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Saiba como foi o evento em comemoração aos 40 Anos de Punk no Sesc Pompeia

Encontro comemorou também os 35 anos do festival "O Começo do Fim do Mundo"
Por Ricardo Cachorrão Flávio

Novembro de 2017, e o templo sagrado conhecido como Sesc Pompeia abre as portas para a comemoração dos 40 anos do movimento punk, e os 35 anos da realização do festival e gravação do mítico disco “O Começo do Fim do Mundo”.

Tomando por base sua explosão, marcada com o lançamento, em 1977, dos discos “Never Mind the Bollocks – Here’s the Sex Pistols” e “The Clash”, neste ano temos a comemoração de quatro décadas ininterruptas de contestação do punk, um movimento que desde sempre dita regras, mudou estética, comportamento e fez da música algo acessível e possível a qualquer um, através do “faça você mesmo”.

Mas, é fato que há mais tempo que os 40 anos comemorados, em várias partes do mundo, o ideário punk já pulsava! Se nos Estados Unidos os Ramones já faziam barulho desde 1974, nos subúrbios de São Paulo, jovens inconformados andavam em bandos com suas jaquetas pretas, ouvindo “rock pauleira” e, por volta de 1975/76, já eram punks, mesmo antes do termo ser cunhado.

E, antes de dizer como foram as comemorações, faz-se necessário falar sobre a instituição Sesc, que sempre foi totalmente aberta a todos os tipos de manifestações culturais em todas as suas unidades! Seja mainstream, seja alternativo, sempre terá música, literatura, teatro, artes plásticas, saúde, boa alimentação, educação, esportes, lazer de todo tipo, para todos os públicos e idades, com preços baixos ou muitas vezes de graça. E, especificamente na unidade Pompeia, também multicultural como todas as outras, o punk tem um espaço especial desde sempre! Essas paredes já abrigaram tanta coisa importante do movimento punk, que pode ser chamado de casa!

Pois bem, a festa teve início de modo tímido, na sexta-feira, 18/11, com shows de nomes mais recentes do punk nacional, que possuem o seu público, mas não é o mesmo que queria comemorar 40 anos de festa, que foram os curitibanos do SUGAR KANE, na estrada desde 1997 e os paulistanos do QUESTIONS, desde 2000 como representantes de uma vertente mais pesada, um crossover de hardcore com metal.

A festa para a velharada começou na quinta-feira seguinte, 23/11, com dois nomes clássicos do punk brasileiro: LIXOMANIA & RATOS DE PORÃO, duas bandas que participaram do festival O COMEÇO DO FIM DO MUNDO, em 1982, cujo disco tosquíssimo gravado naquele ano acabou de ganhar uma caprichadíssima reedição, limitada, que conta com faixas bônus e um material gráfico impressionante, a cargo do selo Nada Nada Discos, que vem deliciando colecionadores de todos os cantos com vários relançamentos em vinil, 7”, 12” e cassete!

A LIXOMANIA subiu primeiro ao palco, com uma formação que já está bem azeitada e vem fazendo a alegria dos amigos há alguns anos, que trás Mauro Moreno no vocal, Rogério Martins na guitarra, o excelente ex-garoto, agora responsável pai de família, Luiz Cecílio no baixo e o veterano Miro de Melo na bateria. A banda trás seu velho repertório que vem desde o compacto “Violência & Sobrevivência”, de 1982, além de outras faixas conhecidas, presentes no disco “Não, Obrigado!”, de 2005, e apresenta faixas inéditas que farão parte de um novo disco que está sendo preparado pelos rapazes. Fazem seu papel, show da Lixomania é garantia de diversão e energia, e como boa surpresa, ainda tivemos a participação do Jão, guitarrista dos Ratos de Porão e do Periferia S/A dividindo os vocais com Moreno em “O Punk Rock Não Morreu” – e nunca morrerá.

Os RATOS DE PORÃO estão num estágio de profissionalismo impressionante, João Gordo, Jão, Juninho e Boka fazem um show para não deixar pedra sobre pedra. Sem lançar disco desde 2014, com o ótimo “Século Sinistro”, os Ratos são provavelmente a banda brasileira mais conhecida e bem sucedida do estilo, e recentemente estiveram fazendo mais uma turnê europeia, mas também uma animada turnê pela América Latina, os caras tem méritos e respeito. No show tocaram faixas de toda a carreira, mas em festa de punks velhos, foram as faixas do primeiro disco, “Crucificados Pelo Sistema”, que mais agitaram.

A sexta-feira foi de duas bandas que não participaram do festival de 1982, porém, estão na história como as primeiras bandas punks do Brasil, RESTOS DE NADA e AI-5, relembrando aquele que, dizem, foi o primeiro show do estilo no país, organizado pelo saudoso Kid Vinil, no porão de uma padaria, com chão de terra batida, no Jardim Colorado, Zona Leste de São Paulo, isso em 1979.

