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A estreia do Killing Joke no Brasil foi o maior acontecimento musical do ano

Jaz Coleman de macacão preto no show do Killing Joke em SP [Foto: Edi Fortini

Por Eduardo Abreu

Há alguns anos, Jaz Coleman, o excêntrico líder do Killing Joke, desapareceu misteriosamente antes de uma turnê com os também ingleses e filhotes do post-punk The Mission e The Cult. Até mesmo os companheiros de banda desconheciam o paradeiro de Jaz, que, semanas depois, mandou notícias desde Lagos, capital da Nigéria. A razão do sumiço? Achara deprimente embarcar no trem da nostalgia oitentista ao lado de bandas que hoje pouco fazem além de se repetir.

Porque o Killing Joke é a antítese desse comodismo retrô. Moderníssimos no final dos anos 1970 e sempre um ou dois passos além de seu tempo, criaram uma obra singular e que dialoga com públicos e mundos diversos. Das pistas de dança repletas de góticos e neo-góticos ao bate-estaca pesado reminiscente do som industrial. No meio disso tudo, espaço para mantras extensos e viajantes, guitarras com texturas e arranjos sutis -Geordie nunca gravou um solo de guitarra em 15 discos-, e temática que vai da bem articulada crítica social a misticismo e teorias apocalípticas.

Esse amálgama transformou o Killing Joke em uma banda tremendamente influente e cultuada. O Metallica os homenageou há 30 anos com uma honesta regravação de "The Wait", retirada do icônico álbum de estreia dos ingleses. Poucos anos depois, Kurt Cobain decalcou o riff do mega sucesso "Come As You Are" da ótima "Eighties". E Dave Grohl, porque o mundo dá voltas, foi tocar com o próprio Killing Joke em 2003, emprestando aquele que é talvez seu melhor desempenho como baterista. As referências e histórias são fartas. O baixista Youth saiu e voltou ao grupo algumas vezes por conta de seu sucesso como produtor, tendo se associado nesse intervalo a gigantes como U2 e Pink Floyd. Jaz Coleman, dono de QI sobrenatural, arrastou a banda toda para morar na Islândia por questões existenciais e esotéricas e, mais tarde, tornou-se regente da prestigiada Orquestra Filarmônica de Praga. Em 1993, gravaram o colossal álbum Pandemonium numa câmara dentro da Pirâmide de Gizé. Nada é trivial quando falamos do Killing Joke.

Mas foram necessários 40 anos para essa entidade baixar na América do Sul. Sim, QUARENTA ANOS. O que fez desse show solitário em São Paulo, com a histórica formação original do Killing Joke, reunida desde 2008, o  maior acontecimento musical do ano. No interior do Carioca Club era possível radiografar os seguidores do grupo pelas camisetas que vestiam: Skinny Pup, New Model Army, Bauhaus, Ministry. E também pelas figuras da cena local que foram prestigiá-los: alguns dos principais jornalistas musicais dos anos 90, proprietários de outras casas de shows e de famosas lojas de discos. As luzes baixam e surge o tema de Jocelyn Pook para a famigerada cena do baile de máscaras de “Eyes Wide Shut”, derradeiro filme de Stanley Kubrick.

Banda inteira em perfil, para delírio dos fãs brasileiros [Foto: Edi Fortini]
E o Killing Joke sobe ao palco para fazer história. Jaz Coleman, de macacão preto, abre os braços em formato de cruz. E sem medo de errar, a banda entrega, de cara, o maior sucesso comercial de sua carreira: a belíssima “Love Like Blood”. Som cristalino e cientificamente equalizado. Uma aula de áudio. Segue-se “European Super State”, uma joia com teclados kraftwerkianos, para transformar o lugar numa grande pista de dança. Jaz, uma força bruta da natureza, magnetiza a plateia. Diz que não há nada mais lindo que a liberdade e que aquele pedaço de terra onde estávamos era uma zona livre. E vamos de “Autonomous Zone”, do mais recente álbum, Pylon

Com o público na mão, o Killing Joke não economiza e bota a casa abaixo com “Eighties”, possivelmente a faixa mais saudada da noite. Jaz pergunta se alguém gostou do resultado das últimas eleições presidenciais americanas, num aceno ao atual momento político do Brasil. O público pareceu confuso em se manifestar. E a banda apropriadamente emendou com “New Cold War”. E que poderio sonoro! “Requiem” vem para o primeiro momento atmosférico da noite, com o gigante Youth – de blazer, viseira preta e dreadlocks –, entregando seu groove poderoso. 

Follow the Leaders” tem mais um breve recado político de Jaz e aparece surpreendente, pinçada do velho e precioso catálogo do grupo, mas revigorada e pronta para por todo mundo pra dançar. Outra relíquia vem em seguida: “Bloodsport”, do tribal e inclassificável primeiro álbum. A partir desse momento, o show envereda pelo lado mais pesado do Killing Joke e que abarca principalmente a produção dos últimos 15 anos. Geordie, reserva moral do post-punk, com seu famoso quepe de pracinha do exército, confunde as cabeças extraindo peso e distorção de sua icônica Gretsch semiacústica. 

Loose Cannon” e a apocalíptica “Asteroid”, relembram o disco homônimo de 2003, e Paul Ferguson, que influenciou muitos bateristas dando o toque tribal ao Killing Joke, não tem dificuldades em tocar esse repertório que teve, originalmente, os préstimos de um inspirado Dave Grohl. Antes de “Corporate Elect”, Coleman lembra que todos os anos uma área equivalente à Portugal é desmatada na Amazônia, e que isso parte seu coração.

O grupo sai do palco após executar 15 canções demolidoras. Na volta para o bis, Youth, que além de tudo é comparsa de Paul McCartney no duo The Fireman, revela seu amor pelo Killing Joke: “Essa banda me proporcionou 40 anos de pura alegria”. E recebe um abraço do chapa Jaz Coleman. Revisitam mais uma vez o ano de 1980 com “Primitive” e “Wardance”, e encerram a apresentação de maneira absolutamente acachapante com “Pandemonium”. A canção densa e xamânica gera uma autêntica parede de som que ocupa cada fresta da casa de shows. 

Jaz vibra, de olhos arregalados e vivos, e manda beijos e abraços antes de sumir em meio ao gelo seco com seus colegas de uma vida.

Obrigado Killing Joke!

Um comentário:

  1. Foi sensacional! Pura alegria estar presente neste show. Valeu a pena ter saído do interior de São Paulo e viajar 180 km para ver estes deuses da boa musica.

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