Fall Out Boy, Yellowcard e Story of The Year fazem alegria EMO reinar no Rio

Foto: Loquillo Panamá

O Green Day teve seu show cancelado abruptamente 15 dias antes de aparecer no gigante estádio Nilton Santos. Com isso, muitos fãs desafogaram suas mágoas na mini versão carioca do festival I Wanna Be Tour.

Depois de meses anunciando que as apresentações nos festivais I Wanna Be seriam as únicas, o Fall Out Boy surpreendeu os fãs ao abrir vendas para um show no Rio de Janeiro, na confortável Farmasi Arena na Barra, com mais duas bandas do evento o Yellowcard e o Story of The Year

A parte superior da arena está coberta por panos pretos. As cadeiras de nível 1 estão esgotadas, e a pista única, chamada de Premium, recebe um público que lotaria uma Fundição Progresso. O palco, no entanto, é gigantesco e utiliza o teto alto da arena para pendurar treliças, ribaltas e canhões de luz suficientes para iluminar uma cidade. Talvez nenhum outro palco da cidade daria a dimensão desejada ao evento. A arena se tornou o melhor local para receber turnês monstruosas no Rio de Janeiro, com recursos infinitos, mesmo que vender 11 mil ingressos tenha se tornado uma tarefa difícil para alguns shows.

Fall Out Boy: o Drama e a Energia de uma Banda Inclassificável no Rio de Janeiro
Foto: Mariana Carvalho
 
A quinta canção do show, "Uma Thurman", é a que finalmente libera a tensão e solta o Fall Out Boy, que vinha de uma apresentação um tanto engessada na noite de quarta-feira, 27 de agosto, na Farmasi Arena, na Barra da Tijuca.
O início de "Uma Thurman" tem como preâmbulo a exibição da bandeira dos Estados Unidos nos telões — a plateia vaia o símbolo norte-americano — seguida de uma máscara de Jason (personagem icônico do filme Sexta-Feira 13), dando um peso teatral à apresentação, que continua com imagens do filme Kill Bill ao fundo. Isso acontece mesmo após a banda já ter desfilado quatro singles famosos ("Love from the Other Side", "Sugar, We're Goin Down", "Grand Theft Autumn" e "A Little Less Sixteen Candles") e uma ampla exibição de pirotecnia.

A performance demorou a decolar, talvez por conta do som abafado ou baixo demais, ou pela maratona acelerada de canções sem tanta interação direta com a plateia. Todas as músicas começam com recursos visuais nos telões e a banda na escuridão. O sistema de som, sem amplificadores no palco, utilizando modelagem digital de amplificadores e efeitos de alta qualidade sonora, permite um desfile seguro e infinito de explosões atrás dos músicos, mas a plateia não enlouquece com a impressionante bateria de efeitos. 

Quatro indivíduos lado a lado parecem não conseguir agitar os mais de 4.000 presentes. O espetáculo, apesar de grandioso, soa um tanto burocrático. Um urso inflável, o mesmo da capa do álbum Folie à Deux, decora o centro do palco, em alusão à canção "Disloyal Order of Water Buffaloes". A empolgação parece mais concentrada na grade, onde os fãs cantam mais alto e fazem um "headbanging" contagiante. Eles estão muito mais animados do que os repetidos "Reach Out" que ecoam pelos alto-falantes do palco. A canção "I Don't Care" cresce gradualmente, enquanto os telões mostram a camiseta do Screeching Weasel que o baixista, Pete, está usando.

Recursos visuais, como telões laterais com introduções, acabam por esfriar o show, talvez para preparar o próximo ato. Fogo e labaredas irrompem, e o baixo ganha um lança-chamas em "The Phoenix", elevando a temperatura da arena, queimando a testa da galera do "gargarejo" e expandindo o calor.

Foto: Mariana Carvalho
 
​O baixista, Pete Wentz , fica animado após "Dance, Dance" e avisa que feriu a coluna há três semanas, agradecendo o público por ter agitado nas rodinhas de pogo durante a canção. Aproveitando o momento, o guitarrista substituto, Max Bernstein, é apresentado, já que o titular, Joe Trohman, passou por uma cirurgia. Gritos e urros ecoam quando o show recomeça, e o telão mostra a ovelha alada, na canção "Bang the Doldrums" do álbum Infinity on High.