O AI-5 é uma das bandas mais obscuras de que se têm notícias, em atividade entre 1978 e 79, gravou uma fita demo precária e sumiu do mapa. Voltou a ser falado em 1995, quando os Ratos de Porão regravaram a faixa “John Travolta” em seu álbum de covers “Feijoada Acidente” e depois quando a mesma música, agora na versão original, apareceu na trilha sonora do documentário “Botinada – A Origem do Punk no Brasil”, de Gastão Moreira.

Eis que em 2017, a banda ressurge, graças, principalmente, ao guitarrista Fausto Celestino, único membro da formação original da banda, que após o término dela fez parte de outra banda icônica, o Centúrias, pioneira no heavy metal nacional e ao Sr. Luiz Calanca, dono da loja e selo Baratos Afins, que tanta coisa já fez pela música brasileira e não para nunca, desta vez lançando em CD aquela fitinha demo que o AI-5 havia deixado perdida lá atrás.

Contando com, além de Fausto, o vocalista Memmeth, Fábio “Sarjeta” Rodarte no baixo e o baterista Marcelo Ladwig, o AI-5 empolgou o público do Sesc Pompeia com o repertório da fita / CD e teve uma pequena participação do jornalista e baterista Régis Tadeu. Excelente aquecimento para a avalanche que estava por vir.

A banda RESTOS DE NADA acabou oficialmente em 2013, com o falecimento precoce de seu guitarrista e fundador Douglas Viscaino, porém, este ano apareceu a oportunidade de um show-tributo no Centro Cultural São Paulo com 50% da banda original, o vocalista Ariel Uliana e o baixista Clemente Nascimento, aquele mesmo dos Inocentes e da Plebe Rude, acompanhados de Luiz Abbondanza na guitarra e Nonô, dos Inocentes, na bateria. O show foi um sucesso estrondoso e resolveram repetir a dose agora nesta celebração do Sesc Pompeia. Sorte de quem presenciou.

Calcada nas letras existencialistas de Clemente, Ariel e Douglas e no som curto, rápido e certeiro, que em 1978 pode ser chamado de um precursor do que viria a ser chamado de hardcore, o show do Restos de Nada é uma celebração que conta com clássicos do punk rock, como “Somos Todos Escravos de Um Balde de Lixo”, “Deixem-me Viver”, “Estrutura de Bronze” ou, talvez a música símbolo do que é o punk rock no Brasil, “Desequilíbrio”, letra do Índio, do Hino Mortal e Condutores de Cadáver, e melodia do Douglas, que encerrou o show de forma apoteótica, com o palco completamente lotado de punks cantado junto até o final. Emocionante!

O sábado veio com bandas que vieram depois da explosão do punk rock, fortemente influenciadas por ele, mas com sonoridade diferenciada, foi a noite pós-punk, dos ótimos PATIFE BAND e AS MERCENÁRIAS.

Liderada por Paulo ‘Patife’ Barnabé e formada por exímios instrumentistas, a banda faz uma mistura de ritmos que incluem o punk rock, com pitadas eruditas e forte pegada jazzística. Se não agradou aos punks mais radicais presentes, foi um prato cheio para quem gosta de música bem executada. Com repertório calcado no excelente álbum “Corredor Polonês”, de 1987, “Poema em Linha Reta”, “Pregador Maldito”, “Tô Tenso” (outra que os Ratos de Porão regravaram no “Feijoada Acidente”), “Big Stomach” ou a ótima versão de “Vida de Operário”, dos Excomungados, fez os fãs felizes. Grande show!

AS MERCENÁRIAS hoje é um trio que traz a baixista / vocalista Sandra Coutinho como única participante original da banda, muito bem acompanhada pela guitarrista Marianne Crestani e pela baterista Pitchu Ferraz, velha conhecida que apareceu de volta à banda. O show tem músicas presentes nos clássicos álbuns “Cadê as Armas” (1986) e “Trashland” (1987), além de várias outras gravadas em demos,a apresentação das meninas é pesada e acelerada, e sempre empolga cantar com elas que “a polícia vem, a polícia vai... a polícia vem, a polícia vai... onde não é chamada”!

Domingo, 26 de novembro de 2017: um dia para ficar na história do punk rock brasileiro! Como foi dito lá no alto, o selo NADA NADA DISCOS, depois de ter feitos reedições luxuosas de inúmeros clássicos, como a coletânea “SUB”, o compacto “Violência e Sobrevivência”, da Lixomania, o “Miséria & Fome”, dos Inocentes, ou as demos das Mercenárias, tudo em vinil, agora acaba de relançar o disco “O COMEÇO DO FIM DO MUNDO”, gravado no mítico festival de 1982, que completa 35 anos agora.

