sábado, 30 de abril de 2016

Discos: Bob Mould (Patch The Sky)

Foto: Divulgação
Veterano: Bob Mould lança mais um disco inspirado
BOB MOULD
"Patch The Sky"
Merge Records; 2016
Por Luciano Cirne


Costumo comparar Bob Mould com aquele jogador de futebol que é considerado pela torcida o amuleto do time. Da mesma maneira que o atleta discreto que só alguns com olhar mais clínico conseguem enxergar o verdadeiro potencial não decepciona e resolve a parada na hora que precisa mostrar a que veio, assim é Robert Arthur Mould. Músico com um talento único para compor canções que grudam no ouvido, desde quando despontou no cenário musical nos anos 1980 a bordo do cultuado Hüsker Dü faz um punk rock com tinturas folks distinto tanto pelo timbre único da voz e da guitarra como também pela honestidade. O fato é que poucos artistas demonstram tanta sinceridade, intensidade e sentimento quanto este senhor quase sexagenário. 

A questão do sentimento - citado no parágrafo anterior - é fator crucial para entendermos e assimilarmos melhor "Patch The Sky". Entenda: o álbum anterior, "Beauty And Ruin" [leia a resenha AQUI], foi influenciado negativamente pela perda do pai e, após o seu lançamento, quem veio a falecer foi sua mãe. Ou seja, Patch The Sky se torna ainda mais sombrio e reflexivo que seu antecessor. A diferença aqui, é que ao mesmo tempo em que lamenta os infortúnios vividos, ele sutilmente exalta seus companheiros de conjunto - o baterista Jon Wurster e o baixista Jason Narducy (músicos que o acompanham desde o aclamado álbum "Silver Age", de 2012) - como se agradecesse a eles por não tê-lo deixado sucumbir e como se quisesse mostrar a todos que a música que fazem é o que o impede de afundar e cair na depressão.

Assim como em Beauty And Ruin, a faixa de abertura é um pouco mais lenta e melancólica (no caso, ela é também o primeiro single "Voices In My Head") e pode causar uma impressão inicial errada, principalmente nos ainda não iniciados. Mas logo em seguida, porradas como “Lucifer And God”, a curta e crua “Hands Are Tired” e a nervosa “You Say You” desfazem quaisquer possíveis mal-entendidos, mostrando bem como apenas uma guitarra suja, nas mãos de pessoas criativas e talentosas como Bob Mould, pode valer por uma verdadeira parede sonora. Vale destacar também as belíssimas “Losing Sleep” e a faixa final “Monument”, autênticas aulas de como fazer arranjos de bom gosto.

Resumindo, "Patch The Sky" é, talvez, o álbum menos consistente de Bob Mould dessa nova fase como power trio, mas convém ressaltar que um álbum razoável dele com certeza coloca 98% da insípida cena rock atual no chinelo; muita banda meia-boca por aí daria um braço e uma perna por essas canções, e também, vamos falar a verdade: Bob Mould não precisa provar mais nada para ninguém. Passam-se os anos e este senhor, que foi o marco zero para todo o cenário alternativo americano, continua cada vez mais relevante. Ah, e respondendo a pergunta que ele faz logo aos primeiros acordes de “Voices In My Head”, sim, é perfeitamente possível achar beleza no meio do barulho, ainda mais quando o barulho é você quem compõe! Caia dentro sem medo!

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