​Mais hits em sequência. O show poderia acabar neste instante, pois a banda entregou tudo o que se esperava com devoção, embalando a apresentação com os petardos "This Ain't a Scene, It's an Arms Race" e "My Songs Know What You Did in the Dark (Light Em Up)". Um fogo infernal aquece o local — nem o Mötley Crüe ou o Metallica abusam tanto desse efeito, é praticamente um Rammstein EMO. Depois do fogo, a água surge nos telões em uma versão impecável de "The Last of the Real Ones".
O vocalista, sozinho ao piano, canta com uma voz divina "What a Catch, Donnie", filtrando todo o Elton John possível em um homem 40 anos mais jovem que, talvez, nunca tenha ouvido "Yellow Brick Road". A banda faz a base sonora, e dezenas de emos, weirdos, geeks e millennials abraçam a segunda parte do show. Eles recebem o banho de hits que esperavam, e sorrisos estampados nos rostos celebram os últimos momentos.

É inacreditável que os instantes ao piano sejam os mais cheios de amor, energia e paixão do vocalista, Patrick Stump — talvez um irmão distante de Ed Sheeran e talvez tio de segundo grau de Taylor Swift. Sozinho no palco, ele destila jorros de drama e emoção, soltando finalmente a voz adulta que muitos talvez não associem a ele.

Em uma performance solo impecável, a segunda canção ao piano, "Golden", arrebata a plateia. Com o som de um violoncelista ao fundo e a banda completa, a canção "So Much for Stardust" se torna um híbrido de jazz fusion e trip hop emocore. A inspiração transcendental preenche cada centímetro da arena.

O Fall Out Boy, vendido como uma banda de um único gênero, demonstra que isso não representa a totalidade do drama energético que processa e compartilha. "Thnks fr th Mmrs" já nasceu saudosista? A letra agradecia há mais de uma década pelo que vivemos na noite de hoje. "Obrigado pelas lembranças do passado", diz a letra, e, mesmo 25 anos mais velhos, ninguém apaga essa paixão.
​"Magic 8 Ball" e "Get Busy Living or Get Busy Dying" são apresentadas com as cortinas de um teatro nos telões, e a performance está chegando ao fim.

O baixista faz a mensagem final antes de tirar uma foto com a plateia brasileira: "Se uma banda ruinzinha de Chicago consegue tocar 25 anos depois numa arena no Rio, todos os sonhos são possíveis. Independentemente do que você faça ou do tipo de arte, acredite".

Nos telões, um enorme vórtice mostra todos os logos e simbolismos de anos de videoclipes e capas de disco do Fall Out Boy sendo engolidos por um buraco negro em uma galáxia distante, enquanto a banda canta "Centuries". A luz vermelha marca 23h25, e muitos já deixam a arena. É difícil voltar para casa numa cidade com transporte público complicado como o Rio e seus carros de aplicativo com tarifas dinâmicas. 

O show termina com um excesso de confete e serpentina preto e branco, como manda o manual emo gótico dos anos 2000.Em "Saturday", com Pete no microfone e descendo do palco, outro músico toca o baixo. A serpentina entope o ar, e a visão é de uma chuva cegante.

O Fall Out Boy consegue, em 1 hora e 30 minutos, sair ovacionado e com um aquecimento propulsor, mesmo entrando frio e no modo automático. Foi uma noite emocionante no Rio com os antigos rejeitados da sala de aula. O bullying nos transformou em vencedores.

Yellowcard na Farmasi Arena: Uma Noite Cinematográfica de Emoções
Foto: Loquillo Panamá
 
Independentemente de lotar a casa ou não, a qualidade sonora e o tamanho do palco fizeram o show do Yellowcard algo impressionante para quem pagou pelo entretenimento de ouvir as canções enfileiradas da banda.

