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| Foto: Acervo - Distravaätravä |
De
vez em quando, chega um pacote que é mais do que um punhado de discos. Foi o
que aconteceu quando meu amigo Foca, da UNDERSHOWS, me enviou alguns dos
lançamentos que passaram por suas mãos. Entre eles, três compactos de 7” que,
apesar de diferentes entre si, carregam uma característica em comum: nenhum
deles está disposto a fazer concessões.
DISTRAVAÄTRAVÄ, SUBVERMES e TRÁGICO
chegam em vinil com discursos diferentes, sonoridades próprias e suas
respectivas formas de indignação. São seis faixas de cada lado? Não. São três
pequenos manifestos de poucas faixas, diretos ao ponto, daqueles que não
precisam de muito tempo para deixar o recado.
E
talvez o mais interessante esteja justamente no modo como esses discos chegam
às nossas mãos. Nenhum deles é fruto de uma estrutura gigantesca. Pelo
contrário: são lançamentos viabilizados pela união de selos independentes, numa
espécie de cotização que mantém funcionando uma engrenagem que o mercado
tradicional há muito deixou de alimentar.
DISTRAVAÄTRAVÄ: ódio sem maquiagem
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| Distravaätravä - Foto: Divulgação |
Começo citando os créditos do compacto, que já funcionam como uma declaração de princípios:
“Não queremos reconhecimento nenhum, nem
agradecemos ninguém, o punk só existe porque o mundo é um lugar miserável e
violento que nos enche de ódio e nunca vamos aceitar.”
E
é isso que o DISTRAVAÄTRAVÄ
apresenta em “Kaos Total”: seis
faixas de puro ódio ao sistema e ao mundo que os cerca.
Os
próprios títulos antecipam o conteúdo: “Morte
às Autoridades”, “Punk de Rua
(Revolta e Loucura)”, “Multidão
Enfurecida”, “Guerra Contra os Pobres”,
“Soldado do Crime” e “Kaos Total”.
Musicalmente,
a banda aposta num hardcore violento, cru e sem qualquer preocupação em
amenizar as pancadas. O som me remete diretamente às bandas finlandesas do
início dos anos 1980, como Terveet Kädet,
Riistetyt, Kaaos e Rattus. É aquela
combinação de velocidade, sujeira e urgência que parece ter sido feita para ser
ouvida em volume alto.
O compacto foi prensado em
vinil vermelho e traz as letras na capa. E há um detalhe que merece destaque: o
lançamento foi realizado através da cotização de 22 selos independentes. Vinte
e dois. É muita gente se juntando para colocar um pequeno pedaço de plástico no
mundo.
SUBVERMES: não existe
neutralidade
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| Subvermes - Foto: Divulgação |
Se o DISTRAVAÄTRAVÄ transforma a revolta em pancada, o SUBVERMES deixa ainda mais explícito contra o que está gritando.
A
banda paulistana faz um som visceral que me traz à mente os Ratos de Porão da fase de “Descanse em Paz”, mas levado para um
território ainda mais insano, próximo do crust e do Extreme Noise Terror. É punk/hardcore que não amacia um só segundo.
“Sionazi” já começa me agradando pela
montagem da capa, uma arte do guitarrista e vocalista Amnésia que traz o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu
desconstruído como uma espécie de quebra-cabeça, com uma das peças apresentando
uma bala saindo pela têmpora.
O
encarte reforça a mensagem com um enorme “PALESTINA LIVRE”, enquanto a
contracapa traz outras três definições: ANTI NAZI – ANTI SIONIST – ANTI WAR.
E
os títulos das seis músicas continuam falando por si: “Sem Deuses Nem Mestres”, “Pestilência
Humana”, “Pandema Global”, “A Face da Miséria”, “Stop War Business” e “Sionazi”.
O disco saiu em um bonito
vinil preto esfumaçado, com encarte e a relação dos 22 selos responsáveis pelo
lançamento.
TRÁGICO: São Paulo ainda
tem muito a dizer
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| Trágico - Foto: Divulgação |
Fechando o trio, temos o TRÁGICO e seu “Futuro Miserável”, EP de sete polegadas que recupera o espírito bruto do punk paulistano clássico e o mistura à agressividade do D-beat.
É
uma banda relativamente nova, com apenas três anos de carreira, mas que já tem
um full length no currículo e agora
apresenta este compacto com seis faixas curtas e diretas: “Futuro Miserável”, “Te Odeio
São Paulo” e “Apunhalado Pelas Costas”
de um lado; “Pronto Pra Perder”, “Quando Garotos Ricos Brincam de Guerra”
e “Tudo Será Pó” do outro.
O
som vai de Olho Seco e Lobotomia ao Discharge. Não há espaço para firulas: guitarra, baixo, bateria e
vocal trabalhando para entregar exatamente aquilo que o título promete.
“Futuro Miserável” também é um lançamento caprichado, prensado em
vinil amarelo, com capa dupla, letras, fotos e até adesivo holográfico. E, mais
uma vez, aparece a força da união: 19 selos independentes, espalhados pelo
Brasil e pelo Equador, participaram da cotização.
Três
bandas. Três compactos. Três maneiras diferentes de fazer punk e hardcore.
O
que existe em comum não é necessariamente a música. É a atitude.
São
trabalhos que protestam, incomodam, questionam e recusam o silêncio. E são
também exemplos concretos de uma cena que continua encontrando maneiras de
produzir e distribuir seus próprios discos.
Isso
é particularmente significativo quando vemos a quantidade de selos envolvidos.
Vinte e dois em um lançamento, vinte e dois em outro, dezenove em um terceiro.
É uma rede de gente que se cotiza, divide responsabilidades e mantém a roda
girando.
Esse
tipo de lançamento mostra que o punk, enquanto movimento cultural e
comportamental permanece ativo cinco décadas depois de 1976, ano do primeiro
álbum dos Ramones e um dos marcos
simbólicos de sua história.
Existe
uma infinidade de selos e gêneros dentro dessa árvore genealógica: punk rock,
oi!, street punk, crust, hardcore, D-beat e seja lá o que mais aparecer pela
frente.
Se
existe protesto, insatisfação e grito de rebeldia, existe punk.
E
ele permanece em movimento, como não cansa de me lembrar meu velho amigo Ariel Uliana Junior, vocalista de tantas
bandas, como Restos de Nada, Inocentes, Invasores de Cérebros e Insociáveis,
o eterno guardião do legado punk brasileiro.
Sem concessões. Sem pedir
licença. E, definitivamente, sem parar.







