiência negra no centro da narrativa e ao transformar memória em mobilização.

Mais do que resistência, este é um álbum de transformação.

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Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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