Mastodon supera tragédias e entrega álbum instigante em 'Marrow Deep'

Mastodon
Marrow Deep
⭐⭐5/5
Por  Lucas Scaliza 


Marrow Deep é inegavelmente o mesmo Mastodon que conhecemos. Todas as nuances da banda estão nesse disco. Desde as alternâncias de vozes, os riffs incríveis de Bill Kelliher, a bateria cheia de energia e sutilezas brutais, e uma carga de emoção que está à mesma altura da complexidade técnica das composições. Para ser sincero, Marrow Deep é o disco mais engajante do Mastodon desde Crack the Skye (2009). Embora Crack já seja um clássico da banda, o novo álbum tem todo o potencial para se tornar emblemático como um renascimento, uma superação, uma entrega de força, sentimento e sludge metal que honra toda a trajetória do Mastodon.

É bom que se diga: o atual tempo presente do Mastodon começou a ser escrito muito antes da partida de Brent Hinds, um ano atrás. O guitarrista, tão carismático quanto problemático (conforme a banda andou relatando), já não estava no mesmo clima que os outros integrantes, que seguiram trabalhando, fazendo shows e escrevendo o próximo disco da banda sem contar com ele, até culminar com sua saída. Embora o material estivesse sendo gestado há muito tempo, a morte de Hinds ressignifica o projeto, o momento, cada faixa, cada pedaço de letra. E a banda sabe disso.


Com 12 novas composições e mais de uma hora de duração, não há faixas medianas. "Barbarians Blood" e "Poisonous Weapons" são tão incríveis, e parecem tão conectadas ao legado já conhecido do Mastodon, que quando chegamos aos singles "Your Ghost Again" e "Snakes for Dinner" (com tímida participação de Josh Homme do Queens of the Stone Age), já estamos totalmente imersos e entregues. A visceral "A Vampire's Demeanor", por exemplo, traz Randy Blythe (Lamb of God) e Nate Newton (Converge e Cave In) para manter a tradição de contar com convidados gritões. Neil Fallon (Clutch) volta a colaborar com o grupo de Atlanta emprestando sua voz para a faixa final. Mas possivelmente a participação mais especial é a de Geezer Butler, do Black Sabbath, em "The Vanishing".

Há alguns anos, o brasileiro João Nogueira assumiu os teclados da banda. Na verdade, não assumiu. Ele inaugurou o instrumento no Mastodon. Anteriormente, ele dobrava os riffs, criava atmosferas, engrossava o caldo. Agora, há solos de teclado e arranjos que somam uma nova dimensão às possibilidades do grupo (a primeira metade de "Moth and Bone", uma das seções mais inovadoras para o repertório do grupo, se escora muito nas habilidades do brasileiro). E o novo guitarrista, o talentosíssimo Nick Johnston, não reinventa a roda. Ele toca tão dentro do contexto já criado pela banda que um desavisado pode nem reparar que o guitarrista mudou. Brent Hinds, apesar de malucão, tinha um talento assombroso para os solos - e temos toda uma discografia para provar isso e relembrar seus feitos. Mas Nick Johnston é incrível nesse quesito também. Agressivo, melodioso, um virtuose que nunca esquece o coração da música. Os solos intercalados de João e Nick em "The Three Fates" são uma das surpresas do disco.




Hushed and Grim (2021) foi um disco duplo. Mesmo com uma grande quantidade de músicas à disposição, o Mastodon não foi capaz ali de mostrar o que podia. Muitas faixas não pareciam almejar um futuro, soando como mais do mesmo. Marrow Deep não traz uma nova banda, que fique claro. Mas é tão instigante em tudo o que propõe que o torna talvez o disco mais consistente da carreira. Tudo tem um propósito, todas as músicas podem fazer parte do show.

Outra característica do disco é como ele serve para novos ouvintes da banda. Não conhece, mas quer começar? Ou quer apresentar o Mastodon para alguém? Sim, você poderia mandar o Crack The Sky ou mesmo o Once More Round The Sun (2014). Mas Marrow Deep é uma experiência completa, bem gravado e com todas as características do quinteto.

E nem só o fantasma de Brent Hinds assombra as tramas sonoras de Marrow Deep. Um furacão varreu do mapa a casa da família do baixista Troy Sanders. A mãe do baterista Brann Dailor também se foi. Tudo isso está condensado no folclore lírico, imagético e musical do álbum. Para quem gosta de ouvir, ler e ver com atenção, Marrow Deep é um deleite. Um dos grandes lançamentos de metal do ano e uma das bandas que promete um futuro promissor.

Lucas Scaliza

Jornalista, músico sem banda e estrategista de marca. Não abre mão de acompanhar os sons do agora. Joga tarô e já foi host de podcast.

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