COLUNA DO ROCK: SuperStar - perder é o que importa!


Eu abandonei a TV faz tempo. Principalmente com o advento da internet - onde o acesso independe do dia e da hora, e eu não preciso ficar preso àquela grade limitada das emissoras brasileiras - carregada fundamentalmente por novelas, telejornais e shows de auditório. No entanto, é inegável como ela continua sendo o meio de comunicação que mais influencia a opinião popular. Tem gente que só acredita que alguma coisa realmente exista, ou que aconteceu de verdade, quando passa na TV. Oh, fuck Off!

Infelizmente o que algumas pessoas ainda não descobriram, é que tudo não passa de um "Show de Truman", e que a programação nacional é repleta de cretinices. O programa SuperStar então, é um exemplo desse produto falsificado - fraudando diretamente o que seria o seu suposto objetivo. Ali, meus caros, não se revela ninguém. Muito pelo contrário. Quem revela o artista é a cena que ele se insere - ou a rua, falando pejorativamente. Assim como quem revelam os craques do futebol são os campos de várzea, e não os empresários. 

Você quer saber o que está acontecendo de bom? Vá aos festivais independentes, aos shows de bandas que você não conhece, ou leia resenhas e opiniões de especialistas e pessoas envolvidas nas cenas. Ué, mas não tem bandas legais no Superstar? Sim, lógico que tem. Mas é impossível avaliar um trabalho de forma consistente em dois minutos, sem conhecer a origem do artista, a sua proposta, a extensão de suas influências e tudo que serviu de alicerce para ele chegar até ali. Além disso, é um programa de votação popular. Então, se pode tocar cover, esquece tudo isso que eu escrevi sobre consistência e arte. É mais inadmissível ainda que um artista que se leve a sério e/ou que trate o seu trabalho com honestidade venha a se importar com a aprovação e conselhos de gente como Thiaguinho, Sandy e Paulo Ricardo. Uma banda "de verdade" não entra em um programa desses para vencer. Ela entra para ganhar visibilidade - popular, e profissional.

Mas esse texto aqui não é direcionado às bandas. Cada artista que se expresse da forma que achar melhor, e boa sorte! Escrevo especialmente para os que clamam por justiça na decisão dos jurados, ou que pedem mudanças no regulamento. Gente, parem agora! A melhor coisa que pode acontecer com um artista é ele não vencer esse programa. Para início de conversa, a vitória dá ao grupo um contrato com a Som Livre - leram bem? SOM LIVRE! Imaginem as conseqüências nocivas de uma rédea global na arte de um grupo autêntico como a Facção Caipira, por exemplo. Caso tivessem vencido o programa, eles provavelmente seriam remodelados para se encaixar no padrão castrador de empresários, e teriam que ficar reféns de algo que não tem nada a ver com a arte proposta pela banda. Imagine um disco da Facção, banda tradicional de Niterói por misturar rock com elementos caipiras, produzido pela Sandy (uma suposição malvada, seu sei), e que ao invés de gaita, um monte de beatbox (sic.). É sério, isso poderia acontecer. 

Sorte da Facção, e também da Tipo Uísque - que gravou o ótimo Fly High Tonigh Big Wizard esse ano, disco que tem a liberdade como marca registrada. Penso também no pessoal do Suricato - que bateu na trave (ufa!). Eles poderiam estar fazendo trilha de alguma novela das seis com a música mais chata do disco, ao invés de estarem com o nome cravado no line up do Rock in Rio. Aí me lembro também do Fuzzcas, banda dos meus amigos Carol, Lelê e Parracho. O delicioso Feliz Dia de Hoje poderia ter outro sabor - talvez de uma bolacha de água e sal, para servir de modelo para um comercial da Piraquê. 

Ah, e não venham me falar de injustiças, de regulamento e de outras baboseiras. Hello people! Vocês assistiram o primeiro programa dessa edição? O Tianastácia tocou! E você ainda quer discutir justiça?

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Como crítico cultural, foi Editor-chefe e colaborador do Portal Rock Press, e colunista do blog "Discoteca" da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Abril Pro Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Legião Urbana e Titãs.

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