sábado, 25 de outubro de 2014

Discos Odiados Que Amamos: Bruce Dickinson (Balls To Picasso)

Foto: Bruce Dickinson / Balls To Picasso

Por Bruno Eduardo

Revendo qualquer um dos shows do Iron Maiden na turnê de Fear of the Dark, é fácil constatar que Bruce Dickinson já tinha mais do que o suficiente. Ele parecia submerso por seus próprios desejos e obrigações. E por mais que não quisessem admitir, Dickinson e o Maiden precisavam realmente se separar. O ritmo implacável de doze anos ininterruptos - com nove álbuns e centenas de shows - colocou a banda no topo do mundo. Mas - como era esperado - o grupo envergava com a chegada dos anos noventa.


Com o grunge limpando o metal do mapa mainstream, o Iron Maiden passava por uma grave crise de identidade. Havia uma tentativa de ousadia, com riffs simplificados, e um esforço grotesco de se levar a sério. O resumo da proposta veio em dois discos irregulares (No Prayer For The Dying e Fear Of The Dark). A ópera vocal de Bruce já dava lugar às melodias rasgadas de um hard rock ("Holy Smoke", "Be Quick Or Be Dead"), evidenciando assim a vontade de percorrer novas trincheiras. A saída era inevitável. Porém, a separação não foi tão amigável quanto pareceu na época. Nicko McBrain criticou a atitude de Bruce, dizendo que ele abandonou a banda em um momento crucial - o baterista foi o único que se colocou publicamente sobre a saída do Dickinson. 


Balls to Picasso soa muito mais antiquado e sisudo se comparado ao vibrante e divertido Tattooed Millionaire (1989) - disco que ele lançou paralelamente à carreira com o Maiden. Embora não pareça, isso era um bom sinal de que a saída iria fazer sentido. Livre de qualquer modelo pré-estabelecido, e viajando em águas mais rasas, o - na época - ex-vocalista do Iron Maiden queria se levar a sério mostrando que Balls To Picasso não era uma aventura qualquer - como foi o caso do já citado Tattooed Millionaire. O único sucesso do disco foi uma balada divina, de quase 7 minutos, permeada por violões e uma letra quase brega (Tears Of The Dragon). O produtor Keith Olsen disse que Bruce queria fazer algo completamente diferente, e que uma das exigências era não ter nada de heavy metal no disco.


Do ponto de vista estritamente musical, os arranjos de Balls to Picasso são simplórios. No entanto, quase todas as faixas se salvam de uma suposta mediocridade criativa pela pura e brilhante performance vocal de Dickinson - o que fica provado logo na faixa de abertura do álbum, "Cyclops".  


Artisticamente, Balls To Picasso é certamente o disco menos relevante de sua carreira. O sucessor Skunkwors é bizarro mas corajoso, atrevido. Já Balls To Picasso é um disco que se acomoda no talento de Dickinson - a grande virtude é que acerta em cheio. "1000 Points Of Light" é derivado de um Living Colour (com um pitada estranha de funk-metal). "Laughing In The Hiding Bush" é construído por um riff matador - aliás, os riffs de guitarra do álbum são simples e certeiros; já "Sacred Cowboys" é uma reminiscência do hard rock-infundido de Tattooed Millionaire. 


Há vários momentos recriados pelo cantor que poderiam soar fake para um disco de hard rock, mas Dickinson é tão convincente ao longo de todas as canções que quase nunca nos importamos com o estilo abordado. 


De qualquer forma, anos depois ficou claro que Bruce e Iron Maiden precisavam um do outro. Na verdade, o Iron Maiden precisava muito mais. Já que Dickinson tinha acabado de lançar dois de seus melhores álbuns da carreira (Accident Of Birth e Chemical Wedding). Só que nenhum disco soa tão rejuvenescedor para o vocalista quanto Balls to Picasso. Em 2014, o álbum representou uma década de independência de Bruce Dickinson. Embora não tão brilhante quanto qualquer obra da donzela, Balls To Picasso é a golfada de ar fresco de um dos maiores cantores da história.

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