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| Foto: Marcelo Alves |
Dois EPs lançados, shows surpresa pelas ruas de Dublin, na Irlanda, um novo álbum anunciado para novembro e uma turnê anunciada com passagem pelo Brasil em março do ano que vem. O U2 definitivamente não quis passar despercebido no ano em que comemora 50 anos de carreira. Ainda que não seja uma unanimidade no país, o U2 é uma espécie de patrimônio da Irlanda. E foi em um estúdio de Dublin que tudo começou para os então jovens Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton. Estamos falando do Windmill Lane Recording Studios, a casa em que o grupo gravou, na íntegra ou em partes, 12 dos seus 15 álbuns de estúdio.
Atualmente situado na Ringsend Road, em Dublin, o Windmill Lane foi fundado em 1978 por Brian Masterson e James Morris na rua que dá nome ao estúdio, no cais da capital irlandesa. Ou seja, o estúdio nasceu praticamente junto com a banda mais famosa da Irlanda.
Rock on Board esteve em Dublin para visitar o Windmill Lane, ouvir as histórias curiosas e as lendas do estúdio que são até hoje contadas no tour guiado que pode ser feito por qualquer fã de música que esteja de passagem pela capital irlandesa. Entretanto, já fica a dica para os que quiserem visitar o local. É bom agendar com antecedência pelo site do estúdio. Além de o tour guiado ter poucas vagas e horários disponíveis, você sempre pode ser frustrado se chegar de surpresa ao local. Seja por não haver vagas disponíveis, seja porque especificamente naquele dia o Windmill Lane pode estar reservado para algum artista realizar uma gravação. Foi o que aconteceu comigo. E sequer me revelaram o artista que ia aparecer por lá.
O diferencial da mesa de mixagem
Além das histórias envolvendo os artistas que por lá passaram, um dos pontos que o estúdio mais se orgulha de incluir nas suas histórias ao longo da visita é o diferencial que ele apresenta nos seus equipamentos de gravação presentes nos três estúdios. Especialmente a mesa de som.
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| Foto: Marcelo Alves |
Uma das estrelas do local é a enorme Neve VR Legend de 72 canais que é vista no estúdio 1 do Windmill Lane, que combina a sonoridade analógica com automação de mixagem, que deve fazer a alegria de um engenheiro de som e ainda permite a quem está no estúdio, que é o maior do local, trabalhar com uma produção muito grande e que envolva bateria, muitos microfones, guitarras, baixo, teclados, percussões e até orquestras. Segundo o guia que nos acompanhou na visita, quando esteve em Dublin para mixar o álbum But Here We Are (2023), do Foo Fighters, Dave Grohl achou o equipamento tão incrível por sua combinação entre uma mesa que é essencialmente analógica, mas com determinadas combinações de controle realizadas por um sistema digital, que tentou comprá-la para levar para seu estúdio em Los Angeles, na Califórnia. O Windmill Lane, obviamente, disse que não.
Além da grande estrela no estúdio 1, o estúdio 2 conta com uma SSL 4000 G+, muito comumente usada para dar uma pegada mais agressiva e definida em canções de rock e pop. Foi neste lugar que gravaram artistas como U2, Ed Sheeran e David Bowie, por exemplo.
Menor dos três estúdios, o terceiro conta com uma mesa 100% digital fazendo com que um dos diferenciais do Windmill Lane seja o fato de ser um local com três gerações de filosofia de estúdio diferentes entre si: uma analógica de grande formato no estúdio 1, uma analógica clássica no 2 e uma superfície de controle digital integrada ao Pro Tools no 3. É no estúdio 3 também que o visitante tem a chance de aprender a mixar uma música pré-gravada, combinando os sons de guitarra, baixo, bateria e voz de uma banda e entendendo na prática como funciona um pouco o trabalho de um engenheiro de som.
Casa do U2 e de álbuns clássicos
O Windmill Lane se orgulha muito de fazer parte da história do U2. Foi nas antigas instalações do estúdio que a banda gravou o seu primeiro álbum, Boy (1980), e para onde o grupo voltou para gravar October (1981), War (1983) e partes do Joshua Tree (1987). No novo endereço, o grupo gravou partes do Achtung Baby (1991), Zooropa (1993), Pop (1997) e All that you can´t leave behind (2000), entre outros. O estúdio virou uma espécie de casa espiritual do grupo. Pelo menos até ele ter o seu próprio estúdio, o Hanover Quay, também localizado em Dublin, e onde foram gravados All that you can´t leave behind e How to Dismantle an atomic bomb (2004). O Hanover Quay, aliás, não é mais utilizado pelo grupo e há planos de transformá-lo num museu e centro de exposições dedicados ao U2, mas o projeto nunca foi a frente.