Yellowcard, a banda de rock americana formada em Jacksonville, Flórida, oferece uma experiência ao vivo amplificada por recursos luminosos que davam a sensação de estar dentro do imenso palco montado na arena. Centenas de fãs cantavam juntos, criando uma atmosfera vibrante. A apresentação teria lotado uma Fundição Progresso, mas a altura da casa de shows da Lapa não abrigaria a imensidão do palco do "mini I Wanna Be Tour", com seus telões gigantes. A banda, consciente de que seus 60 minutos eram preciosos, soube exatamente o que mostrar em sua nova visita à Cidade Maravilhosa. 

Entraram com a temática cinematográfica e as introduções pré-gravadas nos telões, que permitiram identificar as canções do repertório sem intervalos ou pausas. As músicas "Only One", "Lights and Sounds" e "Breathing" abriram a apresentação. O E.T. de Spielberg foi usado nos telões para interagir com os celulares na arquibancada, mostrando que a banda queria conquistar novos fãs.
Ao som animado de "Way Away", a emoção continuava em alta. O vocalista Ryan Key relembrou a plateia: "O último show grande que fizemos aqui foi em 2006, com o Fall Out Boy, há 11 anos." Ele também anunciou um novo disco, Better Days, com lançamento previsto para outubro, o primeiro em mais de 10 anos. "A sensação ao gravar este álbum é a de estarmos de volta à Warped Tour de 2004", revelou, antes de tocar "Bedroom Posters".

Uma das características mais marcantes do Yellowcard é o violino elétrico de Sean Mackin - um instrumento raro no pop-punk que se tornou a assinatura da banda. Mackin é um dos membros originais, e sua entrada em 1999 foi fundamental para o desenvolvimento da sonoridade única que mistura melodias de violino com guitarras e bateria. A energia contagiante do violinista, quase um músico animador de torcida, agita cada lado do palco com sua voz, gestos e pulos, sendo uma figura essencial na apresentação. A fusão do violino com os outros instrumentos cria o som melódico e agressivo, como se pode ouvir em sucessos como "Ocean Avenue".

A banda apresentou "Awakening" e a faixa-título do novo álbum, Better Days, como penúltimo número da noite. Para o deleite do público carioca, o show foi fechado com seu maior hit, a nostálgica "Ocean Avenue". No final do setlist, cinco canções do álbum Ocean Avenue foram tocadas, incluindo "Believe", "Breathing", "Ocean Avenue", "Only One" e "Way Away".

Story of the Year mostra sua relevância no palco do Rio
Foto: Loquillo Panamá
 
O Story of the Year subiu ao palco na Farmasi Arena visivelmente felizes por estar numa arena na América do Sul. A banda, formada em 1995 em St. Louis, Missouri, trouxe sua conhecida energia ao vivo e rapidamente convenceu os fãs já presentes, mesmo com o show começando cedo, às 19h.

Um momento especialmente emocionante foi durante a canção "Sidewalks", quando o vocalista Dan Marsala viu um banner de uma fã que afirmava que a música era sua religião. A plateia respondeu acendendo as luzes dos celulares, criando um mar de braços que iluminou as arquibancadas.

Com uma formação estável que inclui Ryan Phillips (guitarra), Adam Russell (baixo) e Josh Wills (bateria), o Story of the Year, que foi originalmente chamado de Big Blue Monkey antes de adotar seu nome atual em 2000, tocou um setlist poderoso. A banda, que ganhou grande popularidade com o álbum de estreia Page Avenue (2003), influenciou a cena alternativa e mostrou sua relevância no palco.

O Fall Out Boy, Yellowcard e Story of the Year se apresentam no sábado, 30 de agosto, no Allianz Parque, em São Paulo, no Festival I Wanna Be, junto com as bandas Fake Number, Gloria, Dead Fish, Fresno, ForFun, Neck Deep, Good Charlotte, The Maine e The Veronicas.

Loquillo Panamá

Nômade agregador de ritmos musicais e fanático por shows. Está sempre correndo atrás de novidades para multiplicar e informar os amantes de boa música.

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