Para tanto, o festival original foi recriado por quem fez parte, desde a réplica do pano de fundo de 1982, até os músicos que se revezaram no palco para tocar o álbum na íntegra! Foi uma festa bonita, emocionante! A “banda fixa” foi formada por Clemente Nascimento (Inocentes) na guitarra, Mingau (do Ultraje a Rigor, e que na época do festival, era guitarrista dos Ratos de Porão), no baixo e Muniz, baterista do FOGO CRUZADO, que abriram a festa com “Pânico em SP”, clássico composto por Clemente.

É uma pena que muitos músicos originais desapareceram, uns morreram, outros caíram no mundo, mas quem ainda continua na ativa, ou não, mas foi localizado, abrilhantou o espetáculo. Mauricinho, vocalista dos Inocentes na época do disco “Grito Suburbano”, em 1982 fazia parte da banda JUÍZO FINAL, e subiu ao palco para cantar a música “Liberdade”.

Na sequência, os vocalistas Wagnão e Anderson mandaram bem em “Faces da Morte” e “Anarquia Organizada”, faixas de sua banda DOSE BRUTAL! Moreno, da Lixomania, na época tinha saído da banda, mas participa deste show cantando músicas de algumas das bandas não localizadas e manda em várias entradas e saídas do palco sons dos Desertores, Negligentes, Passeatas e Psykoze.

O conhecido Ronaldo Passos, guitarrista dos INOCENTES, sobe e explica que no festival original tocava na banda NEURÓTICOS, e como foi o único localizado, coube a ele cantar “Careca”, e mandou muito bem! Clemente que se cuide nos Inocentes! 

Chega a vez de Kiss, vocalista do FOGO CRUZADO subir ao palco depois de muitos anos e cantar três músicas da banda, “Ratos do Esgoto”, “União Entre os Punks do Brasil” e “Desemprego”, essas duas últimas com a participação dos atuais guitarrista e baixista da banda, Ari Baltazar (também da banda 365) e Anselmo Monstro (também dos Inocentes), foi um grande momento, quando também lembraram da recente morte do baixista Frango.

Na sequência, sobe Barata, vocalista do DZK, para cantar “Decadência Social”, da banda DECADÊNCIA SOCIAL, que era o DZK original, que da atual formação tinha apenas o baterista Macarrão, e depois trocou de nome. Indião, do HINO MORTAL é chamado ao palco e manda “Câncer”, na sequência chamando Ariel para dividir os vocais em “Desequilíbrio”. Alê, da LIXOMANIA é o próximo, faz discurso, dá seu recado de agradecimento e manda aquela “música de punk pra punk”, canta “Punk!”, jogo ganho.

A ‘mestre de cerimônias’ do evento é a Tina Ramos, que faz todas as apresentações entre uma música e outra, ela é esposa de Ariel e punk velha conhecida de todos, que em 1982 era a ‘repórter punk’ que estava trabalhando no festival, a pedido do escritor Antônio Bivar, um dos responsáveis pela abertura do Sesc ao movimento.  Tina chama ao palco as SKIZITAS, Lila e Lucinha, que cantam “Todos Juntos Lutar”. Ariel retorna e faz uma homenagem ao amigo Zorro, compositor, baixista que era da banda M-19, falecido há pouco mais de um ano e canta “19 de Abril”.

Os INOCENTES originais, com dois vocalistas, sobem ao palco: Mauricinho e Ariel, Clemente no baixo e Callegari na guitarra. Faltou o baterista Marcelino assumir as baquetas, estava presente, mas não tocou.

Mingau vai embora e quem assume o baixo é o Val, do CÓLERA, que sobe com Pierre na bateria e Wendel no vocal, quando tocam algumas faixas com Clemente na guitarra. Logo após, sobem Fabião, do OLHO SECO e Vladi do ULSTER.

O show vai chegando ao fim, o palco é uma festa só, está repleto de amigos confraternizando, mas ainda faltava ouvir RATOS DE PORÃO, então Betinho, baterista original e quem deu nome à banda, canta “Vida Ruim”, com palco lotado.

A festa acabou e é difícil descrever tudo o que aconteceu nesta noite, 40 anos de punk rock, e como sempre diz o Ariel, “ainda estamos em movimento”! Que a inconformidade, a rebeldia e a luta, durem muito mais.

4 comentários:

  1. Um festival Punk verdadeiro perfeito , é claro teve esta resenha perfeita.... punks em movimento...

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  2. O deve ter sido muito bom com toda essa galera da antiga, parabéns pelo evento. O Muniz e o Kiss me convidaram para estar lá, mas não consegui chegar. Fui integrante do Fogo Cruzado, no início. Saudades da Tina, Lucinha, Lila, Calegari, Clemente, Mingal, enfim, são muitos nomes, deixo um abraço e desejo muita sorte e saúde pra continuar firme e forte. Tudo de bom. (Ex/Beca/Luis) Valeu, espero pelo próximo. Fui!

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  3. Imperdivel ...historico ....
    Logo mais tera outros ..
    Eventos de longa vida

    VIDA LONGA AOS PUNK'S

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