Sobre festivais de rock e a hipocrisia das redes sociais

Os grandes festivais de rock sempre causam polêmica nas redes sociais
Por Bruno Eduardo

É sempre a mesma coisa. Basta um grande festival anunciar suas atrações, que as redes sociais bombam de gente reclamando das supostas escolhas. Que o ser humano adora ter o que reclamar - principalmente o brasileiro - não é novidade para ninguém (quem nunca?). Aliás, refraseando Eddie Vedder, questionar é um dos grandes prazeres da humanidade desde que nos tornamos os primeiros mamíferos a usar calças. O problema - como sempre - são as justificativas. Para os detratores, o Rock in Rio não inova; o Lollapalooza não tem ninguém "grande" que justifique; e o Monsters Of Rock só tinha dinossauros. Todos, argumentos plausíveis, mas feridos por uma incoerência afiada - sangrando sobre uma grossa falcatrua de que existe no Brasil muitas pessoas interessadas em descobrir e incentivar "o novo". Não há. 

Aqui, em solo amado, o público de rock é e sempre foi muito conservador. Todo mundo sabe disso. O Medina sabe, a Rede Globo sabe, e até o ex-presidente Lula sabia (sic). Você acha que as únicas rádios de rock do país só tocam chavões das décadas passadas por coincidência? Já foi época que patrocinadores acreditavam em números e estimativas flutuantes. Hoje, o que vale é onde a marca vai estar - não importando a quantidade de promissórias na maleta. Muito glamour e pouca substância - essa sim, é a nova realidade.


Seria ótimo ver gente consumindo discos novos, indo em shows de bandas que não tocam para multidões e pautando artistas anônimos. Seria lindo ver o rock se renovando em mais um novo movimento juvenil - ou já esquecemos que todas as grandes transformações e revoluções no gênero contaram com o sopro da juventude? Repito: Seria lindo! 


Porém, sabemos que não é bem isso que acontece. Os mesmos colegas que reclamam dos medalhões são os que desprezam as bandas mais novas - utilizando-se, sem qualquer constrangimento, daquela velha e nefasta justificativa: "as da minha época faziam muito melhor" - que ironia, não? Ou pior: dizem que não temos material de qualidade; que não temos cena; que o rock está falido; e desprestigiam a escalação de bandas independentes em grandes festivais - "Lollapalooza? Só Duran Duran interessa", diriam os mesmos. 


Mas e aí, sabe quem paga a conta da festa? Os medalhões, claro! 


Em uma época de economia nebulosa, não há festival no mundo que sobreviva sem grandes headliners. No Brasil então, o cinto aperta até a boca do estômago, visto que o mercado de shows está superfaturado. Com exceção do Rock in Rio (que acontece de dois em dois anos), nenhuma outra marca consegue se bancar por tanto tempo no país. O Lolla vem resistindo há seis anos. O Monsters Of Rock, SWU e o Planeta Terra já sucumbiram. Mas afinal, quantas milhares de pessoas gostariam de ver uma banda como o Swans de headliner do Rock in Rio? Ou o Royal Blood fechando um palco do Lolla? Ou quem sabe, esgotariam a carga de ingressos em uma casa como o Citibank Hall para assistir a sensação do rock americano, Cloud Nothings? Quem se arrisca? Ninguém. Todo mundo quer ver Iron Maiden, Metallica, Guns N'Roses, Foo Fighters, AC/DC e Pearl Jam pela enésima vez.


Sim, embora seja uma afirmação que venha a desferir fundo no coração dos apaixonados pelo gênero, o rock é um produto como qualquer enlatado que você encontra no supermercado. E no Brasil, o consumidor de rock além de pesar pela meia-idade, prefere as marcas mais famosas. Os jovens, que deveriam ser os mais interessados em experimentar o novo, por sua vez não possuem caráter consumista - foram educados ao modelo self service da internet, onde tudo é descartável, e por isso, quase tudo é inflexível.   


Para se ter uma ideia de como a coisa tá indo, até mesmo os festivais regionais como Abril Pro Rock, Porão do Rock e Goiania Noise estão cada vez mais apostando em nomes repetidos - ou gringos - para encabeçar seus casts. Isso sem falar, que ainda há alguns outros que se sustentam há uma década no do it yourself, sem qualquer ajuda de custo dos governos locais - como o Arariboia Rock (RJ) e o Udirock (MG), que sequer possuem condições de pagar cachês para artistas de médio porte (alô prefeituras!).


O rock não é de graça minha gente. Paga quem quer - e quem pode. Então antes de reclamar, façam as contas. Talvez elas não estejam batendo. Exatamente porque quem deveria realmente financiar o show, está em casa, no facebook ou no youtube, ou talvez na fila de compra para mais um show do Metallica no Brasil. It´s Business!

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Como crítico cultural, foi Editor-chefe e colaborador do Portal Rock Press, e colunista do blog "Discoteca" da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Abril Pro Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Legião Urbana e Titãs.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
SOM-NA-CAIXA-2