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| Foto: Marcelo Alves |
As histórias mais folclóricas envolvendo o U2 tem mais relação com o antigo endereço. É o caso da gravação do álbum Boy, quando o produtor Steve Lillywhite achava que a sala de gravação normal não dava a ressonância certa para a bateria. Como solução, eles montaram a bateria de Larry Mullen Jr. na área da recepção e no vão das escadas, fazendo a banda gravar apenas à noite, quando os telefones paravam de tocar e os funcionários já tinham ido para casa.
Mas o local atual do estúdio, que foi inaugurado em 1990, também tem sua cota de histórias interessantes. Com escadas apertadas, o estúdio teve que ser criativo para mover a sua enorme e pesada mesa de mixagem para o local do estúdio 1. A solução? Quebrar a parede do lado de fora e içar com um guindaste a mesa do lado de fora até o local. Hoje no local onde a parede foi quebrada há uma janela com uma vista para uma garagem de ônibus de Dublin vizinha ao local.
Essa janela, aliás, foi muito aproveitada na década de 1990 por Mick Jagger. Era ali que o cantor dos Rolling Stones parava para beber um café antes das gravações do álbum Voodoo Lounge (1994). Devia ser algo muito curioso ver Jagger observando a garagem de ônibus e, do lado de fora, os motoristas vendo Jagger ali sentado.
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| Foto: Marcelo Alves |
As histórias da gravação deste álbum dos Stones, aliás, não param por aí. A gravação do álbum demorou mais do que o que normalmente vemos hoje em dia porque frequentemente os Stones, em especial o guitarrista Ron Wood, interrompiam os trabalhos para jogarem sinuca. Havia no local uma mesa instalada no último andar que pertencia ao estúdio. A mesa de sinuca não está mais no local, mas a história é é contada como uma grande curiosidade pelo guia que nos acompanhou. Assim como o fato de que Charlie Watts gravou a bateria na escadaria do estúdio. Pelo visto colocar a bateria nas escadas era uma tendência nos anos 1980 e 1990.
Se a mesa de sinuca não existe mais, o estúdio pode exibir com orgulho o piano de cauda Steinway que foi usado por David Bowie durante as gravações do seu projeto paralelo Tin Machine entre os anos 1980 e 1990.
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| Foto: Marcelo Alves |
O piano está no estúdio 1, cuja porta de entrada tem a assinatura e comentários de diversos artistas que passaram por lá para gravar como Bruce Springsteen, David Bowie, The Cranberries, Spice Girls, Depeche Mode, Lady Gaga e, claro, o U2. Inclusive, o estúdio reservou um espaço somente para as assinaturas do guitarrista The Edge que fica, na borda, no limite (edge, em inglês) da parede. Não deixou de ser uma decisão espirituosa e boa para contar como piada durante a visita.
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| Foto: Marcelo Alves |
Além de álbuns do U2 e do já citado Voodoo Lounge, dos Stones, o Windmill Lane também foi a casa onde foram gravados alguns álbuns importantes da história da música. Em especial da música irlandesa Foi lá que os Cranberries, talvez a segunda banda mais importante da Irlanda, gravou seu primeiro álbum, Everyone Else Is Doing It, So Why Can’t We? (1993), que tinha músicas como Linger e Dreams, e To The Faihfull Departed (1996), terceiro disco do grupo, que continha Salvation e Free to Decide.
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| Foto: Marcelo Alves |
Kate Bush gravou partes de Hounds of Love (1985) no antigo Windmill Lane enquanto o AC/DC esteve lá em 1990 para gravar Razor´s Edge. O estúdio também foi o local de gravação da trilha sonora do filme The Commitments (1991) e do segundo álbum da banda irlandesa The Coors, Talk on Corners (1997). Outra banda importante que passou pelo local foi o R.EM., onde gravou o álbum Reveal (2001).
Estes são apenas alguns dos artistas que passaram pelo icônico estúdio de Dublin, local que é uma das casas do rock na Irlanda.







