| Foto: Panamá / Rock On Board |
Dead Fish estreia turnê festejando 25 anos de Afasia no Circo Voador. Eram 23h45 e o Circo Voador, agora sim, estava abarrotado. Um público três ou quatro vezes maior do que o presente nas bandas de abertura, Bullet Bane e Zander.
O velho hábito de ignorar os shows iniciais persiste; muitos preferem as imediações da lona ou chegam apenas para o evento principal. Contudo, naquela noite, o ar estava carregado com a consciência de que se celebrava a história do Dead Fish e os 25 anos do álbum Afasia.
| Foto: Panamá / Rock On Board |
No palco, o vocalista Rodrigo Lima tentava conferir a memória do público presente, em dúvida se o show de lançamento original ocorrera no antigo Casarão Amarelo, em Copacabana, ou no Kachanga, em Botafogo (foi no Casarão).
O fato é que os fãs cariocas do hardcore brasileiro mantém raízes sólidas com a cena capixaba há décadas. Seja devido a shows na Casa da Zorra, Beco da Bohemia ou no Garage, Ballroom ou Drinkeria Maldita. O Dead Fish e seus conterrâneos do Mukeka Di Rato sempre encontraram acolhimento no Rio de Janeiro.
Essa conexão é palpável no olhar e no entusiasmo da multidão, que "abraça o capeta" e pula incessantemente aos primeiros acordes de "Afasia". A canção, um dos pilares do repertório ao vivo do Dead Fish desde seu lançamento na virada do milênio, serviu como o estopim de um vulcão em erupção nos últimos minutos da sexta-feira, 16 de janeiro de 2026.
Mais de 1.500 pessoas movidas pelo desejo comum de invadir o palco, abraçar a banda e participar da festa.
Com expressiva presença do público feminino, sem medo algum de agitar e participar em verdadeiros mergulhos na multidão (stage dives), nadando e flutuando por cima das cabeças, reforçaram o clima de "reunião de família". A família carioca de fãs do Dead Fish.
A estrutura do show fugiu do óbvio: em vez de seguir a ordem cronológica do álbum, a banda optou por uma sequência inicial com "Afasia", "Linear" e "Iceberg". A escolha conferiu um tom de mistério à noite, quebrando qualquer previsibilidade. Quem esperava ouvir "Proprietários do Terceiro Mundo" logo na segunda faixa, precisou aguardar até o quarto bloco, quando o ciclo das 14 canções do álbum Afasia foi encerrado com "Tango".
Um dos grandes momentos de entrosamento geral da noite ocorreu em "Me Ensina", quando o vocalista Gabriel Zander subiu ao palco para cantar junto com o Rodrigo. O gesto foi uma retribuição direta ao que havia acontecido horas antes, no show do Zander, quando o líder do Dead Fish também fez uma participação especial. Essa troca de energias entre as bandas reforçou o clima de celebração mútua e respeito que permeou todo o evento no Circo Voador. O vocalista do Plastic Fire também participou do show .
Ao anunciar o fim do "script" planejado, depois de "Tango", Rodrigo Lima deu início a uma avalanche de sucessos da carreira, sem tempo para pausas.
O que se viu foi um verdadeiro espetáculo de resistência: corpos mergulhando e subindo ao palco incessantemente. Nem mesmo os imprevistos técnicos, como a água que atingiu a pedaleira do guitarrista, pararam o show. Enquanto o roadie agia rapidamente para secar o equipamento e tentar conter a invasão, Rodrigo navegava pelo palco lotado de corpos invasores dançantes e pulando, fazendo uma performance agitada, como sempre, entre passos que mais pareciam de capoeira ou movimentos de kickboxing.
São décadas de estrada que conferem ao frontman o domínio total de qualquer cenário. Quando o Dead Fish ocupa o Circo Voador, a energia transborda e a conexão com o Rio de Janeiro torna-se inesquecível.
| Foto: Panamá / Rock On Board |
A experiência é cinematográfica. Sob os Arcos da Lapa, o som saturado e potente agita a lona em uma coreografia orgânica: cantoria generalizada, body surfing e os códigos das rodas de hardcore sendo transmitidos de geração em geração. A diversão coletiva é insaciável e solidária. Caiu? Alguém te levanta e te ajuda a seguir.
Todas, todos, todes; ninguém é excluído da festa no Rio de Janeiro.
Após a execução de "Autonomia", "Urgência", "Tão Iguais" e "Você", o setlist complementaria com mais 7 canções de puro vigor, culminando em um encerramento apoteótico com "Sonho Médio", "Bem-Vindo ao Clube" e "Venceremos".
A escolha das canções além do bloco dedicado ao Afasia revela uma curadoria estratégica que mapeia os momentos mais emblemáticos da trajetória do Dead Fish.
Ao eleger seis canções do álbum Zero e Um como a base secundária do show, a banda conecta a crueza técnica do final dos anos 90 com o refinamento melódico e o impacto nacional alcançado em 2004.
O reconhecimento dessa trajetória ficou evidente quando Rodrigo fez um agradecimento público ao Rafael Ramos, da Deck Discos, lembrado como peça-chave na profissionalização e expansão da banda para além do underground.
Somado aos quatro clássicos do álbum Sonho Médio, o setlist não apenas celebra um álbum específico, mas reafirma a coesão da identidade sonora da banda, provando que a urgência de suas letras atravessa diferentes fases sem perder o fôlego.
"Venceremos", a canção do álbum de estreia Sirva-se (1995), no contexto do show funciona como um fechamento simbólico: conectando o público atual às raízes mais profundas do hardcore capixaba e encerra a celebração de 25 anos com uma mensagem de resistência que resume toda a filosofia da banda.
O Dead Fish prova que nunca se rendeu ao sucesso comercial vazio. Sua essência sociopolítica impede que o núcleo contestador sofra erosões. Resistência sempre.
As letras, por mais realistas ou cruas que sejam ao escancarar as mazelas da política mundial, encontram sua voz no caos da roda punk.
O recado é dado de forma clara e carismática. Mesmo aquele fã que se autointitula "apolítico", e que talvez não queira ouvir a mensagem, acaba com cicatrizes mentais provocadas pelo discurso. Através do sarcasmo dentro de uma atitude visceral, a banda oferece uma compreensão profunda das transformações do mundo nos últimos 30 anos. Assim como fazem ao vivo Ratos de Porão e Black Pantera, o Dead Fish também transborda sabedoria, transformando o show em uma aula magistral de consciência e resistência para a eternidade.
Setlist:
Afasia
Linear
Iceberg
Viver
Ad Infinitum
A Cura
Me Ensina
Revólver
No Chão
Reprogresso
Perfect Party
Noite
Proprietários do 3º Mundo
Tango
Autonomia
Urgência
Tão Iguais
Você
Asfalto
Dentes Amarelos
Zero e Um
Queda Livre
Sonho Médio
Bem-Vindo ao Clube
Venceremos
